A obediência: a mais perigosa das virtudes

Os tiranos são perigosos. Mas nenhum poder de massas funciona sozinho: precisa de pessoas dispostas a executar, repetir, conformar-se e deixar que outro pense em seu lugar.

Há uma ideia confortável que atravessa muitas épocas: a de que os grandes crimes da História foram cometidos por monstros.

É uma ideia tranquilizadora porque separa o mal de nós próprios. Os monstros seriam sempre os outros: seres excepcionalmente cruéis, fanáticos, perversos, incapazes de empatia. Nós, pessoas normais, jamais participaríamos em semelhante coisa.

A História, infelizmente, é muito menos reconfortante.

Muitos sistemas de opressão, perseguição e destruição não foram sustentados apenas por fanáticos. Foram sustentados também por pessoas comuns que chegaram a horas ao trabalho, cumpriram instruções, preencheram formulários, transportaram pessoas, guardaram portas, carimbaram autorizações, organizaram listas, executaram procedimentos e regressaram depois a casa para jantar com a família.

Nem todas precisavam de odiar profundamente as vítimas.

Precisavam, muitas vezes, de aceitar a função que lhes fora atribuída.

Quando a responsabilidade se dissolve

A crueldade individual encontra limites na força, no tempo e nos recursos de quem a pratica. A crueldade institucional pode multiplicar-se por milhares de pessoas porque divide a acção em tarefas, departamentos, competências e hierarquias.

Um assina.

Outro autoriza.

Outro transporta.

Outro fiscaliza.

Outro executa.

No fim, cada participante vê apenas uma fracção do processo e pode convencer-se de que a responsabilidade verdadeira se encontra algures acima na cadeia de comando.

É um dos mecanismos morais mais perigosos das organizações humanas: a responsabilidade deixa de ser percebida como pessoal e passa a ser tratada como propriedade abstracta do sistema.

«Recebi ordens.»

«Era o regulamento.»

«Era a lei.»

«Eu apenas fazia o meu trabalho.»

«Se não o fizesse, outro faria.»

Frases banais. Mas uma máquina de poder pode ser construída precisamente com milhões de banalidades coordenadas.

Arendt: o mal sem máscara demoníaca

Hannah Arendt tornou célebre a expressão banalidade do mal ao escrever sobre o julgamento de Adolf Eichmann. A ideia é frequentemente reduzida a uma caricatura: a de que Eichmann seria apenas um burocrata inocente que obedecia a ordens. Não era essa a tese de Arendt.

Arendt não lhe retirou responsabilidade moral nem jurídica. O que a perturbou foi outra coisa: a possibilidade de actos monstruosos coexistirem com uma personalidade que não precisa de parecer monstruosa, e de uma falha profunda de pensamento e julgamento acompanhar crimes de dimensão histórica.

O conceito continua controverso, como deve acontecer com ideias importantes. Mas contém uma advertência que permanece actual: não devemos procurar o mal apenas na aparência do fanático. Devemos também procurá-lo na suspensão do julgamento, no uso automático de fórmulas, na linguagem administrativa que transforma seres humanos em números e na facilidade com que uma função institucional pode anestesiar a consciência individual.

Milgram e a força da autoridade

No início da década de 1960, Stanley Milgram conduziu em Yale experiências que se tornariam clássicas da psicologia social. Os participantes acreditavam estar a administrar choques eléctricos crescentes a outra pessoa, embora os choques não fossem reais. Uma figura de autoridade experimental insistia para que prosseguissem.

No estudo publicado em 1963, 26 dos 40 participantes chegaram ao nível máximo previsto no aparelho. Ao mesmo tempo, muitos demonstraram tensão intensa e outros recusaram continuar. O resultado não prova que o ser humano seja inevitavelmente obediente; prova algo mais útil e mais inquietante: certas condições sociais e institucionais conseguem empurrar pessoas comuns muito para além dos limites que elas próprias julgariam possuir.

Décadas mais tarde, Jerry Burger realizou uma replicação parcial, adaptada aos padrões éticos modernos, e encontrou níveis de obediência apenas ligeiramente inferiores aos observados por Milgram até ao ponto em que a experiência podia ser comparada.

Mas a ciência avançou também pela crítica. Investigadores como Alexander Haslam e Stephen Reicher contestaram a leitura simplista da «obediência automática». A identificação com a autoridade e com a missão que ela representa pode ser decisiva. As pessoas nem sempre obedecem porque deixam de pensar; por vezes colaboram porque passam a acreditar que a autoridade serve uma causa legítima.

Isso não torna o fenómeno menos perigoso.

Torna-o mais sofisticado.

Asch e a solidão de discordar

A autoridade vertical não é o único mecanismo de conformidade.

Existe outro, por vezes ainda mais silencioso: o grupo.

Nos estudos de Solomon Asch sobre independência e conformidade, participantes eram colocados perante uma maioria unânime que dava respostas claramente erradas numa tarefa visual simples. A pressão social era suficiente para levar algumas pessoas a acompanhar respostas que os próprios olhos contrariavam.

É difícil exagerar a importância deste mecanismo.

O ser humano é uma criatura social. Durante grande parte da nossa evolução, sobreviver significou pertencer. A exclusão não era apenas desagradável; podia ser perigosa. A arquitectura biológica mudou muito mais lentamente do que as instituições.

Por isso, quando toda a gente à nossa volta afirma a mesma coisa, discordar tem um custo psicológico.

Quando todos levantam o braço, mantê-lo em baixo exige coragem.

Quando todos repetem uma palavra de ordem, permanecer em silêncio exige coragem.

Quando todos atacam alguém, defendê-lo exige coragem.

Quando todos tratam determinada falsidade como verdade, dizer «não» pode tornar-se um acto de independência intelectual.

O fanático é menos necessário do que pensamos

Daqui nasce uma conclusão particularmente incómoda.

Um regime autoritário não precisa de transformar toda a população em fanáticos.

Precisa de um número suficiente de pessoas que aceite desempenhar a sua função sem colocar a decisão moral acima da cadeia hierárquica.

O fanático acredita.

O obediente executa.

E uma máquina de poder precisa sobretudo que as coisas sejam executadas.

Não é necessário que todos adorem o líder. Basta que os funcionários cumpram, que os polícias apliquem, que os tribunais deixem de resistir, que os jornalistas se calem, que os professores repitam, que os técnicos optimizem e que os cidadãos aprendam a não fazer perguntas inconvenientes.

A força do autoritarismo não reside apenas no homem que ocupa o palácio.

Reside na rede de pequenas obediências que transforma a vontade de poucos na acção de muitos.

A obediência não é o problema. A abdicação é.

Seria absurdo transformar a desobediência numa virtude universal.

Uma sociedade sem regras seria apenas outra forma de violência. Hospitais, aviação, engenharia, redes eléctricas, justiça, segurança ou trânsito dependem de normas, disciplina, treino e coordenação.

O problema não é obedecer.

O problema é abdicar.

Abdicar do julgamento.

Abdicar da responsabilidade.

Abdicar da capacidade de reconhecer que uma ordem pode ser legal e continuar a ser moralmente intolerável, ou que uma maioria pode ser esmagadora e continuar a estar errada.

Uma sociedade funcional precisa de disciplina. Uma sociedade livre precisa, além disso, de cidadãos capazes de perguntar: «Porquê?»

E, em determinadas circunstâncias: «Não.»

Essa pequena palavra talvez seja uma das mais importantes da civilização.

Pensar é também um dever moral

Gostamos de considerar a inteligência uma virtude.

Mas inteligência sem autonomia moral pode transformar-se numa ferramenta extraordinariamente eficiente ao serviço de qualquer poder.

Os grandes sistemas modernos de controlo, perseguição e destruição necessitaram de juristas, administradores, engenheiros, contabilistas, técnicos, cientistas e especialistas em logística.

Pessoas inteligentes.

Competentes.

Organizadas.

O problema nunca foi exclusivamente falta de inteligência.

Muitas vezes foi a separação entre competência técnica e responsabilidade moral.

Por isso, talvez devêssemos acrescentar uma obrigação às virtudes tradicionais da cidadania: pensar antes de obedecer.

Não se trata de viver numa rebelião permanente. Trata-se de conservar uma região interior que nenhuma autoridade deve ocupar por inteiro.

Uma espécie de soberania moral individual.

Um lugar onde continuamos capazes de perguntar:

Isto é justo?

Isto é verdadeiro?

Isto é necessário?

Isto é humano?

E, sobretudo: se todos fizerem isto, em que sociedade estaremos amanhã?

As novas multidões

Seria igualmente confortável acreditar que este problema pertence ao século XX.

Não pertence.

As multidões apenas mudaram de arquitectura.

Antes reuniam-se numa praça. Hoje podem reunir-se numa rede social.

Antes gritavam palavras de ordem. Hoje podem reproduzir frases, vídeos, memes e hashtags numa velocidade que nenhuma praça alguma vez conheceu.

Antes a propaganda precisava de cartazes, jornais e altifalantes. Hoje pode ser distribuída instantaneamente, repetida por milhares de contas e adaptada ao perfil psicológico de audiências diferentes.

A tecnologia mudou radicalmente.

A nossa vulnerabilidade à pertença, à autoridade, à repetição, ao medo e ao inimigo comum mudou muito menos.

E existe uma ironia particularmente moderna: nunca tivemos tanto acesso a informação e nunca foi tão fácil participar numa multidão sem sequer sair de casa.

A liberdade começa antes da urna

Quando falamos de democracia pensamos frequentemente em eleições.

Mas uma democracia não começa na urna.

Começa na cabeça de cada cidadão.

Uma sociedade pode conservar eleições e perder progressivamente a liberdade se os cidadãos deixarem de questionar o poder, de exigir explicações, de confrontar versões oficiais, de tolerar dissidência e de defender o direito dos outros a pensar de maneira diferente.

A democracia depende de instituições.

Mas depende igualmente de uma cultura de independência.

Não precisamos apenas de cidadãos informados.

Precisamos de cidadãos intelectualmente autónomos.

Não precisamos apenas de pessoas que saibam ler.

Precisamos de pessoas que saibam duvidar.

Não precisamos apenas de inteligência.

Precisamos de consciência.

Os tiranos continuarão a existir.

Os fanáticos também.

A pergunta decisiva será sempre outra:

quantas pessoas estarão dispostas a entregar-lhes a própria consciência?

Talvez a defesa mais profunda da civilização comece exactamente naquele instante silencioso em que um ser humano recebe uma ordem, vê os outros a cumpri-la, sente o peso da autoridade e da multidão — e ainda assim preserva a capacidade de julgar.

Porque há coisas que podem ser delegadas.

A consciência não é uma delas.

Referências

The Journal of Abnormal and Social Psychology / APA
Stanley Milgram, «Behavioral Study of Obedience», 1963. Estudo experimental clássico sobre obediência a uma autoridade em contexto laboratorial.
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PubMed — U.S. National Library of Medicine
Registo bibliográfico do artigo de Milgram, Journal of Abnormal Psychology, 67, 371–378, 1963, PMID 14049516.
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American Psychologist / American Psychological Association
«Obedience — Then and Now», número especial de Janeiro de 2009 dedicado ao legado, replicação e interpretação dos estudos de Milgram.
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American Psychologist
Jerry M. Burger, «Replicating Milgram: Would People Still Obey Today?», 2009. Replicação parcial com salvaguardas éticas modernas.
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Psychological Monographs / American Psychological Association
Solomon E. Asch, «Studies of Independence and Conformity: I. A Minority of One Against a Unanimous Majority», 1956. Trabalho clássico sobre pressão do grupo e independência do julgamento.
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PLOS Biology
S. Alexander Haslam e Stephen D. Reicher, «Contesting the "Nature" of Conformity: What Milgram and Zimbardo's Studies Really Show», 2012. Reavaliação da obediência a partir da identidade social e da identificação com a autoridade.
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Stanford Encyclopedia of Philosophy
«Hannah Arendt». Síntese académica do pensamento de Arendt, incluindo totalitarismo, responsabilidade, julgamento e a controversa noção de banalidade do mal.
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Stanford Encyclopedia of Philosophy
«The Concept of Evil». Discussão filosófica do mal, incluindo a interpretação e as controvérsias em torno de Arendt e Eichmann.
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The New Yorker
Hannah Arendt, «Eichmann in Jerusalem—I», Fevereiro de 1963. Primeira parte da reportagem que esteve na origem de Eichmann in Jerusalem.
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The New Yorker
Hannah Arendt, «Truth and Politics», 1967. Ensaio sobre verdade factual, opinião e vida política, relevante para a relação entre julgamento individual, poder e esfera pública.
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Nota Editorial

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