BOX DE FACTOS

  • A OCDE concluiu em 2026 que a convergência do nível de vida português estagnou ao longo de duas décadas.
  • A produtividade portuguesa continuava em 80,5% da média da União Europeia, uma das mais baixas do bloco.
  • A OCDE assinalou que, em Portugal, a participação dos interessados no processo regulatório tende a acontecer demasiado tarde.
  • O GRECO concluiu em 2025 que Portugal ainda tinha várias recomendações anti-corrupção por implementar.
  • O PS não surge agora como observador inocente do problema: surge como um dos seus principais autores históricos.

O PS e a Impostura do Progresso Tardio

Há partidos que prometem o futuro porque nunca tiveram ocasião de o falhar. E há outros que regressam, décadas depois, com o mesmo vocabulário de progresso — depois de terem ajudado a produzir o país atrofiado que agora fingem vir salvar.

Há um momento em que a política deixa de poder refugiar-se na amnésia. Um momento em que já não basta mudar o tom, reaprender o vocabulário da modernização ou vestir de novo as velhas promessas com linguagem de futuro. O PS chegou a esse ponto. Quando hoje fala de desenvolvimento, I&D, progresso, sofisticação económica e ambição nacional, fala como se estivesse a descobrir, quase por epifania, aquilo que Portugal precisava. Mas Portugal não está à espera dessa descoberta. Está a viver, há décadas, as consequências do falhanço daqueles que prometeram exactamente o mesmo e governaram longamente o país.

O problema não é apenas de incoerência retórica. É de responsabilidade histórica. O PS não é um partido que se limitou a comentar a decadência portuguesa do lado de fora. Foi um dos principais ocupantes do centro do poder ao longo dos últimos cinquenta anos. Participou na moldagem do Estado, na cultura de governação, na administração da economia, na escolha das prioridades públicas e na arquitectura geral do regime. Pode dividir culpas com outros, certamente. Mas não pode fingir inocência. Quando o país chega a 2026 com baixa produtividade, fragilidade estrutural, serviços públicos sob tensão, administração pesada e um sentimento difuso de atraso persistente, o PS não pode comportar-se como se viesse agora salvar um desastre que lhe caiu no colo vindo do céu.

Décadas de promessa, décadas de insuficiência

A OCDE foi cristalina no seu Economic Survey of Portugal 2026: a convergência do nível de vida português estagnou ao longo de duas décadas, arrastada por produtividade fraca e investimento limitado. A Reuters recordou, no final de 2025, que a produtividade portuguesa permanecia em 80,5% da média da União Europeia, uma das mais baixas do bloco. Estas duas ideias, juntas, bastam para rasgar a cortina da propaganda: um país que fala há tanto tempo de modernização mas continua preso a um fosso estrutural de produtividade não foi bem governado. Foi, no máximo, administrado com elegância burocrática.

E é precisamente aqui que o discurso socialista sobre o futuro se torna quase ofensivo. Não porque seja ilegítimo falar de I&D, ciência, reindustrialização, tecnologia ou progresso. Pelo contrário: isso devia ter sido levado a sério há muito. O que ofende é a tentativa de apresentar essas palavras como se bastassem para apagar décadas de prática insuficiente. O PS quer agora parecer o partido do salto estratégico, quando uma parte considerável do atraso português se consolidou sob a sua longa presença no poder. Quer soar a força de renovação quando foi, tantas vezes, pilar da continuidade. Quer apresentar-se como arquitecto do amanhã quando ajudou a normalizar o empobrecimento relativo do presente.

A máquina partidária e o país real

Também no plano institucional o problema é pesado. A OCDE, no Regulatory Policy Outlook 2025, observou que em Portugal o envolvimento dos interessados no processo regulatório tende a ocorrer demasiado tarde. Essa é uma formulação diplomática para algo bem mais cru: a sociedade civil entra pouco e tarde, enquanto os aparelhos partidários e administrativos continuam a controlar o momento real da decisão. O país real aparece à porta quando a decisão já subiu ao palco.

Isto encaixa demasiado bem com a intuição de que o regime se fechou sobre si mesmo. O povo vota, os partidos alternam, os discursos mudam, mas a máquina de definição do essencial permanece largamente capturada por um círculo estreito de poder e de linguagem. Em vez de um país pensado a partir das necessidades vivas da sociedade, temos demasiadas vezes um país gerido a partir da autoconservação de aparelhos.

Corrupção, opacidade e moral baixa de regime

A corrupção e a opacidade são outro capítulo impossível de varrer para debaixo do tapete. O GRECO concluiu em 2025 que Portugal tinha apenas implementado parcialmente 18 de 28 recomendações sobre prevenção da corrupção no Governo central e nas forças de segurança, deixando 10 por cumprir. A OCDE, no Anti-Corruption and Integrity Outlook 2026, insiste que a integridade pública depende da implementação prática das regras e não apenas do seu desenho formal.

Ora, o que Portugal tem mostrado demasiadas vezes é precisamente isto: muita arquitectura no papel, pouca coragem na execução, demasiada tolerância à zona cinzenta e uma estranha capacidade do sistema para sobreviver ao descrédito sem grande reforma moral. Quando um partido que governou longamente este regime se reapresenta com um discurso lavado de progresso e modernização, não se pode pedir ao país que faça de conta que o passado não existe.

A impostura do progresso tardio

Por isso, quando o PS volta a falar de progresso, o problema não é a beleza abstracta das ideias. O problema é a brutalidade do histórico. Este partido falou de modernização durante anos. Falou de Europa, inovação, conhecimento, competitividade, transição, requalificação, coesão e futuro. E enquanto falava, Portugal ia ficando com uma economia de baixa produtividade, um Estado por reformar, uma justiça pesada, um tecido produtivo insuficientemente denso, salários curtos e uma sensação crescente de que a política já não governava para transformar, mas apenas para gerir a vulgaridade.

É importante dizer isto com rigor: o problema não é apenas o PS. Houve alternância, cumplicidades cruzadas e um regime mais vasto do que um único partido. Mas o PS tem uma responsabilidade central porque foi um dos principais condutores do veículo. Não pode agora descer do carro avariado, apontar para a estrada em ruínas e apresentar-se como turista indignado. O partido esteve ao volante em demasiados momentos decisivos para poder fingir surpresa perante o destino.

Discursos não reconstruem uma nação

E é aqui que surge a pergunta dura: podem discursos e palavras, por si só, mudar Portugal? Não. Nunca puderam. Podem, no máximo, adiar a cobrança histórica, embalar uma parte do eleitorado cansado e oferecer ao regime mais algum oxigénio retórico. O povo não é idiota por definição. Mas pode estar fatigado, resignado, fragmentado e encurralado por uma oferta política onde o passado se mascara repetidamente de futuro. Isso não absolve o sistema; agrava a sua culpa.

Porque significa que a máquina partidária aprendeu a sobreviver não apesar do fracasso, mas através da sua gestão comunicacional. Aprendeu a reapresentar-se como solução, precisamente depois de ter sido problema. Aprendeu a converter memória curta em vantagem táctica. E aprendeu, acima de tudo, a usar a pobreza de alternativas como substituto da credibilidade perdida.

Portugal precisa de ruptura, não de retórica reciclada

Portugal não precisa de mais promessas de progresso proferidas por quem ajudou a bloquear o progresso real. Precisa de ruptura com a cultura política que transformou a decadência em normalidade, a promessa em liturgia e a alternância em desculpa para nunca tocar no osso do problema. Precisa de desalojar a vulgaridade organizada, a administração da mediania e a economia de favor que mantêm o país aquém da sua dignidade histórica.

Sem essa ruptura, continuaremos a assistir à mesma peça: os mesmos actores, os mesmos slogans, a mesma música de fundo europeísta e modernizadora, e o mesmo resultado estruturalmente curto. Muda a encenação, mas a substância mantém-se. E Portugal continua a ser governado como um país em permanente campanha de lançamento para um futuro que nunca chega a aterrar.

Epílogo

No fim, a acusação torna-se simples e inevitável: o PS não pode pedir ao país que esqueça meio século de promessas falhadas só porque reapareceu com o léxico do progresso na boca. A história conta. O lastro conta. E o país real conta ainda mais.

Quem ajudou a produzir este Portugal frágil, lento, empobrecido e institucionalmente gasto não ganha legitimidade nova apenas por voltar a pronunciar palavras bonitas sobre o amanhã. O futuro exige mais do que discurso. Exige coragem para romper com a cultura política que nos trouxe até aqui.

Quem ajudou a conduzir Portugal à gestão da decadência não ganha autoridade histórica só porque reaprendeu o vocabulário do progresso.

Referências

OCDE — Economic Survey of Portugal 2026.
OCDE — Regulatory Policy Outlook 2025 e perfil de Portugal.
OCDE — Anti-Corruption and Integrity Outlook 2026.
Reuters — dados sobre a produtividade portuguesa face à média da União Europeia.
Conselho da Europa / GRECO — seguimento das recomendações anti-corrupção para Portugal.

Francisco Gonçalves
Para o Fragmentos do Caos
Com coautoria editorial de Augustus Veritas

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.