BOX DE FACTOS
  • O SIRESP falhou em incêndios, cheias, tempestades e crises sucessivas.
  • Foi financiado com centenas de milhões de euros públicos.
  • É gerido por uma estrutura privada com responsabilidades difusas.
  • Sobreviveu a auditorias, relatórios e promessas sem nunca ser reconstruído de raiz.
  • Em emergência nacional, continua a depender da sorte.

SIRESP: O Sistema Que Nunca Funcionou Quando Era Preciso

Não há tragédia natural em Portugal que não venha acompanhada de uma frase conhecida: "As comunicações falharam."

O SIRESP é talvez o maior monumento tecnológico ao fracasso persistente do Estado português. Não porque a tecnologia não exista — existe, e de excelência — mas porque foi transformada num negócio político, contratual e opaco.

Quando nasceu, prometia ser moderno, resiliente, redundante, imune a catástrofes. Hoje, décadas depois, tornou-se uma piada amarga repetida sempre que o fogo sobe a encosta ou a água entra pelas casas.

Um sistema que falha sempre no momento errado

Falhou nos grandes incêndios. Falhou em tempestades. Falhou em cheias. Falhou quando bombeiros precisavam de coordenar meios. Falhou quando vidas dependiam de segundos.

E o mais perturbador não é o erro técnico. É a sua repetição sistemática sem consequência.

Em qualquer país funcional, um sistema de comunicações de emergência que falhasse uma única vez seria imediatamente suspenso, auditado, substituído. Em Portugal, falha há anos — e continua.

O problema nunca foi tecnológico

Não faltam soluções:

  • Redes híbridas TETRA + LTE
  • Satélite de backup
  • Redundância regional autónoma
  • Comunicações mesh móveis
  • Infra-estruturas públicas sob controlo do Estado

Tudo isto existe. Tudo isto é usado noutros países. Tudo isto é tecnicamente trivial para 2026.

O que nunca existiu foi coragem política para desmontar o erro original.

O SIRESP não é um sistema — é um contrato

O drama profundo é este: o SIRESP deixou de ser visto como infraestrutura crítica e passou a ser tratado como concessão.

Quando a emergência depende de cláusulas contratuais, a prioridade deixa de ser salvar vidas — passa a ser salvar responsabilidades.

E assim se criou o absurdo: um sistema que ninguém confia, que todos criticam, mas que ninguém substitui.

O "trapo roto" da República

O SIRESP tornou-se o "trapo roto" da governação portuguesa: remendado após cada tragédia, lavado em relatórios, pendurado em promessas, e usado novamente até rasgar outra vez.

Não é azar. Não é má sorte. Não é clima extremo.

É incompetência estrutural protegida por silêncio institucional.

Epílogo: quando o sistema falha, falha o Estado

Um país pode não controlar incêndios. Pode não controlar tempestades. Pode não controlar fenómenos naturais.

Mas tem obrigação absoluta de controlar as comunicações de emergência.

Quando nem isso é garantido, o problema já não é tecnológico. É civilizacional.

E enquanto o SIRESP continuar a falhar, cada sirene que toca lembra uma verdade dura:

em Portugal, o perigo não é apenas o fogo — é o silêncio que se segue quando ninguém consegue falar.

Secção Técnica — Porque o SIRESP é Estruturalmente Errado

O problema do SIRESP não é um "azar técnico", nem um defeito pontual de equipamento. É um erro de arquitectura de raiz.

Mesmo que todos os rádios fossem novos, todas as antenas modernas e todo o software actualizado, o sistema continuaria vulnerável. Porque foi desenhado contra os princípios básicos de comunicações críticas.

1. Centralização excessiva

O SIRESP depende fortemente de centros de comutação e controlo centrais. Isto significa que:

  • se um nó crítico falha, regiões inteiras ficam mudas;
  • o sistema não degrada — colapsa;
  • a inteligência da rede está longe do terreno.

Em comunicações de emergência, a regra é oposta: a rede deve sobreviver mesmo quando o centro desaparece.

O SIRESP faz exactamente o contrário.

2. Ausência de autonomia local

Um quartel de bombeiros, um comando distrital ou uma força no terreno não consegue operar de forma autónoma se perder ligação ao núcleo central.

Isso é tecnicamente inaceitável.

Em sistemas modernos:

  • as estações devem comunicar directamente entre si;
  • as células devem formar redes locais independentes;
  • a hierarquia deve surgir depois da sobrevivência.

No SIRESP, sem rede central, não há rede.

3. Falta de redundância real

Redundância não é ter duas antenas. Redundância é ter tecnologias diferentes.

O SIRESP assenta quase exclusivamente numa única tecnologia (TETRA), sem camadas automáticas de fallback como:

  • LTE de emergência;
  • redes mesh móveis;
  • ligações satélite activadas automaticamente;
  • backhaul independente da rede eléctrica local.

Quando essa tecnologia é afectada — por fogo, vento, energia ou saturação — o sistema inteiro cai em cadeia.

4. Infra-estrutura vulnerável ao ambiente

Grande parte das estações está instalada:

  • em locais isolados;
  • com fraca protecção térmica;
  • com autonomia energética limitada;
  • dependente da rede eléctrica pública.

Num país onde incêndios florestais são recorrentes, isto equivale a construir comunicações sobre fósforos.

Em sistemas críticos internacionais, a autonomia mínima é:

  • 72 horas sem energia externa;
  • combustível protegido;
  • activação remota;
  • monitorização em tempo real.

No SIRESP, muitas vezes a falha começa exactamente com a queda da energia.

5. Arquitectura fechada e contratualizada

O sistema não pertence verdadeiramente ao Estado. Pertence a um modelo contratual.

Isso gera três problemas graves:

  • o Estado não controla plenamente a engenharia;
  • a evolução depende de contratos e aditamentos;
  • a transparência técnica é limitada.

Infra-estruturas críticas não podem ser caixas negras.

Comunicações de emergência não são um serviço — são soberania.

6. Ausência de testes extremos reais

O sistema raramente é testado em condições equivalentes a:

  • calor extremo;
  • falha total de energia;
  • colapso simultâneo de múltiplos nós;
  • sobrecarga massiva de comunicações.

Quando o teste acontece, é já durante a tragédia.

E sistemas que só são testados quando vidas dependem deles não são sistemas — são apostas.

Conclusão técnica

O SIRESP não falha porque é velho. Falha porque foi mal concebido.

Foi desenhado como um sistema de telecomunicações normal, quando deveria ter sido desenhado como uma infra-estrutura de sobrevivência nacional.

Enquanto não existir:

  • controlo público total;
  • arquitectura distribuída;
  • redundância tecnológica múltipla;
  • autonomia energética real;
  • capacidade local independente;

qualquer remendo será apenas isso.

Historial de Falhas do SIRESP em Momentos Críticos

O SIRESP não tem apenas "incidentes". Tem um historial. E um historial, quando se repete sob stress extremo, deixa de ser azar: passa a ser padrão estrutural.

  • Junho de 2017 — Incêndio de Pedrógão Grande e Góis
    A falha de comunicações foi amplamente assinalada, com referência a indisponibilidades da rede SIRESP, a par de problemas nas redes móveis públicas, obrigando ao recurso a alternativas para garantir coordenação e pedidos de socorro. 0
  • Outubro de 2017 — Grandes incêndios de 14–16 de Outubro
    A avaliação técnica independente dos incêndios de Outubro de 2017 voltou a apontar falhas relevantes no dispositivo e nas comunicações, num contexto de crise generalizada e abandono dramático de populações em múltiplos teatros de operações. 1
  • 2017 — Reconhecimento político de falhas em antenas móveis no terreno
    Em audição parlamentar, foi admitida a falha de antenas móveis em operações de combate a incêndios (ex.: Sertã), reforçando que os "remendos" de contingência também falham quando o ambiente se torna hostil. 2
  • Abril de 2025 — Apagão e perturbações de comunicações
    Após o apagão de Abril de 2025, voltou a surgir discussão pública sobre falhas graves nas comunicações de emergência e sobre a governação/modernização do sistema, evidenciando que o problema persiste e regressa sempre em crises transversais (energia → comunicações → coordenação). 3
  • Janeiro de 2026 — Temporal (depressão "Kristin") e falhas prolongadas em município
    Autarcas e operações no terreno relataram que a rede SIRESP deixou de funcionar em zonas afectadas, com períodos longos de indisponibilidade, Lobrigando ao recurso a métodos alternativos para pedidos de socorro e coordenação. 4
  • Janeiro de 2026 — Zonas sem comunicações e recurso a alternativas operacionais
    Relatos públicos voltaram a indicar falhas "por completo" em algumas áreas, com utilização de telefone satélite e outros meios alternativos, um sinal clássico de ausência de redundância automática e de autonomia local efectiva. 5

Nota técnica: o ponto comum em quase todos estes episódios é a falha sob stress — calor extremo, vento, queda de energia, saturação, ou destruição parcial de infra-estruturas. Um sistema de emergência não pode "funcionar na média": tem de funcionar no pior dia do ano.

Quando o país precisa de voz, o SIRESP oferece silêncio — e o silêncio, em emergência, é sempre um inimigo.

mais um fio cosido num trapo que já não aguenta outro incêndio.

Francisco Gonçalves
Coautoria: Augustus Veritas (IA Assistant) — Fragmentos do Caos News Team
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.