Crónica crítica sobre o risco hídrico crónico em Portugal, a ilusão de abundância e décadas de ausência de planeamento estrutural

- Alerta: O risco hídrico em Portugal está a tornar-se crónico e mais variável.
- Fonte: Kaveh Madani — Instituto para a Água, Ambiente e Saúde (ONU).
- Problema central: A expansão do abastecimento cria falsa percepção de abundância.
- Paradoxo: Um país atlântico aproxima-se de escassez estrutural.
- Causa profunda: Décadas sem planeamento hídrico integrado.
Portugal e o Paradoxo da Seca
A notícia deveria provocar choque nacional. Mas em Portugal provoca apenas um breve franzir de sobrolho… seguido de silêncio.
Segundo Kaveh Madani, director do Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, o risco hídrico português está a tornar-se simultaneamente mais crónico e mais variável.
Traduzido para linguagem não diplomática: a água começa a faltar — e quando aparece, aparece mal distribuída, mal armazenada e pior gerida.
O país da água que esqueceu a água
Portugal tem rios internacionais, bacias hidrográficas extensas, uma das maiores zonas económicas marítimas da Europa e dezenas de barragens construídas ao longo de meio século.
Mesmo assim, chegámos ao ponto surreal de discutir racionamento, limitações agrícolas e colapsos sazonais.
Isto não é resultado das alterações climáticas apenas. É o produto de décadas de irresponsabilidade política.
Planeamento hídrico nunca deu votos. Inaugurar obras sim.
A ilusão da abundância
Madani alerta para algo ainda mais inquietante:
"O aumento do abastecimento cria uma percepção de abundância."
Ou seja: quanto mais se constrói sem planeamento, mais se consome irresponsavelmente.
É o mesmo erro cometido com fundos europeus, com betão, com estradas vazias, com aeroportos sem aviões.
Abastecer não é gerir. Captar não é planear. Distribuir não é preservar.
O drama não é a seca — é a incompetência
A seca é um fenómeno natural.
A ausência de reservatórios interligados, de reutilização de águas residuais, de dessalinização estratégica, de captação subterrânea científica, de redes inteligentes de distribuição — isso é falha humana.
Não tecnológica. Não financeira. Política.
Portugal teve quarenta anos para preparar este cenário.
Preferiu ignorá-lo.
Um país que reage sempre tarde
Em Portugal planeia-se depois da tragédia.
- Arde-se — depois cria-se um plano florestal.
- Inunda-se — depois fala-se em ordenamento.
- Falta água — depois criam-se comissões.
Nunca antes. Sempre depois.
A política portuguesa vive numa cultura reactiva, incapaz de pensar a 20 ou 30 anos — apesar de a ciência o fazer há décadas.
O futuro será hídrico — ou não será
A água será o petróleo do século XXI.
Quem a planear hoje terá soberania amanhã. Quem a desperdiçar agora dependerá depois.
Portugal, ironicamente, possui todas as condições para ser exemplo europeu:
- Atlântico permanente
- Energia solar abundante
- Conhecimento universitário
- Território controlável
Falta apenas aquilo que nunca aparece nos relatórios técnicos:
governação competente.
Epílogo — quando o improvável se torna português
Há países onde a escassez é fatalidade.
Em Portugal, a escassez é muitas vezes escolha.
Não por maldade — mas por uma combinação devastadora de mediocridade, curto-prazo e ausência de visão de Estado.
Quando até a água começa a faltar num país rodeado por ela, já não estamos perante crise climática apenas.
Estamos perante crise civilizacional de governação.
E essa, infelizmente, não cai do céu.
Constrói-se. Ano após ano. Ministro após ministro. Promessa após promessa.
Fonte / Origem do Alerta (ONU)
A referência ao alerta do director do Instituto para a Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), Kaveh Madani, surge em contexto de análises e comunicações públicas do próprio instituto, bem como na cobertura jornalística nacional sobre a evolução do risco hídrico em Portugal.
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UNU-INWEH (ONU) — Artigo/explicação oficial:
https://unu.edu/inweh/article/world-water-bankruptcy-un-scientists-report-heres-what-means
(Página do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Ambiente e Saúde.) -
UNU-INWEH (ONU) — Relatório (PDF) associado:
https://www.infobuildenergia.it/wp-content/uploads/2026/01/Global_Water_Bankruptcy_Report__2026_.pdf
(PDF do relatório "Global Water Bankruptcy" atribuído a Kaveh Madani / UNU-INWEH.) -
Imprensa (Portugal) — Entrevista/cobertura do alerta:
https://www.publico.pt/2026/01/20/azul/entrevista/portugal-risco-hidrico-tornarse-cronico-variavel-2161790
(Público — secção Azul, entrevista sobre risco hídrico em Portugal.)
Este bloco sintetiza medidas tecnicamente comprovadas e já aplicadas noutros países, adaptáveis a Portugal. A lógica é simples: diversificar origens, reduzir perdas, reutilizar e gerir aquíferos como património estratégico, não como "água invisível".
- Onde faz sentido: zonas costeiras com pressão turística e agrícola (Algarve, litoral alentejano, áreas metropolitanas em stress sazonal).
- Como tornar viável: unidades modulares por fases; integração com solar/eólica e contratos de energia de baixo custo; armazenamento/bombagem quando há excedentes.
- Regra de ouro: dessalinizar para abastecimento e resiliência, não para alimentar desperdício.
- Cuidados críticos: gestão da salmoura (difusores, monitorização, localização adequada) e transparência ambiental.
- Aplicações imediatas: rega agrícola e urbana, limpeza de ruas, indústria, combate a incêndios (reservatórios), recarga controlada de aquíferos.
- O que falta em Portugal: redes dedicadas ("rede roxa"), contratos municipais e planeamento para reaproveitar caudais das ETAR.
- Ganho estrutural: reduz captação em rios e barragens, sobretudo no Verão, quando o país mais consome e menos recebe.
- Condição: qualidade e fiscalização rigorosa — e comunicação pública séria para evitar mitos e pânico social.
- O princípio: quando chove muito (episódios extremos), em vez de "perder" para o mar, canalizar parte para infiltração controlada e armazenamento subterrâneo.
- Técnicas: bacias de infiltração, valas drenantes, poços de recarga, retenção em linhas de água, zonas húmidas artificiais.
- Onde é vital: zonas costeiras com intrusão salina (Algarve e partes do litoral), onde o aquífero precisa de "pressão" de água doce.
- Condição crítica: cartografia hidrogeológica actualizada, monitorização contínua, licenciamento sério e combate à captação ilegal.
- Medidas: sectorização (DMA), sensores de pressão/caudal, detecção acústica de fugas, substituição dirigida de condutas críticas.
- Gestão moderna: telemetria, gémeo digital da rede, manutenção preditiva, auditorias independentes anuais.
- Regra simples: antes de "buscar mais água", perder menos.
- Eficiência real: rega gota-a-gota bem dimensionada, sondas de humidade, rega nocturna quando adequado, redução de evaporação.
- Escolha de culturas: adequação ao clima e ao solo; evitar expansão cega de culturas altamente consumidoras em regiões vulneráveis.
- Incentivos: apoiar produtividade hídrica (€/m³ poupado) e não apenas área regada.
- Plano a 20–30 anos: metas por bacia hidrográfica, com execução auditada e pública.
- Dados abertos: monitorização de barragens, aquíferos, perdas, consumos, qualidade, intrusão salina.
- Preço inteligente: tarifários que penalizem desperdício e protejam consumos essenciais; combate a usos ilegais.
- Responsabilidade: quem promete, entrega; quem falha, responde. Sem isto, qualquer solução vira folheto.
Fragmentos do Caos — Crónica de cidadania
(Quando até a água nos abandona, talvez seja tempo de mudar quem governa a torneira.)