A Barragem Invisível: Água Doce no Subsolo das Zonas Costeiras Portuguesas (MAR + Barreira Anti-Intrusão)

- Problema: intrusão salina e escassez sazonal em zonas costeiras baixas (Caparica, Espinho/Ria de Aveiro, Algarve, Moledo).
- Erro clássico: "trazer o mar para dentro" — tende a salinizar o aquífero.
- Solução: MAR (Recarga Gerida do Aquífero) + barreira anti-intrusão + captação a montante + monitorização contínua.
- Vantagem: armazenamento subterrâneo sem evaporação, com custo energético baixo (comparado com dessalinização total).
- Aplicação: pilotos municipais/regionalizados, escaláveis em 3–5 anos com telemetria e regras de exploração sazonais.
A Barragem Invisível: Água Doce no Subsolo das Zonas Costeiras Portuguesas
Há uma tentação quase bíblica nas zonas costeiras: olhar o oceano e imaginar que, algures, existe um "atalho" subterrâneo para transformar sal em potável. A intuição é bonita, mas a hidrogeologia é um juiz severo: quando se liga directamente o mar ao subsolo, o mais provável é criar um braço de mar escondido, uma fábrica silenciosa de salinização.
A alternativa que funciona é mais elegante — e mais portuguesa: aproveitar a inteligência do subsolo, como se cada grão de areia fosse um pequeno cofre. O nome técnico é Gestão de Recarga de Aquíferos (MAR) (do inglês Managed Aquifer Recharge) e a ideia central é simples:captar água doce em épocas de excedente (Inverno) e armazená-la em aquíferos para uso em épocas de escassez (Verão), ajudando simultaneamente a travar a intrusão salina.
O erro: "abrir caminho ao mar"
Quando se cria uma ligação entre o mar e uma cavidade subterrânea, mesmo com controlo, acontece o inevitável: o sal infiltra-se, difunde-se, mistura-se e pressiona a cunha salina para o interior. O resultado típico é água salobra — e o sal, como certos vícios políticos, entra fácil e sai caro.
A solução: um sistema integrado (MAR + Barreira + Captação a montante)
Em vez de trazer água salgada, cria-se uma lente de água doce mais robusta e controlada. Isto faz-se com quatro elementos: captação, pré-tratamento, recarga e defesa anti-intrusão, suportados por monitorização contínua.
Corte geológico: a lente de água doce e a cunha salina
Em aquíferos costeiros, a água doce forma uma lente sobre água salgada. Se a extracção for agressiva, o nível desce e a cunha salina avança. A estratégia é subir e estabilizar a lente: recarregar no Inverno e explorar com regra no Verão.
Monitorização: a água precisa de sensores, não de fé
Um sistema destes não vive de promessas: vive de telemetria. Nível piezométrico, condutividade eléctrica, cloretos, nitratos, temperatura. E, se quisermos fazer isto com rigor do século XXI, vive também de modelos preditivos: regras sazonais, alertas, cenários de exploração e resposta rápida.
[Interior] [Costa / Mar]
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| PZ1 PZ2 PR1 PR2 B1 B2 B3 PC1
| o-------o------o-------o----------o---o---o---------o
| \ (barreira: linha de poços)
| \____ PZ3 ____ PZ4 ____ PZ5 ____ PZ6 ____/
|
Legenda:
PZ = piezómetro (nível + EC + cloretos + nitratos)
PR = poço de recarga (injecção controlada no Inverno)
B = poço da barreira (injecção OU bombagem selectiva, conforme projecto)
PC = poço de captação (a montante, com polimento final para potável)
Aplicação em Portugal: onde isto faz sentido primeiro
Caparica (planície arenosa e pressão urbana), Ria de Aveiro/Espinho (dinâmicas de ria/estuário), Algarve (casos históricos de intrusão salina e procura turística), Moledo/Caminha (reservar excedentes de Inverno e estabilizar aquíferos costeiros). O segredo não é "um projecto nacional abstracto". O segredo é pilotos locais com regras claras e métricas.
Plano Piloto (12–18 meses): estrutura de execução
- 0–3 meses: levantamento hidrogeológico, pontos de monitorização, ensaios de caudal e qualidade.
- 3–6 meses: construção (bacia de infiltração e/ou poços de recarga), telemetria e linha de barreira em modo de teste.
- 6–12 meses: operação sazonal (recarregar no Inverno, explorar no Verão), calibração de regras e alarmística.
- 12–18 meses: relatório de resultados e escala (mais células de recarga, ajuste da barreira, reforço de qualidade).
Epílogo: o país que guarda água guarda futuro
O subsolo é a barragem que não evapora. Não se fotografa bem em campanha, é certo — não dá fitas nem inaugurações fáceis. Mas dá o que interessa: resiliência. Uma costa que não bebe sal. Um Verão que não entra em pânico. Um país que aprende a reservar.
E se um dia quisermos elevar isto ao seu grau máximo de modernidade, há um passo inevitável: IA de monitorização ambiental — modelos que prevêem intrusão, detectam anomalias e ajustam recarga/exploração quase em tempo real. A água, nessa altura, deixa de ser um acidente — passa a ser um sistema.
Referências e fontes (seleção)
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LNEC / parceiros — Síntese de ensaios de demonstração MAR no Algarve (Campina de Faro e Querença-Silves), enquadramento do projecto europeu MARSol.
(ver: sapientia.ualg.pt — publicação "Gestão de recarga induzida de aquíferos…") -
Livro Branco MARSOL — Viabilidade técnica e riscos/qualidade de água associados à Gestão de Recarga de Aquíferos.
(ver: repositorio.lnec.pt — "Livro branco da gestão da recarga de aquíferos") -
APRH / Seminário Águas Subterrâneas — Estudos e comunicações sobre o aquífero costeiro da Costa da Caparica (hidrogeoquímica/hidrodinâmica e contaminação por água marinha).
(ver: aprh.pt — PDF "aquífero na planície arenosa da Costa da Caparica") -
UAlg — Página institucional sobre "Soluções de Gestão de Recarga de Aquíferos" (MARSOLut) e enquadramento científico.
(ver: ualg.pt — "Soluções de Gestão de Recarga de Aquíferos") -
Literatura científica recente — Índices de viabilidade e mapeamento para MAR no sul de Portugal (abordagens MCDA).
(ver: ScienceDirect — "managed aquifer recharge feasibility index…")
Para além do ensaio técnico, deixo aqui a documentação completa do conceito AQUA-TERRA, preparada em formato institucional europeu (INTERREG / LIFE / Horizon), incluindo proposta, cronograma e apresentação.
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Proposta Europeia (DOCX) — versão institucional para consórcio e submissão.
Download: PROPOSTA_EU.docx -
Candidatura INTERREG (DOCX) — estrutura completa de aplicação e entregáveis.
Download: INTERREG.docx -
Gantt (48 meses) — cronograma de work packages e fases de execução.
Ver/Download: -
Apresentação (PPTX) — pitch deck para municípios, CCDR, universidades e parceiros europeus.
Download Apresentação PowerPoint -
Imagem ilustrativa — visão simbólica do sistema (MAR + barreira anti-intrusão + monitorização).
Ver imagem: