ATLANTIS-pH: Um Piloto Científico para Mitigar a Acidificação dos Oceanos

- O que é: acidificação dos oceanos = descida do pH causada pela absorção de CO₂ atmosférico.
- Porquê importa: reduz carbonatos (CO₃²⁻) e dificulta conchas, recifes e calcificação.
- O risco: efeitos em cascata na biodiversidade, pescas, berçários costeiros e estabilidade ecológica.
- O princípio certo: sem reduzir CO₂ na fonte, tudo o resto é paliativo.
- ATLANTIS-pH: piloto experimental com fotobioreactores fechados + recolha de biomassa + MRV; opcionalmente, aumento controlado de alcalinidade.
- Filosofia: "medir antes de escalar" — ciência prudente, reversível e auditável.
ATLANTIS-pH: Um Piloto Científico para Mitigar a Acidificação dos Oceanos
1) O problema é química — e a química não tem opinião
A acidificação dos oceanos é a assinatura química do excesso de dióxido de carbono na atmosfera. Uma fracção significativa do CO₂ emitido dissolve-se no mar e entra no sistema carbonato, formando ácido carbónico e libertando iões H⁺. O resultado é uma descida do pH e, mais decisivo ainda, uma redução da disponibilidade de carbonato (CO₃²⁻), peça-chave para a calcificação.
Isto não é um detalhe de laboratório: é a alteração do "cimento" com que a vida marinha constrói recifes, conchas e estruturas. É o invisível a afectar o visível.
2) Por que razão "cultivar cianobactérias" é uma ideia boa… e perigosa
A fotossíntese consome CO₂ e pode elevar o pH de forma local. Daí a intuição: usar microalgas ou cianobactérias como motores biológicos para retirar carbono dissolvido. Porém, no mar aberto, a linha entre "solução" e "catástrofe" pode ser curta: florações descontroladas podem produzir toxinas, consumir oxigénio na decomposição e destabilizar ecossistemas.
A conclusão técnica é simples: biologia, sim — mas com contenção. O ATLANTIS-pH nasce exactamente daí: aproveitar o potencial da fixação biológica, sem libertar organismos no ambiente e sem fertilização indiscriminada.
3) ATLANTIS-pH: desenho do piloto e lógica de engenharia
O ATLANTIS-pH propõe um piloto costeiro em regime controlado, composto por módulos integrados:
- Captação e filtração de água do mar (redução de sólidos, estabilidade do circuito);
- Fotobioreactores fechados com microalgas/cianobactérias não-toxigénicas, com nutrientes sob dosagem rigorosa;
- Colheita periódica de biomassa, porque fotossíntese sem remoção é fogo-de-artifício;
- Conversão/estabilização (p.ex., biochar ou digestão controlada) para assegurar sequestro durável;
- Módulo opcional de aumento de alcalinidade, aplicado em câmara isolada e por degraus, para reforçar o tampão químico do sistema;
- Descarga controlada e auditada, com critérios de segurança ecológica.
4) MRV: a diferença entre ciência e fé
MRV (Monitorização, Reporte e Verificação) é a espinha dorsal do projecto. Sem MRV, qualquer alegação de "remoção de carbono" é apenas retórica. O ATLANTIS-pH assume MRV como requisito: sensores contínuos (pH, oxigénio dissolvido, temperatura, salinidade, fluorescência) e análises laboratoriais (alcalinidade total, carbono inorgânico dissolvido, nutrientes, clorofila-a) para fechar o balanço químico e biológico.
A contabilidade é conservadora: carbono removido = carbono na biomassa estabilizada − emissões do processo − perdas. É assim que se evita o erro clássico: gastar energia fóssil a "capturar carbono" e, no fim, captar apenas ilusões.
5) Limites e ética: o oceano não é um laboratório sem dono
ATLANTIS-pH não pretende substituir a redução de emissões. Pretende investigar, com prudência, se é possível mitigar efeitos locais e criar conhecimento escalável sem impor riscos sistémicos. A regra de ouro é: intervenções reversíveis, medidas e transparentes. O objectivo é ajudar o oceano a recuperar equilíbrio — não "domar a natureza".
Epílogo: quando a maré sobe, só a ciência fica de pé
A acidificação é uma crise invisível. Não tem sirenes, não tem manchetes diárias — mas altera, molécula a molécula, o alicerce químico da vida marinha. Se queremos contrariar isto, precisamos de duas coisas: reduzir CO₂ com urgência e explorar, com rigor, soluções complementares que não sejam apostas cegas. ATLANTIS-pH é uma dessas tentativas: prudente, mensurável, auditável — e, por isso, séria.
Portugal não tem apenas costa — tem destino marítimo. São mais de 1 800 km de litoral, uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa, quase 40 vezes maior do que o território terrestre. Poucos países carregam uma responsabilidade tão vasta… e tão silenciosa.
O mar não é apenas paisagem. É: regulador climático, escudo biogeoquímico, reserva alimentar, laboratório natural do futuro. Quando o oceano se acidifica, não é apenas o coral que sofre — é a própria memória da Terra que se torna frágil. Portugal, pela sua posição atlântica, poderia ser: sentinela científica do Atlântico Norte, plataforma europeia de investigação marinha, laboratório vivo de soluções climáticas prudentes, e não apenas consumidor tardio de tecnologia alheia. A minha preocupação é profunda e justa: quem tem mais costa, tem mais dever ético. Não para explorar mais. Mas para proteger melhor. ATLANTIS-pH nasce exactamente nesse cruzamento entre: ciência séria, engenharia responsável, e visão humanista.