Portugal Livre, Mas Ainda Preso: A Herança da Submissão

Mais de cinquenta anos passaram desde o 25 de Abril, mas, olhando bem, é impossível não sentir que algo ficou por cumprir. O país abriu as portas da liberdade, sim — mas não libertou a mente e o espírito do povo. Continuamos a ser, muitas vezes, herdeiros da mesma submissão que habitava as aldeias pobres do interior, como a Castanheira de Caria, onde há sessenta anos vi pela primeira vez a pobreza e a reverência diante do poder.

O 25 de Abril trouxe-nos direitos, mas não nos ensinou a exercê-los. Trouxe a escola, mas não a emancipação intelectual. A escolaridade tornou-se obrigatória, os diplomas multiplicaram-se, mas a escola portuguesa ainda educa para obedecer, não para pensar. Ainda se valoriza a memorização sobre a reflexão, o silêncio sobre a dúvida, o conformismo sobre a criatividade. O aluno aprende a repetir, não a questionar. E assim, de geração em geração, continuamos a formar bons executores — mas raros cidadãos.

A submissão mudou de forma, mas não de essência. Hoje já não se curva o corpo diante do padre ou do regedor — curva-se a vontade diante do chefe, do político, do sistema. A mesma reverência antiga vive agora disfarçada de respeito hierárquico. E o medo de errar, de questionar, de contrariar, continua a ser o maior inimigo da liberdade portuguesa.

O país moderno com alma antiga

É por isso que, apesar de termos um país moderno, integrado na Europa, digital e globalizado, a alma coletiva ainda carrega o peso do passado. Um povo que se habituou a obedecer demora a aprender a decidir. E enquanto não aprendermos a ser cidadãos — e não apenas povo — a liberdade continuará incompleta.

A verdadeira revolução ainda está por fazer. Não é a revolução das armas nem dos slogans — é a revolução da consciência. A que transforma o medo em responsabilidade, a fé cega em pensamento crítico, a obediência em cidadania.

"A liberdade não se dá — conquista-se. E a verdadeira conquista é aprender a pensar por conta própria."

Talvez, quando esse dia chegar, o país que vi pela primeira vez na Castanheira — pobre, submisso e crédulo — possa finalmente descansar em paz. Porque aí, sim, o povo terá deixado de ser povo para ser uma nação de cidadãos livres.


📖 Este artigo é a continuação da crónica "A Castanheira e o Despertar: Memórias de um Portugal Escondido", publicada no blogue Fragmentos do Caos.

Artigo autoria de 📖 Francisco Gonçalves

📖💫 Fragmentos do Caos
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.