Portugal é uma terra fértil em promessas quebradas e sonhos adiados. Ao longo das últimas décadas, a nação foi-se afundando num charco onde a corrupção, o clientelismo e a incompetência política reinam. Este livro é um espelho satírico dessa realidade, um retrato que mistura denúncia, humor e lirismo, para que possamos olhar sem medo para o pântano que teimam em chamar de democracia.
Este Caderno Negro não é apenas uma compilação de críticas: é um manifesto de cidadania. Cada capítulo expõe uma ferida aberta, um escândalo repetido, um padrão de abuso e desperdício que se tornou rotina. Bancos resgatados, companhias aéreas cronicamente falidas, empresas públicas sem rumo, projetos‑fantasma que nunca saem do papel, parcerias que enriquecem privados e empobrecem o Estado, e uma justiça que só funciona contra os mais fracos.
Ao longo destas páginas, convidamos o leitor a rir para não chorar, a indignar-se para não se resignar. Porque a sátira é também uma forma de resistência: ilumina, denuncia, e incomoda. Que este livro seja, pois, um grito no silêncio cúmplice que cobre este país.
Todos os anos, Portugal assiste ao mesmo espetáculo: milhares de milhões de euros a desaparecerem no fogo invisível da má gestão. Hospitais sem médicos, escolas sem condições, justiça sem meios — e, no entanto, rios de dinheiro público são despejados em bancos falidos, empresas públicas deficitárias, parcerias ruinosas e projetos‑fantasma.
Este é o Grande Incêndio do Dinheiro Público. Uma fogueira que nunca apaga, alimentada por decisões políticas desastrosas e por uma cultura de impunidade que protege sempre os culpados. No centro, políticos aquecem as mãos nesta lareira de notas, enquanto o povo paga a água para apagar o fogo — sem nunca ver as chamas consumirem os verdadeiros incendiários.
Os Fornos do Desperdício 1) Bancos falidos. 2) Empresas públicas deficitárias. 3) PPPs que socializam prejuízos. 4) Projetos‑fantasma caros e estéreis.
A imagem é grotesca: ministros sorridentes em conferências de imprensa, anunciando investimentos milagrosos, enquanto nos bastidores já se sabe que será o contribuinte a arcar com os prejuízos. O povo, cansado, apenas encolhe os ombros e murmura: “mais do mesmo”.
Portugal construiu um cemitério luxuoso para enterrar dinheiro público: os bancos falidos. Cada lápide carrega o nome de uma instituição que colapsou sob o peso da corrupção, da má gestão e da ganância. O BPN, o BES, o Banif, o Novo Banco, a CGD — todos diferentes na fachada, iguais no destino: milhares de milhões de euros pagos pelos contribuintes.
O BPN — laboratório da impunidade: nacionalizado em 2008, custo total na casa dos 5 mil milhões.
O BES/Novo Banco — fraude em escala industrial: colapso em 2014, mais de 12 mil milhões sugados à conta do erário.
O Banif — morte anunciada: ajudas de mais de 2 mil milhões antes de desaparecer.
A CGD — banco do regime: recapitalizações sucessivas, a maior em 2017 (~4 mil milhões).
O padrão é claro: gestores milionários, políticos cúmplices e zero responsabilização. Banqueiros gordos de lucros, charutos acesos, enquanto os contribuintes pagam a fatura.
A TAP é a metáfora perfeita do fracasso português: uma companhia aérea que não voa com competitividade, mas com dinheiro público. Desde 1975, já foi nacionalizada, privatizada e renacionalizada. Entre 2020 e 2023, foram mais de 3,2 mil milhões de euros injetados.
A TAP não transporta apenas passageiros: carrega políticos, favores, administrações gordas e prejuízos ainda maiores. Cada português, mesmo sem nunca voar na companhia, já pagou várias passagens sem direito a embarque. Enquanto outras companhias europeias se reinventaram, a TAP continua presa a uma lógica de dependência e vitrine política.
CP, Carris, Metro, RTP, Estradas de Portugal — todas partilham o mesmo destino: o da dependência crónica do Estado. São navios à deriva, governados por marinheiros de partido que usam o leme não para navegar, mas para garantir mordomias.
CP: atrasos crónicos e material obsoleto.
Metro & Carris: déficits e subsidiação perene.
Estradas de Portugal: dívidas empurradas com a barriga.
RTP: mantida com taxas forçadas, entre serviço público e propaganda.
Estas empresas não estão à deriva por falta de marés, mas por falta de timoneiros competentes.
Portugal é o país das maquetes e dos powerpoints. O Novo Aeroporto de Lisboa já foi “decidido” várias vezes; o TGV engoliu estudos; data centers surgem em anúncios megalómanos sem bancos nem clientes à vista.
Aeroporto: Ota, Alcochete, Montijo — milhões em estudos, zero aviões.
TGV: promessas e contratos, mas não há um metro construído.
Data centers: Sines com ambição e dúvidas; Abrantes com números gigantes e empresa diminuta.
O padrão: anúncio pomposo → estudo caro → esquecimento conveniente → reanúncio na próxima legislatura.
As PPPs foram vendidas como modernidade. Na prática, um casino onde o Estado entra sempre para perder e o privado para ganhar.
Autoestradas: tráfego garantido — chova ou faça sol, o Estado paga.
Hospitais: contratos blindados, litigância sem fim, lucros assegurados.
O contribuinte é o apostador forçado; a slot chama‑se contrato; o jackpot cai sempre do lado certo.
A Justiça devia ser o pilar da democracia. Em Portugal, tropeça com zelo sobre os pequenos e cega-se com doçura perante os grandes. Processos de alto perfil arrastam-se até prescrever, arquivam-se, morrem em nulidades.
O povo paga multas e penhoras em semanas; os poderosos passeiam entre recursos e artifícios. Enquanto a venda não cair e a balança não endireitar, a impunidade continuará a ser o verdadeiro regime.
Este Caderno Negro é mais do que sátira — é um grito. Um espelho do país que fomos e continuamos a ser. Um país onde bancos falidos custam milhões, onde empresas públicas servem de curral partidário, onde projetos‑fantasma sugam recursos, onde PPPs enriquecem uns poucos e onde a justiça só funciona para alguns.
Mas também é um convite: rir é resistir, denunciar é lutar. Enquanto houver cidadãos que escrevam, denunciem e não se calem, há esperança de transformar o charco em terra firme.