“Sempre Foi Assim”: Breve História da Frase que Quase Impediu a Civilização

Crónica histórico-filosófica · Humor · Sociedade
"Sempre Foi Assim": Breve História da Frase que Quase Impediu a Civilização
Há três palavras capazes de encerrar uma discussão, proteger um absurdo e conservar um procedimento muito depois de todos terem esquecido para que servia: "Sempre foi assim."
Há frases que explicam uma época. Outras explicam uma civilização inteira.
"Penso, logo existo", escreveu Descartes, com aquela confiança admirável dos filósofos que conseguiam transformar uma crise existencial numa carreira académica.
"Conhece-te a ti mesmo", aconselhava a tradição délfica, provavelmente antes de descobrir que a maioria das pessoas preferia conhecer a vida dos vizinhos.
E depois existe uma frase muito mais poderosa, muito mais antiga e incomparavelmente mais utilizada:
"Sempre foi assim."
Não sabemos quem a inventou.
Provavelmente morreu convencido de que a roda era uma extravagância.
A primeira reunião da História
Podemos imaginar a cena.
Algures na pré-história, um indivíduo observa dois homens arrastando uma pedra gigantesca pelo chão.
Depois de algum tempo, pergunta:
— E se puséssemos uns troncos redondos por baixo?
O chefe da tribo olha para ele com desconfiança.
— Troncos redondos?
— Sim. Talvez a pedra rolasse.
O conselho dos anciãos reúne-se imediatamente.
Depois de três dias de discussão, o presidente levanta-se solenemente:
— Sempre arrastámos pedras.
Nascia ali, provavelmente, a primeira comissão de avaliação tecnológica.
Felizmente, alguém decidiu ignorá-la.
E apareceu a roda.
A humanidade avançou porque, de tempos a tempos, surge um indivíduo desagradavelmente curioso que olha para aquilo que todos consideram normal e pergunta:
"Mas porquê?"
Essa pergunta tem sido uma das forças mais revolucionárias da História.
Sócrates, o homem que fazia perguntas inconvenientes
Sócrates passou grande parte da vida a fazer precisamente isso.
Perguntava.
Perguntava outra vez.
E quando alguém respondia com enorme segurança, ele fazia mais uma pergunta.
Era, basicamente, aquilo que hoje seria considerado um colaborador extremamente difícil numa reunião de administração.
Os atenienses acabaram por condená-lo à morte.
A acusação histórica envolvia impiedade e corrupção da juventude.
Mas a sátira permite imaginar uma acusação mais simples:
"Este homem faz perguntas a mais."
Sócrates tornou-se símbolo de uma ideia fundamental: uma sociedade começa a envelhecer intelectualmente quando deixa de perguntar porque faz aquilo que faz.
O hábito transforma-se em regra.
A regra transforma-se em tradição.
A tradição transforma-se em dogma.
E, passado algum tempo, ninguém se lembra de como aquilo começou.
Só sabem que:
sempre foi assim.
A ciência também precisou de hereges intelectuais
Durante séculos, a humanidade viveu rodeada de certezas que pareciam eternas.
A Terra era colocada no centro do cosmos por modelos dominantes. Reis reclamavam legitimações transcendentais. Doenças eram explicadas por sistemas médicos que hoje pertencem mais à história das ideias do que à medicina.
Depois apareceram alguns indivíduos particularmente inconvenientes.
Copérnico propôs reorganizar o céu.
Galileu apontou o telescópio e encontrou observações difíceis de conciliar com um universo em que tudo girasse em torno da Terra. As luas de Júpiter tinham, aparentemente, recusado ler o regulamento.
Newton perguntou pelas leis que governavam o movimento e a gravitação. A tradição popular acrescentou uma maçã, porque até a ciência beneficia de um bom departamento de marketing.
Darwin e Alfred Russel Wallace colocaram a transformação das espécies e a seleção natural no centro de uma nova explicação da diversidade da vida.
Cada um, à sua maneira, participou no mesmo crime intelectual:
não aceitar que alguma coisa é verdadeira apenas porque durante muito tempo foi tratada como verdadeira.
O Universo, descobriu-se, não tinha qualquer obrigação de respeitar os regulamentos humanos.
Que falta de consideração.
O problema filosófico do costume
David Hume percebeu uma coisa desconfortável.
Grande parte da nossa confiança no mundo nasce do hábito.
Esperamos que certos acontecimentos se repitam porque observámos regularidades no passado. Hume mostrou que essa passagem do passado para o futuro não é garantida pela razão da forma simples que gostaríamos; o costume e o hábito desempenham um papel decisivo.
O cérebro gosta profundamente de padrões.
E há uma boa razão para isso.
Um organismo que tivesse de reconsiderar toda a realidade cada vez que acordasse provavelmente não sobreviveria ao pequeno-almoço.
O hábito é eficiente.
O problema começa quando confundimos eficiência cognitiva com verdade.
Aquilo que aconteceu muitas vezes não tem necessariamente de acontecer para sempre.
Aquilo que funcionou ontem pode ser absurdo amanhã.
E aquilo que sempre fizemos pode ter sido simplesmente um erro extraordinariamente persistente.
Há erros com uma longevidade invejável.
O funcionário eterno
É aqui que entramos no maravilhoso universo das instituições humanas.
Imagine-se um cidadão que chega a um serviço público.
— Porque tenho de entregar este formulário?
— Porque é obrigatório.
— Para quê?
— Para pedir a declaração.
— E para que serve a declaração?
— Para provar que entregou o formulário.
— Mas o formulário já prova que entreguei o formulário.
O funcionário olha para ele com a expressão de quem acaba de encontrar um revolucionário armado.
— Sempre foi assim.
Fim da discussão.
A frase possui propriedades administrativas extraordinárias.
Substitui explicações.
Elimina responsabilidade.
Neutraliza curiosidade.
Protege procedimentos absurdos.
E, sobretudo, garante que ninguém terá de descobrir quem inventou aquela estupidez.
A extraordinária capacidade humana para institucionalizar acidentes
Muitas tradições começaram por razões perfeitamente sensatas.
Uma estrada fazia uma curva porque existia uma árvore.
A árvore desapareceu.
A estrada continuou a fazer a curva.
Depois passaram cem anos.
Alguém perguntou:
— Porque faz a estrada esta curva?
Resposta:
— Sempre foi assim.
Esse mecanismo ocorre continuamente nas organizações.
Um procedimento é criado para resolver um problema específico.
O problema desaparece.
O procedimento fica.
Depois nasce outro procedimento para administrar o primeiro.
Depois um departamento para controlar os dois.
Finalmente é contratado um consultor para explicar por que motivo ninguém consegue trabalhar.
A civilização empresarial atinge então a maturidade.
A inovação começa com uma pequena heresia
Quase todas as grandes transformações começam por uma pergunta aparentemente ingénua.
Por que motivo uma mensagem precisa de viajar fisicamente?
Por que razão um computador precisa de ocupar uma sala inteira?
Por que motivo um telefone tem de estar ligado à parede?
Por que motivo os programas precisam de correr apenas numa determinada máquina?
Por que motivo uma inteligência tem necessariamente de ser biológica?
As perguntas parecem óbvias depois de alguém lhes responder.
Antes disso parecem absurdas.
É uma das características mais curiosas da inovação.
Depois de inventado o avião, toda a gente compreende que o voo controlado por máquinas mais pesadas do que o ar era possível.
Antes dos irmãos Wright, propor que seres humanos se lançassem pelos céus numa estrutura experimental era uma ótima forma de parecer simultaneamente visionário e candidato a uma notícia muito curta.
A inovação transforma impossibilidades em banalidades.
E depois, inevitavelmente, surge uma nova geração dizendo:
"Sempre fizemos assim."
A roda completa-se.
Portugal e a religião do procedimento
Há países e organizações que transformaram a experimentação numa cultura.
Nós desenvolvemos também talentos muito particulares.
Um deles é a extraordinária capacidade de responder a uma ideia nova explicando todas as razões pelas quais ela não pode funcionar.
Não é necessário experimentar.
Isso seria imprudente.
Primeiro cria-se um grupo de trabalho.
Depois um estudo.
Depois um relatório sobre o estudo.
Depois uma comissão para avaliar as conclusões do relatório.
Cinco anos mais tarde descobre-se que a tecnologia entretanto mudou completamente.
Excelente.
Pode começar-se outro estudo.
O importante é não cometer a irresponsabilidade de fazer alguma coisa.
Porque, como toda a gente sabe:
sempre foi assim.
A velhice não está na idade
Existe também uma injustiça escondida nesta expressão.
Associamos frequentemente resistência à mudança às pessoas mais velhas.
Mas a idade cronológica pouco explica.
Há jovens de vinte e cinco anos mentalmente reformados.
E há pessoas de oitenta ainda fascinadas pela possibilidade de descobrir alguma coisa nova.
A verdadeira velhice começa quando desaparece a curiosidade.
Quando o mundo deixa de ser uma pergunta e passa a ser apenas uma coleção de respostas herdadas.
Uma mente jovem pergunta:
"E se?"
Uma mente velha responde:
"Não vale a pena."
Não interessa a idade que consta do cartão de cidadão.
Talvez a civilização seja apenas isto
Se retirarmos impérios, guerras, reis, bandeiras e datas aos livros de História, talvez reste um mecanismo bastante simples.
Alguém dizia:
"Sempre foi assim."
E outra pessoa respondia:
"Mas não tem necessariamente de continuar a ser."
Foi assim com a ciência.
Foi assim com a democracia.
Foi assim com os direitos humanos.
Foi assim com a medicina.
Foi assim com a tecnologia.
Foi assim com praticamente tudo aquilo que hoje consideramos normal.
A História não avançou graças aos que aceitaram o mundo.
Avançou graças aos que o acharam ligeiramente insatisfatório.
São pessoas incómodas.
Questionam.
Experimentam.
Erram.
Voltam a experimentar.
Perturbam reuniões.
Fazem perguntas quando toda a gente queria ir almoçar.
E, de vez em quando, mudam o mundo.
A frase realmente perigosa
Talvez, portanto, o perigo de "sempre foi assim" não esteja na frase.
Está naquilo que ela encerra.
Significa:
"Não quero voltar a pensar sobre isto."
E poucas coisas são mais perigosas para uma sociedade do que transformar o pensamento numa atividade opcional.
Porque nenhuma civilização está condenada a repetir o passado.
Mas muitas fazem um esforço extraordinário para conseguir.
Por isso, quando alguém disser:
"Sempre foi assim", talvez a resposta mais civilizacional seja simplesmente:
"Pois. E talvez seja precisamente esse o problema."
Afinal, se a humanidade tivesse respeitado rigorosamente tudo aquilo que sempre tinha sido feito, ainda estaríamos numa caverna a discutir se o fogo não seria apenas uma moda passageira.
E provavelmente haveria já uma comissão encarregada de estudar os riscos da chama.
Referências e leituras internacionais
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — Socrates — A tradição socrática do questionamento e do exame crítico das pretensões de conhecimento.
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — Descartes' Epistemology — Contexto filosófico do cogito e da formulação canónica "I think, therefore I am".
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — David Hume — Hume sobre indução, costume e hábito como base psicológica das expectativas sobre o futuro.
- NASA — 410 Years Ago: Galileo Discovers Jupiter's Moons — As observações de Galileu dos satélites de Júpiter e a evidência contra um cosmos rigidamente geocêntrico.
- Natural History Museum — What is natural selection? — Darwin e Alfred Russel Wallace e a formulação da evolução por seleção natural.
- National Air and Space Museum — 1903 Wright Flyer — O primeiro avião motorizado bem-sucedido dos irmãos Wright e os voos de 17 de dezembro de 1903.
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — Thomas Kuhn — Mudanças de paradigma, ciência normal e revoluções científicas como revisões profundas de crenças e práticas.