Quando o jornalismo troca o contraditório pelo cacete

Crónica | Jornalismo e Democracia
Quando o jornalismo troca o contraditório pelo cacete
A democracia não precisa de jornalistas que aplaudam o poder. Precisa de jornalistas que o questionem.
Há algo de profundamente inquietante na facilidade com que alguns comentadores portugueses passaram da análise das manifestações pela habitação à condenação moral dos manifestantes.
Bastaram algumas tendas, cartazes e cidadãos indignados para que uma parte do debate público se deslocasse da crise habitacional para a necessidade de impor autoridade.
Afinal, parece que o problema já não é haver portugueses incapazes de pagar uma casa. O problema passou a ser o incómodo daqueles que se atrevem a protestar.
A intervenção policial no Porto, em outubro de 2026, originou denúncias de feridos e levou a Inspeção-Geral da Administração Interna a abrir um processo de averiguação. A PSP justificou a atuação com comportamentos de resistência. A legalidade e a proporcionalidade dos procedimentos merecem escrutínio, não conclusões antecipadas.
E é precisamente aqui que o jornalismo enfrenta a sua prova de maturidade.
Um jornalista não tem de concordar com os manifestantes. Pode criticar ocupações prolongadas, investigar incidentes e denunciar atos violentos. Mas tem também de questionar as autoridades, verificar as suas versões e distinguir uma manifestação pacífica de eventuais comportamentos individuais ilícitos.
Chamar «arruaceiros» indiscriminadamente a cidadãos que protestam não é investigação. É uma generalização que exige provas e que pode transformar o debate sobre direitos fundamentais numa discussão sobre disciplina e obediência.
O mais paradoxal é que a democracia portuguesa nasceu de uma revolução contra um regime que também invocava a ordem pública para justificar limitações à liberdade.
Quase cinquenta e três anos depois do 25 de Abril, seria lamentável que a autoridade voltasse a ser confundida com infalibilidade.
Felizmente, houve jornalistas que investigaram, ouviram os manifestantes e questionaram as intervenções policiais. É importante reconhecê-lo. A crítica não deve atingir indiscriminadamente uma profissão inteira.
Mas permanece uma pergunta incómoda: quando o Estado exerce a força sobre cidadãos que contestam as suas políticas, deve o jornalista começar por perguntar se os cidadãos obedeceram ou se o Estado respeitou a lei?
Deve perguntar ambas as coisas. Com o mesmo rigor.
Porque a democracia não se defende silenciando o protesto. E o jornalismo não cumpre a sua missão quando substitui o contraditório pela reverência à autoridade.
O microfone não é um bastão. E a liberdade de imprensa não foi conquistada para transformar jornalistas em porta-vozes do poder.