Os Cinzentões de Abril — A Ditadura Acabou, Mas a Mentalidade Ficou

CRÓNICA | DEMOCRACIA E SOCIEDADE
Os Cinzentões de Abril — A Ditadura Acabou, Mas a Mentalidade Ficou
Portugal abriu as janelas em Abril de 1974. Mas, em demasiados gabinetes, a renovação do ar continua por fazer.
Houve um tempo em Portugal em que o cinzento não era apenas a cor dos fatos, das paredes ou dos corredores ministeriais. Era uma maneira de estar perante a vida. Um país de vozes baixas, hierarquias intocáveis, reverências obrigatórias e portas que só se abriam mediante a autorização de alguém.
Chamávamos-lhes «cinzentões». Não era uma classificação científica, nem precisava de o ser. Era uma imagem certeira de uma mentalidade: a do funcionário que confundia o balcão com um trono, a do dirigente que confundia autoridade com superioridade, a do poderoso que julgava que prestar contas era uma concessão.
Em 25 de Abril de 1974, Portugal derrubou a ditadura. Vieram a liberdade de expressão, as eleições livres, os direitos fundamentais e a possibilidade de discordar sem pedir licença. Foi uma transformação histórica, real e imensa. Mas uma revolução muda as leis mais depressa do que altera todos os hábitos sociais.
Os gabinetes onde Abril ainda não entrou
O cinzentão contemporâneo não precisa de sentir nostalgia do Estado Novo. Pode declarar-se democrata, participar em cerimónias de Abril e citar a Constituição. Reconhece-se, antes, no modo como exerce uma pequena ou grande parcela de poder: na resposta que nunca chega, na exigência burocrática sem justificação inteligível, na decisão opaca, no desprezo silencioso pelo tempo de quem espera.
É importante não confundir esta crítica com a afirmação de que Portugal permanece uma ditadura. Não permanece. A Freedom House caracteriza Portugal como uma democracia parlamentar com liberdades civis geralmente protegidas. Precisamente por isso, os padrões de funcionamento que contrariem o espírito do serviço público devem ser escrutinados com exigência democrática.
Existe, aliás, investigação histórica que documenta continuidades institucionais e metodológicas na reforma administrativa entre o final do Estado Novo e os primeiros anos da democracia. Isso não demonstra que cada disfunção atual descenda diretamente da ditadura; mostra, sim, que a história das instituições não começa de novo por decreto.
O cidadão não é súbdito
Uma administração moderna não deve obrigar o cidadão a peregrinar entre serviços para descobrir o que o próprio Estado já sabe. Não deve transformar prazos em abstrações nem procedimentos em labirintos. O cidadão paga impostos, cumpre obrigações e tem o direito de receber decisões fundamentadas, proporcionais e em tempo útil.
A ironia é amarga: digitalizar um procedimento inútil não o torna útil. Apenas permite que a burocracia viaje à velocidade da fibra óptica. O progresso tecnológico só é progresso institucional quando simplifica a vida das pessoas, elimina redundâncias e torna as decisões auditáveis.
Os dados internacionais oferecem um retrato mais complexo do que qualquer slogan. Segundo a OCDE, em 2025, 40% dos inquiridos em Portugal manifestavam confiança elevada ou moderadamente elevada no governo nacional, valor semelhante à média da organização. A satisfação com os serviços administrativos subiu de 43% em 2023 para 52% em 2025. Há, portanto, melhorias que importa reconhecer. Mas também há uma distância significativa entre a existência formal de serviços e a experiência de justiça, clareza e capacidade de resposta.
Elites, influência e responsabilidade
Uma democracia enfraquece culturalmente quando a proximidade ao poder parece valer mais do que a competência, quando a responsabilidade se dissolve entre organismos e quando os erros custam sempre mais a quem tem menos capacidade de se defender. Não se trata de acusar indiscriminadamente políticos, empresários ou funcionários públicos. Trata-se de exigir regras verificáveis para todos.
O relatório de 2025 da Comissão Europeia sobre o Estado de direito registou que 91% dos participantes portugueses no Eurobarómetro Especial sobre corrupção consideravam a corrupção disseminada no país, face a 69% na média da União Europeia. Trata-se de perceção, não de uma medição direta da incidência de crimes. Mas a dimensão dessa perceção é, por si só, um problema de confiança institucional que não pode ser ignorado.
Os «cinzentões» não pertencem, por definição, a uma geração, a um partido ou a uma classe profissional. A sua verdadeira pátria é a opacidade. Podem ser velhos ou novos, conservadores ou progressistas. O que os identifica é a convicção prática de que o poder dispensa explicações.
As novas gerações podem herdar velhos hábitos
Talvez a questão mais incómoda seja esta: é possível nascer depois de Abril e reproduzir comportamentos que Abril procurou superar. O autoritarismo quotidiano não exige censura oficial nem polícia política. Pode manifestar-se, em escala muito diferente, na aversão à crítica, no culto da chefia, na punição informal de quem discorda ou na promoção da obediência acima do mérito.
Não são fenómenos equivalentes à repressão de uma ditadura. Compará-los sem distinção diminuiria o sofrimento de quem viveu sem liberdade. Mas identificá-los como vícios de cultura organizacional é indispensável para que a democracia se aprofunde.
Também seria injusto esquecer os milhares de profissionais competentes e dedicados que fazem funcionar escolas, hospitais, autarquias, tribunais e serviços públicos. São eles, muitas vezes, a prova diária de que o Estado pode ser uma instituição de serviço e não de submissão.
A democracia precisa de ar fresco
Não basta substituir rostos. É preciso alterar incentivos: publicar indicadores de desempenho, respeitar prazos, fundamentar decisões, proteger quem denuncia irregularidades, reduzir procedimentos sem valor e avaliar dirigentes pela qualidade do serviço prestado — não apenas pela habilidade de navegar nos corredores do poder.
Uma sociedade livre deve poder fazer perguntas simples e receber respostas claras: quem decidiu, com que critérios, em quanto tempo, com que custos e com que consequências se a decisão falhar?
Portugal não precisa de uma nova revolução para redescobrir a dignidade do cidadão. Precisa de levar mais longe as promessas institucionais da revolução que fez. A liberdade política foi conquistada; a cultura de responsabilidade tem de ser praticada todos os dias.
Porque Abril abriu as janelas de Portugal. E uma democracia que queira continuar viva não pode resignar-se a respirar o ar parado dos seus gabinetes.
Referências e leituras complementares
- Comissão Europeia — 2025 Rule of Law Report: Portugal (2025).
- OCDE — Survey on Drivers of Trust in Public Institutions: Portugal (2026; dados de 2025).
- Freedom House — Freedom in the World: Portugal (2025).
- Ana Carina Azevedo — A reforma administrativa portuguesa entre o Estado Novo e a Democracia, Revista Brasileira de História (2023).
- António Costa Pinto — Authoritarian legacies, transitional justice and state crisis in Portugal's democratization, Democratization (2006/2007).
- Reuters — Portugal's democracy turns 50 (2024).
- Le Monde — 50 years ago, the Carnation Revolution ended Portugal's dictatorship (2024).