Israel, Hamas e a responsabilidade de construir a paz

Israel, Hamas e a responsabilidade de construir a paz
Segurança para os israelitas, liberdade para os palestinianos e compromissos que possam ser verificados.
Nota de abertura:
Esta crónica interroga a responsabilidade internacional perante a segurança de Israel e o desarmamento do Hamas. Defende, em simultâneo, os direitos dos palestinianos e a responsabilização dos colonos violentos. A solução proposta assenta em compromissos verificáveis, protecção de civis e instituições responsáveis perante a população.
Há uma simplificação no debate sobre Israel que dificulta a procura de soluções: tratar um país inteiro como se fosse a extensão de um primeiro-ministro. Benjamin Netanyahu tem de responder pelas decisões do seu governo. Mas Israel tem uma população, instituições e necessidades de segurança que continuarão a existir depois dele. A mudança de liderança pode alterar profundamente a estratégia; não garante, por si só, o desaparecimento das ameaças.
Os ataques de 7 de Outubro de 2023, com mortes e sequestros de civis, mostram que a ameaça do Hamas alcança pessoas nas suas casas e comunidades. [1] O dever de qualquer governo israelita é impedir a repetição dessa violência. Os cidadãos não podem depender da simpatia que o seu primeiro-ministro desperta no estrangeiro para ver reconhecido o seu direito à protecção.
Compreender essa necessidade exige levar a sério os grupos islamistas radicais: os seus objectivos, as estruturas que os sustentam e a capacidade de transformar convicções ideológicas em violência. Exige igualmente distinguir esses grupos dos muçulmanos e dos palestinianos em geral. Uma análise rigorosa identifica organizações e responsabilidades; a generalização religiosa obscurece ambas e prejudica os possíveis parceiros da paz.
Hamas e a liberdade palestiniana
O Hamas está abrangido pela lista de organizações terroristas da União Europeia. [2] A sua responsabilidade também inclui a violência contra palestinianos: em Junho de 2026, uma comissão independente da ONU documentou execuções, tortura e outras formas de repressão por forças ligadas ao movimento. [3] A defesa da população palestiniana deve incluir a possibilidade de viver e discordar sem coerção armada.
Por isso, é legítimo dirigir uma pergunta à comunidade internacional: que meios está disposta a mobilizar para retirar ao Hamas a capacidade de impor o seu poder pelas armas? Quem exige uma alternativa à estratégia israelita deve ajudar a torná-la executável. A população de Gaza precisa de protecção, reconstrução e uma autoridade responsável perante os cidadãos. Uma organização armada com poder de veto sobre essas escolhas compromete esse futuro.
Esta exigência não reduz os palestinianos à condição de instrumentos da segurança israelita. Eles têm direitos próprios, necessidades próprias e o direito de decidir o seu futuro. O seu sofrimento merece resposta por si mesmo. A segurança de Israel e a liberdade palestiniana devem orientar conjuntamente qualquer solução que pretenda durar.
A responsabilidade dos extremistas e dos governos
O mesmo princípio obriga a condenar sem ambiguidades a violência dos colonos extremistas. A comissão da ONU também documentou graves abusos de colonos contra palestinianos. [3] Ameaçar famílias, atacar comunidades ou usar a intimidação para disputar território exige investigação, protecção das vítimas e responsabilização. O Estado israelita deve exercer a sua autoridade sobre quem pratica essa violência.
O Hamas é um obstáculo central à paz, mas há outros. A violência dos colonos, a acção de outros grupos armados e os projectos políticos que recusam direitos à população adversária também devem ser enfrentados. Cada actor responde pelos seus próprios atos. A existência de terrorismo não absolve um governo das suas decisões; os abusos de um governo não legitimam ataques terroristas contra civis.
Os limites à condução da guerra permanecem claros. O direito internacional humanitário obriga à distinção entre civis e combatentes, à proporcionalidade e a precauções para proteger a população. Proíbe ataques dirigidos contra civis, ataques indiscriminados e o uso da fome como método de guerra. Essas obrigações vinculam Estados e grupos armados. [4] Aplicá-las com consistência é uma condição para a credibilidade de qualquer proposta de paz.
Do compromisso internacional à execução
Seria, contudo, incorreto afirmar que o mundo nunca exigiu o desarmamento do Hamas. Em Setembro de 2025, 142 países apoiaram a Declaração de Nova Iorque, que condena os ataques de 7 de Outubro e pede o desarmamento do movimento e a sua exclusão do governo de Gaza. [5] Existe, portanto, um compromisso internacional amplo. A crítica deve incidir sobre a capacidade e a vontade de o executar.
Em 6 de Outubro de 2026, a Reuters descrevia um impasse: o Hamas anunciou uma entrega condicionada das armas; Israel exigia desarmamento completo antes da retirada; a força internacional prevista continuava por constituir. [6] Uma declaração de intenção precisa de mecanismos que permitam avaliar o seu cumprimento.
Desarmar uma organização exige decidir quem recebe as armas, quem controla os locais de armazenamento, como se impede o acesso posterior e quem atua quando surgem violações. Também exige substituir a autoridade coerciva que a organização exercia. Recolher armamento enquanto permanece intacta uma cadeia de comando capaz de intimidar os cidadãos pode produzir um resultado apenas aparente.
A via militar levanta dificuldades próprias: identificar combatentes e depósitos, proteger civis e criar condições de segurança depois das operações. A via negociada precisa de incentivos, garantias e verificação. A minha leitura é que a distância entre condenar e desarmar resulta também dessa dificuldade de assumir responsabilidades concretas. Os governos devem explicar o que propõem, o que conseguem fazer e quais os riscos que aceitam.
Um caminho verificável para a paz
Uma resposta construtiva começaria por um acordo de execução faseada. Cada etapa teria obrigações identificadas, responsáveis, critérios de verificação e consequências previamente definidas para o incumprimento. A entrega e retirada de circulação das armas avançariam em ligação com garantias de segurança, transferência de funções para uma autoridade palestiniana e compromissos de retirada militar. O calendário precisaria de marcos observáveis e mecanismos de correcção.
A verificação independente teria de dispor de acesso efectivo e capacidade para investigar denúncias de ocultação ou rearmamento. Os relatórios públicos deveriam distinguir armas recolhidas, infraestruturas militares desativadas e estruturas de comando ainda operacionais. Nenhum mecanismo oferece certeza absoluta; um sistema credível deve permitir detectar violações e responder-lhes, em vez de apenas certificar promessas.
A segunda tarefa seria construir uma autoridade palestiniana com capacidade administrativa, legitimidade e controlo civil sobre a segurança. Uma polícia profissional precisaria de formação, recursos e fiscalização. Os cidadãos precisariam de tribunais, liberdade de expressão e meios para denunciar abusos. A transição deveria estabelecer um horizonte político e democrático que impedisse a transformação de uma solução provisória numa tutela indefinida.
A terceira tarefa seria reforçar a fiscalização das redes de financiamento e abastecimento de grupos armados, com medidas dirigidas aos responsáveis e às entidades que sustentam a violência. Aos mediadores caberia apresentar compromissos concretos e mecanismos de acompanhamento. A pressão política teria de incidir sobre capacidades e decisões, preservando os meios de subsistência da população.
A quarta tarefa seria garantir ajuda humanitária segundo as necessidades dos civis, com fiscalização da distribuição. A reconstrução exigiria transparência sobre contratos, pagamentos e resultados, para reduzir a corrupção e a apropriação por redes coercivas. Água, cuidados de saúde, habitação e escolas dão às famílias condições para recuperar autonomia. Essa recuperação é parte da estabilidade que qualquer acordo procura alcançar.
Da parte israelita, os compromissos teriam de incluir a protecção de civis, a investigação de abusos, a responsabilização dos colonos violentos e decisões territoriais compatíveis com um futuro palestiniano viável. As garantias exigidas ao Hamas precisariam de ser acompanhadas por obrigações claras para Israel. A verificação deve permitir avaliar o cumprimento de cada parte sem diluir as suas responsabilidades.
A comunidade internacional deveria medir o sucesso por resultados: redução dos ataques, capacidade militar desmantelada, segurança das comunidades, ajuda entregue e instituições que funcionam. Os países têm posições e recursos diferentes. Essa diversidade torna a coordenação mais difícil, mas permite repartir tarefas. Quem dispõe de influência diplomática, meios financeiros ou capacidade de fiscalização deve explicar como os colocará ao serviço de um acordo.
O futuro depois de Netanyahu
Netanyahu sairá um dia do governo. A sociedade israelita continuará a precisar de segurança, tal como os palestinianos continuarão a precisar de liberdade, direitos e um território onde possam construir uma vida. Uma liderança diferente poderá abrir novas possibilidades. Aproveitá-las exige enfrentar as organizações armadas, conter os extremismos e criar instituições em que ambas as populações possam confiar.
A paz ganha realidade quando uma família pode dormir sem recear um ataque, uma comunidade pode permanecer na sua terra sem intimidação e um cidadão pode discordar de quem o governa sem temer represálias. É para essas condições concretas que a diplomacia, a segurança e a justiça devem trabalhar. Israelitas e palestinianos merecem um futuro em que a vida comum deixe de estar à mercê dos extremistas.
EIXOS DA PROPOSTA
- Desarmamento verificado, com obrigações e responsabilidades identificadas.
- Segurança para os israelitas e liberdade, direitos e protecção para os palestinianos.
- Responsabilização dos autores de violência e controlo civil das forças de segurança.
- Ajuda humanitária segundo as necessidades e reconstrução com transparência.
Nota Editorial
Esta é uma crónica de opinião crítica e construtiva. As referências sustentam os factos identificados no texto; a apreciação política e as propostas de execução faseada, verificação independente, governação palestiniana e reconstrução constituem análise editorial.
A condenação do terrorismo do Hamas acompanha a rejeição da violência dos colonos extremistas e dos abusos contra civis. O artigo distingue organizações armadas, governos e populações, e não atribui culpa colectiva aos israelitas, aos palestinianos ou aos muçulmanos.
Informação reportada às fontes consultadas em 6 de Outubro de 2026. As declarações sobre a entrega das armas são apresentadas como compromissos anunciados; o artigo não as confunde com um desarmamento concluído e verificado.
Referências credíveis
- [1] Reuters — For freed Israeli hostages, every moment is now precious — 5 de Outubro de 2026
- [2] Conselho da União Europeia — Hamas and the Palestinian Islamic Jihad: Council expands the legal framework and adds ten individuals to the sanctions list — 28 de maio de 2026
- [3] Comissão Independente de Inquérito da ONU / OHCHR — Palestinian civilians are victims of all sides, trapped between the mass atrocities of Israeli forces and settlers and the fear-based rule of Hamas — 9 de Junho de 2026
- [4] Comité Internacional da Cruz Vermelha — FAQ: Our work in Israel and the occupied territories; secção What the law says — Consultado em 6 de Outubro de 2026
- [5] Ministério dos Negócios Estrangeiros de França — Adoption by the United Nations of the New York Declaration on the two-state solution and condemnation of Hamas — 12 de Setembro de 2025
- [6] Reuters — One year on, Trump's Gaza plan has not stopped Israeli fire or disarmed Hamas — 6 de Outubro de 2026
- [7] Associated Press — UN assembly votes overwhelmingly to back two-state solution to Israel-Palestinian conflict — 12 de Setembro de 2025
Francisco António dos Santos Gonçalves
Co-autoria editorial, investigação e verificação: Augustus Veritas — AI Assistant
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