Portugal, o país do PowerPoint e da fita cortada

Portugal, o país do PowerPoint e da fita cortada
Uma nação perita em inaugurar o futuro, mas demasiado lenta a construí-lo
Portugal é o país das startups, dos eventos, do folclore, do PowerPoint e das inaugurações com corta-fitas.
Somos uma espécie de feira permanente da modernidade aparente.
Há startups anunciadas antes de terem clientes, unicórnios celebrados antes de pagarem impostos cá, cimeiras onde se fala de inovação com apresentações carregadas de setas, nuvens e palavras inglesas. Depois termina o evento, desmontam-se os palcos, apagam-se as luzes e a produtividade continua sentada no mesmo banco de jardim, à espera de transporte.
O país especializou-se em produzir a imagem do movimento sem enfrentar o incómodo esforço de avançar.
A grande indústria da aparência
Temos incubadoras sem empresas capazes de crescer, observatórios que observam outros observatórios, estratégias nacionais substituídas antes de serem executadas e programas de apoio que financiam consultores para ensinarem empresas a preencher candidaturas a programas de apoio.
Temos ministros a cortar fitas de projectos que já tinham sido anunciados pelo ministro anterior, autarcas a inaugurar rotundas como se fossem centrais nucleares e apresentações onde Portugal aparece sempre, curiosamente, em direcção ao futuro.
O futuro português cabe quase sempre num ecrã de dezasseis por nove.
Tem transição digital, sustentabilidade, inteligência artificial, economia azul, economia verde, coesão territorial, inclusão, resiliência e, quando sobra espaço no diapositivo, competitividade.
Só ainda não descobriram a animação que transforma salários baixos em prosperidade.
O problema não são as startups
As startups são necessárias. Um país moderno precisa de novos negócios, empreendedores, tecnologia, investigação aplicada e empresas capazes de desafiar sectores instalados.
Os eventos também podem ser úteis. Permitem trocar conhecimento, atrair investidores, aproximar empresas e divulgar competências.
E até as inaugurações têm o seu lugar. Uma obra concluída merece ser apresentada à comunidade que a financiou.
O problema começa quando a encenação passa a substituir a construção.
Anuncia-se um centro tecnológico, mas não se garante investigação continuada.
Inaugura-se uma fábrica, mas não se cria uma cadeia industrial nacional à sua volta.
Celebra-se uma startup, mas não se resolve o acesso a capital, a lentidão da justiça, a burocracia, a escassez de competências especializadas ou a dificuldade de a empresa passar da incubadora para o mercado internacional.
Apresenta-se uma estratégia, mas ninguém responde pelos resultados cinco anos depois.
O evento termina no momento exacto em que deveria começar o trabalho.
O país do instante fotográfico
Portugal tornou-se especialista no instante fotográfico.
O governante de tesoura na mão, o empresário convidado, o autarca sorridente e uma placa coberta por um pano. Há sempre uma cerimónia, um púlpito, uma faixa, um painel institucional e uma pequena multidão devidamente distribuída para não deixar espaços vazios na fotografia.
Depois, os jornalistas partem, os assessores recolhem as pastas e o país regressa à sua velocidade habitual.
Falta, demasiadas vezes, a obra económica profunda que deveria existir depois de os fotógrafos irem embora.
Somos excelentes a inaugurar futuros. Somos bastante menos competentes a construí-los.
Enquanto outros países acumulam indústria, propriedade intelectual, centros de decisão, empresas de escala, tecnologia e capital, nós acumulamos congressos sobre a necessidade de acumular indústria, propriedade intelectual, empresas de escala, tecnologia e capital.
O país discute a transformação com uma energia muito superior àquela que dedica a transformar-se.
Da incubadora para a realidade
Criar muitas empresas jovens pode ser um sinal de vitalidade. Mas o verdadeiro teste de um ecossistema económico não é contar quantas startups aparecem numa apresentação governamental. É saber quantas sobrevivem, crescem, exportam, desenvolvem tecnologia própria, criam emprego qualificado e mantêm em Portugal os seus centros de decisão.
Uma startup não pode permanecer eternamente numa incubadora, alimentada por concursos, mentorias, sessões de apresentação e fotografias diante de painéis com logótipos.
Em algum momento tem de encontrar clientes, produzir valor e enfrentar o mercado. Essa passagem da promessa para a escala exige capital, justiça eficiente, regulação previsível, acesso a talento, ligação às universidades, contratação pública inteligente e uma economia capaz de absorver inovação.
Sem isso, criamos uma indústria de projectos-piloto. Tudo começa, quase nada amadurece e cada nova iniciativa é apresentada como se o país estivesse a nascer novamente.
A governação em modo de apresentação
O PowerPoint tornou-se a arquitectura constitucional informal do desenvolvimento português.
No primeiro diapositivo surge o diagnóstico. No segundo, a visão. No terceiro, os eixos estratégicos. No quarto, as prioridades. No quinto, uma fotografia de jovens felizes diante de uma turbina eólica. No sexto, uma seta aponta para 2030.
Depois vem o intervalo para café.
O plano é aprovado, apresentado, divulgado e gradualmente esquecido. Quando chega um novo Governo, muda-se o nome, trocam-se as cores e volta-se ao primeiro diapositivo.
A política portuguesa prefere programas com nomes memoráveis a instituições capazes de executar. Prefere anúncios com números redondos a metas verificáveis. Prefere inaugurar uma intenção a responder por um resultado.
Assim se mantém o país em permanente lançamento.
Menos palco, mais país
Portugal não precisa de abandonar as startups, fechar os eventos ou esconder as tesouras das inaugurações.
Precisa de retirar o folclore e acrescentar exigência.
- Menos programas dispersos e mais políticas estáveis durante uma década.
- Menos incubação ornamental e mais capital para empresas crescerem.
- Menos estratégias genéricas e mais prioridades industriais concretas.
- Menos consultoria sobre inovação e mais contratação de tecnologia nacional.
- Menos anúncios de investimento e mais avaliação pública do que foi realmente executado.
- Menos fotografias com máquinas novas e mais propriedade intelectual criada em Portugal.
Menos anúncio, mais execução.
Menos fita cortada, mais valor criado.
Menos fotografia, mais futuro.
Um país desenvolvido não é aquele que organiza mais conferências sobre desenvolvimento.
Não é aquele que apresenta mais planos, cria mais comissões ou inaugura mais edifícios.
É aquele cujas empresas crescem, cujas instituições funcionam, cujos salários acompanham o valor produzido e cujas obras continuam úteis quando já ninguém está a olhar.
Portugal possui talento, conhecimento, universidades, engenheiros, empreendedores e uma posição privilegiada na Europa e no Atlântico. O que lhe falta não é capacidade para imaginar o futuro.
Falta-lhe a disciplina colectiva para o construir depois de terminar a apresentação.
Porque a fita pode ser cortada em poucos segundos.
O desenvolvimento de um país demora décadas.
E não cabe num PowerPoint.
Nota editorial
Esta crónica é um texto de opinião e sátira política de Francisco Gonçalves. As referências a startups, incubadoras, eventos, planos estratégicos e inaugurações criticam a tendência para confundir comunicação institucional com execução económica; não pretendem desvalorizar o empreendedorismo, a divulgação científica, a cooperação empresarial ou projectos públicos que produzam resultados verificáveis.
O texto distingue a vitalidade aparente de um ecossistema da sua capacidade para transformar empresas jovens em organizações de escala, produtivas, exportadoras e tecnologicamente autónomas. As publicações internacionais reunidas abaixo documentam simultaneamente os progressos portugueses e os obstáculos persistentes em financiamento por capitais próprios, crescimento empresarial, inovação, produtividade, competências, burocracia e justiça económica.
Referências e leituras internacionais
- OCDE, Incubation in Entrepreneurial Ecosystems: Portugal, 2026. Avaliação do sistema português de incubação e aceleração, incluindo profissionalização, especialização, mentoria, internacionalização e financiamento de startups e scaleups. Consultar publicação.
- Comissão Europeia, Country Report: Portugal 2026. Análise da dinâmica empresarial portuguesa, do crescimento do ecossistema de startups e das dificuldades no acesso a capital próprio, na expansão das empresas, na investigação e na eficiência administrativa e judicial. Consultar publicação.
- Comissão Europeia, European Startup and Scaleup Scoreboard: Country Reports, 2026. Comparação dos ecossistemas de startups e scaleups dos Estados-membros através de indicadores de criação, financiamento, crescimento e desempenho. Consultar publicação.
- Fundo Monetário Internacional, Portugal: Staff Concluding Statement of the 2026 Article IV Mission, 6 de Maio de 2026. O FMI relaciona a fraca produtividade com investimento insuficiente, limitações no ambiente empresarial, menor inovação e dificuldades de integração nas cadeias globais de valor. Consultar publicação.
- OCDE, OECD Economic Surveys: Portugal 2026, 6 de Janeiro de 2026. Estudo sobre produtividade, competências, estrutura empresarial, investimento, eficiência pública, habitação e reformas necessárias para elevar o nível de vida. Consultar publicação.
- Banco Europeu de Investimento, EIB Investment Survey 2025: Portugal, Dezembro de 2025. Retrato do investimento das empresas portuguesas, da digitalização e dos obstáculos reportados pelas empresas. Consultar publicação.
- Comissão Europeia, European Innovation Scoreboard 2026. Comparação internacional do desempenho dos sistemas de investigação e inovação europeus. Consultar publicação.
- Financial Times, Portugal welcomes start-ups seeking scale, 5 de Março de 2026. Reportagem sobre a atracção exercida por Lisboa e sobre o desafio decisivo de transformar novos projectos em empresas de escala. Consultar publicação.
- Startup Genome, Lisboa Startup Ecosystem Report 2025, Novembro de 2025. Avaliação da evolução do ecossistema de Lisboa e das condições necessárias para a sua fase seguinte de crescimento. Consultar publicação.