Os novos Velhos do Restelo têm medo da Inteligência Artificial

Os novos Velhos do Restelo têm medo da Inteligência Artificial
Cinco séculos depois de Camões, continuamos a encontrar quem confunda prudência com imobilidade. A Inteligência Artificial não pede autorização à escola para transformar o mundo; a escola é que terá de aprender a ensiná-lo.
Nota de abertura:
Esta crónica usa o Velho do Restelo como metáfora contemporânea da resistência automática à inovação. Não reduz a complexidade literária da personagem a uma caricatura do «inimigo do progresso»: a prudência é necessária. O problema começa quando a prudência se transforma em argumento para não partir.
Camões conhecia Portugal demasiado bem.
N'Os Lusíadas, quando as naus estão prestes a partir para o desconhecido, surge o Velho do Restelo. Não embarca. Não constrói navios. Não atravessa oceanos. Fica em terra a recordar aos que partem o preço da ambição, o risco do desconhecido e as consequências que o entusiasmo da partida prefere esquecer.
É uma personagem mais complexa do que a caricatura moderna costuma sugerir. Camões introduziu dentro da própria epopeia uma voz crítica que questiona o impulso heróico que a obra simultaneamente celebra.
Talvez seja precisamente por isso que a figura continua tão útil cinco séculos depois.
Mudaram as caravelas. Mudaram os oceanos. Mudaram os monstros imaginados para lá do horizonte.
O Velho do Restelo continua entre nós.
Hoje pode não estar junto ao Tejo. Pode estar numa reunião de professores, num conselho pedagógico, numa universidade, num ministério ou numa comissão encarregada de decidir o que fazer com a Inteligência Artificial na educação.
Isto vai destruir a aprendizagem. Os alunos deixarão de pensar. Já ninguém escreverá sozinho. Os trabalhos deixarão de ter valor. É necessário limitar. É necessário proibir.
Falta apenas desenhar monstros marinhos nas margens do regulamento.
A velha arte de ter medo do novo
Todas as grandes transformações tecnológicas produziram os seus próprios Velhos do Restelo.
A imprensa alterou o monopólio da circulação do conhecimento. A calculadora mudou a forma de trabalhar com números. O computador reorganizou escritórios inteiros. A Internet tornou acessível em segundos aquilo que antes exigia bibliotecas, arquivos e horas de pesquisa.
Depois chegaram os motores de pesquisa, a Wikipédia, os smartphones e a computação em nuvem.
Em cada etapa houve receios legítimos. E houve também uma reacção muito humana: confundir a transformação de uma competência com o desaparecimento da inteligência.
Agora chegou a Inteligência Artificial generativa. E descobrimos novamente que a civilização está prestes a acabar.
Há qualquer coisa reconfortante nesta regularidade histórica. Pelo menos a humanidade é consistente nas suas ansiedades.
O problema não é apenas a IA. É aquilo que ela revelou sobre a escola.
A Inteligência Artificial colocou uma pergunta extremamente desconfortável ao sistema educativo:
Se um aluno consegue produzir em segundos aquilo que eu costumava pedir-lhe como prova de aprendizagem, o problema está na ferramenta ou na forma como eu estava a avaliar?
Esta pergunta é devastadora porque talvez revele que uma parte considerável do ensino ainda se baseava na reprodução: ler, memorizar, repetir, resumir, responder, entregar e receber nota.
Durante décadas confundimos demasiadas vezes capacidade para reproduzir informação com capacidade para pensar.
A IA veio cometer a indelicadeza de tornar essa confusão visível.
A OCDE, no Digital Education Outlook 2026, faz uma distinção essencial: ferramentas generativas generalistas podem melhorar o desempenho imediato numa tarefa sem garantirem aprendizagem duradoura. Mas quando são utilizadas com intenção pedagógica e o desenho da aprendizagem é adaptado à sua existência, podem apoiar conhecimento, argumentação, criatividade e colaboração.
Portanto a questão séria nunca foi «IA sim ou não».
A questão é como.
Proibir é a solução favorita de quem ainda não descobriu como adaptar
Há situações em que a Inteligência Artificial não deve ser utilizada.
Um aluno precisa de aprender aritmética antes de depender de uma calculadora. Precisa de dominar os fundamentos da escrita antes de delegar todos os textos. Precisa de conhecer minimamente uma matéria antes de conseguir perceber se uma resposta produzida por uma máquina é rigorosa ou simplesmente absurda.
Portanto haverá momentos de aprendizagem e avaliação sem IA. Isso não é atraso. É pedagogia.
Mas daí até transformar a IA num instrumento proibido existe um abismo.
Porque o mundo onde esses alunos vão trabalhar não será um mundo sem Inteligência Artificial. Será precisamente o contrário.
Médicos, engenheiros, programadores, juristas, arquitectos, investigadores, gestores, jornalistas, professores e técnicos trabalharão cada vez mais com sistemas capazes de pesquisar, sintetizar, programar, modelar, traduzir e analisar.
Preparar os jovens para esse mundo impedindo-os de aprender a utilizar essas ferramentas seria aproximadamente equivalente a preparar marinheiros para atravessar o Atlântico ensinando-os exclusivamente a remar num lago.
A nova literacia chama-se inteligência crítica
O desafio educativo deixou de ser apenas ensinar a encontrar informação. Informação tornou-se abundante.
O novo desafio é saber o que fazer com ela.
Um aluno deveria aprender a interrogar uma IA. A desconfiar dela. A verificar fontes. A comparar respostas. A detectar contradições. A reconhecer alucinações. A distinguir uma afirmação plausível de uma afirmação demonstrada.
E, sobretudo, a construir pensamento próprio depois de utilizar a máquina.
A UNESCO já propõe quadros de competências em IA para estudantes e professores, incluindo ética, pensamento crítico, fundamentos da tecnologia, aplicações e utilização pedagógica responsável.
UMA ESCOLA PARA A ERA DA IA DEVERIA ENSINAR
- conhecimento fundamental sem dependência permanente da máquina;
- literacia de IA e compreensão das suas limitações;
- verificação de factos e fontes;
- pensamento crítico e argumentação;
- ética, privacidade, autoria e responsabilidade;
- criação com IA sem abdicação da autoria intelectual humana.
Saber utilizar Inteligência Artificial não significa obedecer-lhe.
Significa ser intelectualmente capaz de não ser enganado por ela.
Talvez seja necessário mudar também os exames
Podemos manter provas sem ferramentas externas para verificar conhecimentos fundamentais.
Mas podemos igualmente criar avaliações em que a IA esteja disponível.
Em vez de pedir apenas «explique a Revolução Francesa», podemos fornecer ao aluno várias respostas produzidas por sistemas de IA e pedir-lhe que identifique simplificações, erros factuais, diferenças interpretativas, fontes necessárias e construa uma conclusão própria.
Podemos apresentar um programa gerado por IA e perguntar onde estão as vulnerabilidades. Podemos entregar uma análise económica aparentemente impecável e pedir ao estudante que descubra as hipóteses escondidas.
Subitamente deixamos de avaliar apenas a capacidade de produzir texto.
Começamos a avaliar pensamento.
Que inconveniência extraordinária para alguns modelos educativos.
O professor não desaparece. Torna-se mais importante.
É provável que a IA substitua algumas tarefas realizadas por professores. Isso é diferente de substituir professores.
Um bom professor nunca foi apenas um distribuidor de informação.
Percebe quando um aluno não compreendeu. Provoca curiosidade. Faz uma pergunta inesperada. Relaciona conceitos. Reconhece potencial. Ensina método. Cria contexto. Transmite entusiasmo.
E, por vezes, muda uma vida.
A IA pode explicar álgebra às três da manhã. Mas o professor continua responsável por ajudar uma pessoa a aprender a pensar, a duvidar e a transformar informação em conhecimento.
O AI Index de Stanford mostrou que muitos professores querem ensinar IA, mas uma parte substancial ainda não se sente preparada. A resposta sensata é formação, tempo, ferramentas e regras claras, não abandono nem proibição.
Prudência não significa ficar na praia
Os novos Velhos do Restelo têm razão numa coisa fundamental: existem perigos.
Privacidade de dados. Dependência cognitiva. Plágio. Autoria. Desinformação. Preconceitos algorítmicos. Desigualdade de acesso. Utilização por menores. Avaliação injusta.
A UNESCO e a Comissão Europeia dedicam grande parte das suas orientações precisamente a estes problemas.
Portanto não precisamos de entusiasmo tecnológico infantil. Precisamos de maturidade.
Mas reconhecer que o oceano tem tempestades não significa concluir que a humanidade deveria ter permanecido eternamente na praia.
Significa aprender navegação.
Camões já sabia que o mundo muda
Há uma ironia quase perfeita nesta discussão.
O mesmo Camões a quem devemos o Velho do Restelo escreveu também:
«Todo o mundo é composto de mudança.»
Cinco séculos depois continuamos a tentar negociar essa evidência com regulamentos.
A mudança não pergunta se estamos preparados. Não solicita autorização ao Ministério da Educação. Não aguarda que todos os professores façam formação. Não espera pela próxima revisão curricular.
Chega.
Aconteceu com a imprensa, a electricidade, o automóvel, a rádio, a televisão, o computador, a Internet e o smartphone.
Agora acontece com a Inteligência Artificial.
Ensinar a próxima geração a navegar
Os novos Velhos do Restelo podem continuar na praia a explicar os perigos da viagem. Têm até alguma utilidade: recordar riscos é saudável.
O problema começa quando confundimos prudência com imobilidade.
Porque enquanto discutimos se os jovens deveriam utilizar Inteligência Artificial, muitos deles já a utilizam.
A verdadeira escolha nunca foi entre IA ou não IA.
A escolha é entre jovens que sabem utilizá-la criticamente e jovens que a utilizam sem compreender aquilo que estão a fazer.
Camões colocou os portugueses diante do oceano. Cinco séculos depois, temos outro horizonte diante de nós.
Não é feito de água. É feito de conhecimento.
Talvez esteja novamente na altura de decidir se queremos ficar na praia a explicar por que razão a viagem é perigosa ou ensinar a próxima geração a navegar.
Nota Editorial
Esta é uma crónica de opinião sobre Inteligência Artificial, educação e resistência à mudança tecnológica. O episódio do Velho do Restelo, no Canto IV de Os Lusíadas, constitui uma voz crítica dentro da própria epopeia e não deve ser lido como simples oposição irracional ao progresso.
A crónica também não defende utilização irrestrita de IA nas escolas. Dependência cognitiva, privacidade, autoria, protecção de menores, desinformação, desigualdade de acesso e integridade da avaliação são problemas reais. O argumento é que esses riscos exigem desenho pedagógico, literacia, formação docente e regras claras, não uma escola artificialmente isolada da tecnologia.
A evidência disponível é heterogénea. A OCDE alerta que melhorar o desempenho numa tarefa com IA não implica necessariamente aprendizagem duradoura; ao mesmo tempo, identifica resultados mais positivos quando a IA é utilizada com finalidade pedagógica explícita. Investigação recente reforça igualmente a importância do desenho instrucional e da mediação humana.
Pesquisa factual e verificação de fontes assistidas por IA da OpenAI. A interpretação e o argumento editorial pertencem ao autor.
Referências credíveis
- Project Gutenberg — Os Lusíadas — Luís de Camões
- Wikisource — Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades — Luís de Camões
- UNESCO — Guidance for generative AI in education and research
- UNESCO — AI competency framework for students
- UNESCO — AI competency framework for teachers
- OECD — OECD Digital Education Outlook 2026
- European Commission — Guidelines on the ethical use of artificial intelligence and data in teaching and learning
- Stanford HAI — Education — The 2025 AI Index Report
- Stanford HAI — How Math Teachers Are Making Decisions About Using AI
- Scientific Reports — Nature — AI tutoring outperforms in-class active learning
- Scientific Reports — Nature — How instructional design shapes higher-order thinking in GenAI-supported teaching
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News