Os Bombeiros que Incendiaram a Casa

Ou como as elites portuguesas descobriram, horrorizadas, o monstro que ajudaram a criar

Portugal tem uma capacidade rara.

Consegue transformar uma tragédia política numa comédia de costumes.

E fá-lo sem sequer precisar de actores profissionais.

Temos políticos, comentadores, antigos ministros, gestores, assessores, conselheiros, especialistas e figuras respeitáveis suficientes para representar a peça inteira.

O argumento é simples.

Durante décadas, o sistema político foi gastando lentamente aquilo que nenhuma democracia consegue repor com facilidade:

a confiança.

Um bocadinho aqui.

Outro ali.

Um processo judicial que demora quinze anos.

Uma promessa que desaparece depois das eleições.

Um governante que sai por uma porta e entra numa administração pela seguinte.

Um grande caso que termina numa explicação processual incompreensível.

Um banco que implode.

Um contribuinte que paga.

Um responsável que explica.

Um especialista que tranquiliza.

E o cidadão que continua a perguntar:

Durante anos, a resposta institucional pareceu ser:

"Não seja populista."

E assim chegámos ao momento extraordinário em que aqueles que passaram décadas a despejar gasolina sobre a confiança pública descobriram subitamente que existe um incêndio.

E ficaram indignadíssimos.

O misterioso aparecimento de André Ventura

Segundo a narrativa actualmente em circulação, André Ventura apareceu um dia inexplicavelmente no sistema político português.

Uma espécie de fenómeno meteorológico.

Ninguém sabe de onde veio.

Talvez tenha caído de uma trovoada.

Talvez tenha sido encontrado numa gruta.

Talvez algum agricultor do Ribatejo tenha tropeçado nele enquanto lavrava um campo.

De repente estava ali.

Com microfones.

Câmaras.

Frases curtas.

Inimigos claramente identificados.

E uma capacidade extraordinária para transformar ressentimento em espectáculo político.

As elites tradicionais ficaram perplexas.

"Mas como é possível?"

Excelente pergunta.

Talvez possamos começar pela pequena hipótese de que as pessoas deixaram de acreditar nelas.

Sei que é uma teoria ousada.

Convém talvez criar uma comissão de estudo.

A grande surpresa das elites

Durante décadas, sucessivos dirigentes políticos foram dizendo aos portugueses que as instituições funcionavam.

O cidadão olhava para a justiça.

"Funcionam."

O cidadão olhava para os salários.

"A economia está a melhorar."

O cidadão olhava para a habitação.

"Há medidas em preparação."

O cidadão olhava para os impostos.

"São necessários."

O cidadão olhava para a corrupção percebida.

"Não generalizemos."

O cidadão olhava para antigos governantes a circular entre política, empresas, consultoras, bancos e administrações.

"Isso é perfeitamente legal."

E era frequentemente legal.

Só havia um pequeno problema.

Parecia horrível.

Mas aparentemente ninguém percebeu que numa democracia a percepção também conta.

A confiança não desaparece apenas quando se prova um crime.

Desaparece quando o cidadão começa a acreditar que existe um sistema para ele e outro para quem pertence aos círculos certos.

Esse sentimento pode estar certo ou errado em casos concretos.

Politicamente, pouco importa.

Porque quando se instala, começa a corrosão.

Ventura não precisou de construir a fábrica

Como fenómeno político, Ventura não precisou de fabricar do zero todo o descontentamento que encontrou.

Recebeu grande parte dele pronto.

Com embalagem.

Manual de instruções.

Garantia de fábrica.

Décadas de frustração acumulada.

Era praticamente um kit político.

Só precisou de abrir a caixa.

Lá dentro encontrou:

desconfiança na justiça;

desconfiança nos partidos;

ressentimento contra elites;

cansaço com promessas;

salários baixos;

habitação cara;

sensação de impunidade;

medo da imigração;

frustração fiscal;

descrédito institucional.

E uma etiqueta:

Ventura fez aquilo que qualquer político talentoso faria.

Pegou no material.

Simplificou.

Aumentou o volume.

Escolheu inimigos.

Criou frases de dez segundos.

Transformou problemas complexos em culpados fáceis.

E entregou espectáculo.

O sistema político tradicional ficou chocado.

Não com os problemas.

Com o facto de alguém os estar a explorar melhor do que eles.

"Populismo!", gritaram os populistas involuntários

Depois veio a fase mais divertida.

As elites começaram a falar todos os dias contra o populismo.

Populismo de manhã.

Populismo ao almoço.

Populismo ao jantar.

Entrevistas sobre populismo.

Conferências sobre populismo.

Painéis sobre populismo.

Livros sobre populismo.

Talvez entretanto alguém já tenha criado um observatório.

Portugal adora observatórios.

É uma maneira sofisticada de observar um problema sem correr o risco de lhe tocar.

E assim ouvimos figuras que participaram durante décadas no funcionamento do sistema explicar, com enorme preocupação, que os cidadãos estão a perder confiança no sistema.

É quase comovente.

Imagine-se um sujeito que passou vinte anos a arrancar tábuas de uma ponte e depois aparece na televisão:

Talvez esteja.

Mas convinha perguntar onde guardou a serra.

O populismo como produto nacional

O Chega não nasceu apesar do sistema.

Nasceu, em grande medida, por causa das falhas do sistema.

Isso não significa que o sistema seja responsável por tudo o que o Chega faz.

Ventura é responsável pelas suas escolhas.

Os dirigentes do partido são responsáveis pelas suas palavras.

Os eleitores são responsáveis pelos seus votos.

Mas imaginar que o crescimento do Chega aconteceu num vazio social é uma fantasia particularmente confortável.

É como encontrar bolor numa casa húmida e culpar exclusivamente o bolor.

Talvez valha a pena verificar a canalização.

A maravilhosa estratégia de insultar o eleitor

Outra invenção brilhante foi tratar muitos eleitores do Chega como idiotas.

É uma estratégia eleitoral de enorme sofisticação.

Primeiro perdem a confiança das pessoas.

Depois dizem-lhes que estão erradas.

Depois chamam-lhes ignorantes.

Depois ficam surpreendidos quando elas votam ainda mais zangadas.

Há consultores políticos que provavelmente estudaram anos para chegar a este método.

Ventura agradece.

Cada vez que um comentador tradicional olha com desprezo para quem vota no Chega, alguém no Chega devia enviar-lhe flores.

Porque a mensagem recebida pelo eleitor não é:

"Ventura está errado."

É:

"Eles desprezam-nos."

E essa mensagem vale milhares de cartazes eleitorais.

O verdadeiro problema nunca é apenas Ventura

A pergunta que as elites fazem é:

"Como derrotamos Ventura?"

A pergunta deveria ser:

"Porque é que tanta gente deixou de acreditar em nós?"

Mas esta segunda pergunta é muito mais desagradável.

Obriga a olhar para dentro.

Obriga a discutir justiça.

Responsabilidade.

Mérito.

Transparência.

Portas giratórias.

Burocracia.

Habitação.

Salários.

Fiscalidade.

Serviços públicos.

Obriga, sobretudo, a aceitar uma ideia insuportável:

E ninguém gosta de descobrir que talvez seja parte do diagnóstico.

Os mesmos actores, novo espectáculo

Há algo profundamente português neste teatro.

Durante décadas, as elites disseram:

"Confiem nas instituições."

Agora dizem:

"Cuidado, os cidadãos já não confiam nas instituições."

Durante décadas disseram:

"Não dramatizem."

Agora dizem:

"A democracia está em perigo."

Durante décadas explicaram:

"Os casos são complexos."

Agora perguntam:

"Porque é que as pessoas preferem explicações simples?"

Talvez exista aqui uma relação causal.

Mas não nos precipitemos.

É melhor ouvir mais três comentadores.

A fábrica da indignação

O populismo precisa de combustível.

O combustível chama-se indignação.

E indignação não nasce do nada.

Nasce quando existe uma distância prolongada entre aquilo que as instituições prometem e aquilo que as pessoas experimentam.

Se o cidadão acredita que trabalha mais e progride menos, acumula ressentimento.

Se acredita que existem regras diferentes para poderosos e anónimos, acumula ressentimento.

Se vê processos intermináveis, acumula ressentimento.

Se sente que ninguém o ouve excepto durante campanhas eleitorais, acumula ressentimento.

Depois aparece alguém e diz:

"Eu percebo a tua raiva."

Nesse momento, a precisão do diagnóstico torna-se quase secundária.

Porque o eleitor encontrou aquilo que procurava:

reconhecimento.

A política tradicional oferecia gráficos.

Ventura ofereceu emoção.

A política tradicional oferecia explicações.

Ventura ofereceu culpados.

A política tradicional oferecia prudência.

Ventura ofereceu certeza.

E a certeza vende muito bem em sociedades cansadas.

Mesmo quando está errada.

Especialmente quando está errada com convicção.

O bombeiro incendiário

É por isso que o espectáculo actual é tão extraordinário.

Os mesmos círculos que ajudaram a criar as condições para a ascensão do populismo aparecem agora como bombeiros da democracia.

Capacete.

Mangueira.

Expressão grave.

"Temos de salvar as instituições."

Excelente.

Só existe um detalhe.

E ninguém parece querer perguntar de onde veio.

A solução revolucionária: governar melhor

Aqui talvez venha a proposta mais radical desta crónica.

Querem enfraquecer o Chega?

Experimentem governar melhor.

Sei que parece excessivo.

Mas consideremos a hipótese.

Justiça mais rápida.

Responsabilidade política efectiva.

Transparência.

Serviços públicos que funcionem.

Menos promessas impossíveis.

Menos arrogância institucional.

Menos explicações paternalistas.

Mais capacidade de admitir erros.

Mais combate real a conflitos de interesses.

Mais oportunidades económicas.

Mais mobilidade social.

Talvez então parte do populismo perca combustível.

É uma estratégia bastante menos excitante do que organizar conferências sobre extremismo.

Mas tem uma vantagem.

Pode funcionar.

O monstro no espelho

O Chega é hoje apresentado muitas vezes como ameaça externa ao sistema democrático tradicional.

Mas talvez o sistema devesse olhar para Ventura de outra forma.

Como um espelho.

Não porque Ventura represente toda a sociedade portuguesa.

Não representa.

Mas porque reflecte algo que os partidos tradicionais preferiram ignorar durante demasiado tempo:

uma enorme quantidade de cidadãos deixou de confiar neles.

O espelho pode deformar.

Pode exagerar.

Pode ser grotesco.

Mas continua a reflectir alguma coisa.

Partir o espelho não resolve o rosto.

A grande comédia nacional

E assim chegámos a esta maravilhosa situação.

As elites ajudaram a perder a confiança popular.

A perda de confiança criou espaço para o populismo.

O populismo cresceu.

Ventura ocupou o espaço.

E agora as elites estão indignadas com Ventura porque ocupa o espaço que elas próprias deixaram vazio.

É difícil imaginar uma comédia melhor.

Talvez apenas se, no final, criassem uma comissão parlamentar para descobrir quem deixou a porta aberta.

E depois nomeassem para a comissão exactamente as mesmas pessoas que tinham a chave.

ALGUNS NÚMEROS QUE ESTRAGAM A PIADA

  • Na sondagem da OCDE realizada em 2025 e publicada em 2026, apenas 26% dos portugueses declararam confiança elevada ou moderadamente elevada nos partidos políticos; a confiança no Governo ficou em 40%.
  • O mesmo estudo registou 49% de confiança nos tribunais e 68% na polícia, mostrando uma diferença clara entre instituições políticas e instituições de ordem pública.
  • O Relatório do Estado de Direito de 2026 da Comissão Europeia refere que 94% dos inquiridos em Portugal consideram a corrupção generalizada, contra 71% na média da União Europeia.
  • Nas legislativas de Maio de 2025, o Chega obteve 60 deputados e tornou-se a principal força da oposição parlamentar.
  • Na segunda volta das presidenciais de Fevereiro de 2026, André Ventura obteve cerca de um terço dos votos, confirmando que o fenómeno ultrapassou há muito a categoria de protesto marginal.

Nota final

André Ventura pode um dia desaparecer da política.

Todos desaparecem.

Mas o fenómeno que o criou permanecerá enquanto persistirem as condições que o alimentam.

Eis aquilo que o sistema político português ainda parece resistir a compreender.

O problema nunca foi apenas Ventura.

O problema foi imaginar que se podia gastar indefinidamente a confiança dos cidadãos sem pagar juros.

Agora a factura chegou.

E aqueles que passaram décadas a acumular a dívida aparecem nas televisões, muito surpreendidos, perguntando:

Talvez alguém lhes ofereça um espelho.

Não precisa de ser muito grande.

Só suficientemente grande para caber o sistema inteiro.

Nota Editorial

Referências credíveis e internacionais

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News

6 de Setembro de 2026 · Crónica / Política / Democracia / Populismo / Portugal

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