O Triunfo da Ignorância

Quando não saber deixou de ser uma limitação e passou a ser uma identidade

Durante milhares de anos, a ignorância teve pelo menos uma virtude involuntária: sabia, muitas vezes, que precisava de aprender.

Quem não conhecia procurava quem conhecia.

Quem adoecia procurava o médico.

Quem queria construir procurava o engenheiro.

Quem queria compreender o céu procurava o astrónomo.

Quem desconhecia um assunto podia cometer erros, evidentemente, mas havia uma ideia elementar que atravessava as sociedades:

saber alguma coisa exigia trabalho.

Era necessário estudar.

Ler.

Experimentar.

Falhar.

Comparar.

Duvidar.

Aprender.

Hoje descobrimos uma alternativa extraordinariamente mais eficiente.

Ter opinião.

E assim chegámos a uma das grandes revoluções intelectuais do nosso tempo:

A ignorância tornou-se confiante

O ignorante clássico dizia:

«Não sei.»

O ignorante contemporâneo diz:

«Eu sei perfeitamente.»

Esta pequena alteração mudou tudo.

Porque alguém que reconhece não saber ainda pode aprender.

Mas alguém absolutamente convencido de que já sabe tornou-se praticamente impermeável ao conhecimento.

A dúvida desapareceu.

A curiosidade morreu.

E a certeza tomou o seu lugar.

A ignorância ganhou então aquilo que durante séculos lhe faltava:

auto-estima.

Hoje fala alto.

Interrompe.

Explica.

Ensina especialistas.

Corrige investigadores.

Desconfia de cientistas.

Conhece medicina depois de três vídeos.

Economia depois de um podcast.

Geopolítica depois de quinze minutos numa rede social.

Climatologia depois de olhar pela janela.

Inteligência artificial depois de experimentar um chatbot durante vinte minutos.

E tudo isto com uma segurança intelectual que faria corar alguém que passou trinta anos a estudar o assunto.

O conhecimento tem um problema de marketing

O conhecimento sofre de uma desvantagem terrível.

É complicado.

Um cientista diz:

«Os dados sugerem isto, mas existem limitações.»

O ignorante responde:

«É mentira.»

Cinco palavras contra vinte páginas.

O cientista diz:

«Não existe ainda evidência suficiente para concluir.»

O ignorante responde:

«Eles não querem que saibas.»

Outra vitória esmagadora.

O especialista introduz contexto.

O ignorante oferece uma frase.

O investigador apresenta probabilidades.

O ignorante apresenta certezas.

E numa economia da atenção, a certeza vende muito melhor do que a dúvida.

A realidade perdeu o concurso de popularidade

Durante muito tempo imaginámos que a Internet produziria uma humanidade melhor informada.

A lógica parecia impecável.

Todo o conhecimento humano estaria acessível.

Bibliotecas.

Universidades.

Artigos científicos.

Museus.

Cursos.

Documentos históricos.

Bases de dados.

Tudo ao alcance de alguns movimentos dos dedos.

Era difícil imaginar ferramenta mais poderosa para combater ignorância.

Cometemos apenas um pequeno erro.

Presumimos que as pessoas procurariam informação.

Muitas procuraram confirmação.

E são coisas completamente diferentes.

A Internet não criou apenas uma gigantesca biblioteca.

Criou também bilhões de pequenos espelhos.

Cada pessoa pode encontrar uma comunidade que confirma exactamente aquilo em que já acreditava.

A Terra é plana?

Existe um grupo.

Vacinas fazem isto ou aquilo?

Existe um grupo.

Uma conspiração mundial controla determinado acontecimento?

Certamente haverá uma página, um vídeo, um canal e provavelmente alguém a vender uma camisola.

Nunca foi tão fácil transformar uma suspeita individual numa verdade colectiva.

A aldeia global descobriu a taberna infinita

Marshall McLuhan imaginou uma aldeia global.

Conseguimos algo ainda mais impressionante:

uma taberna global aberta vinte e quatro horas por dia.

Milhões de pessoas discutem simultaneamente.

Quase ninguém termina uma frase.

Todos possuem fontes.

Poucos as leram.

Há vídeos.

Gráficos.

Capturas de ecrã.

Frases atribuídas a Einstein que Einstein nunca disse.

Estudos que ninguém consegue localizar.

Especialistas cuja principal credencial consiste em terem muitos seguidores.

E finalmente surgiu a frase epistemológica definitiva do século XXI:

«Vi na Internet.»

Aristóteles teria pedido outra cicuta.

Os algoritmos perceberam-nos demasiado bem

Existe, porém, uma diferença fundamental entre a velha ignorância e a actual.

Hoje ela possui infraestrutura.

Algoritmos seleccionam aquilo que vemos.

E esses algoritmos não foram criados para determinar o que é verdadeiro.

Foram criados principalmente para determinar aquilo que mantém a atenção.

Isto produz uma consequência extraordinária.

Uma explicação equilibrada gera interesse.

Uma indignação gera reacção.

Uma afirmação chocante gera partilhas.

Uma mentira emocionalmente poderosa pode viajar muito mais depressa do que uma verdade aborrecida.

A competição não é justa.

A indignação tornou-se uma profissão

Também surgiu uma nova economia.

Há pessoas cujo rendimento depende literalmente de manter outras pessoas irritadas.

Precisam diariamente de um escândalo.

Uma ameaça.

Uma traição.

Um inimigo.

Uma conspiração.

Uma decadência.

Uma humilhação.

Porque pessoas tranquilas fecham a aplicação.

Pessoas furiosas continuam a deslizar o ecrã.

Nasceu assim uma indústria da indignação.

E onde existe mercado surge produção.

Se não houver crise suficiente, fabrica-se uma.

Se uma notícia não for suficientemente grave, exagera-se.

Se uma frase tiver contexto, remove-se.

Se alguém cometer um erro, transforma-se numa identidade.

A realidade tornou-se matéria-prima para entretenimento emocional.

A política percebeu rapidamente

Naturalmente, os políticos não demoraram a descobrir esta maravilhosa tecnologia.

Uma política pública complexa exige explicação.

Um inimigo exige apenas um nome.

Resolver habitação é difícil.

Encontrar culpados é fácil.

Reformar sistemas de saúde é complexo.

Dizer que «eles destruíram tudo» cabe numa publicação.

Explicar economia exige dados.

Prometer que existe uma solução simples exige apenas um microfone.

E assim surge uma das regras mais antigas da política, agora industrializada pelas redes sociais:

Não precisa ser correcta.

Precisa ser emocionalmente satisfatória.

A democracia enfrenta um problema cognitivo

Há aqui uma questão particularmente delicada.

A democracia assenta numa ideia fundamental:

todos os cidadãos possuem igual dignidade política.

Correctíssimo.

Mas igualdade política não significa igualdade de conhecimento.

Um voto vale um voto.

Uma opinião não vale necessariamente outra opinião.

Se estamos a discutir cardiologia, o cardiologista sabe provavelmente mais do que eu.

Isto não transforma o cardiologista num cidadão superior.

Transforma-o apenas em alguém que estudou cardiologia.

Esta distinção aparentemente óbvia começou a desaparecer.

Confundimos o direito universal a ter opinião com a ideia absurda de que todas as opiniões possuem igual valor factual.

Não possuem.

Todos têm direito a afirmar que dois mais dois são cinco.

A matemática mantém o direito de discordar.

A arrogância epistemológica

O verdadeiro problema do nosso tempo não é ignorância.

A ignorância é inevitável.

Eu desconheço milhões de coisas.

Tu desconheces milhões de coisas.

Um prémio Nobel desconhece milhões de coisas.

A inteligência começa precisamente por reconhecer isso.

O problema é outra coisa:

ignorância sem consciência da ignorância.

É aí que nasce a arrogância epistemológica.

A pessoa não sabe.

Não sabe que não sabe.

E sente-se suficientemente informada para explicar aos outros aquilo que desconhece.

É uma combinação extraordinariamente resistente.

Porque qualquer evidência contrária pode ser reinterpretada como confirmação.

O especialista discorda?

Está comprado.

O estudo contradiz?

Foi manipulado.

Os dados não confirmam?

São falsos.

Nenhuma informação consegue entrar num sistema cognitivo construído para transformar toda a refutação em prova da conspiração.

É intelectualmente perfeito.

E completamente inútil.

A inteligência duvida

Existe uma assimetria cruel.

Quanto mais profundamente alguém conhece determinado assunto, mais percebe a sua complexidade.

Começa a ver excepções.

Condições.

Variáveis.

Incertezas.

Possibilidades alternativas.

E por isso começa frequentemente as frases com:

«Depende.»

«Provavelmente.»

«Os dados disponíveis sugerem.»

«Ainda não sabemos.»

Parecem frases fracas.

Não são.

São marcas de honestidade intelectual.

A ciência avançou precisamente porque alguém teve coragem suficiente para dizer:

«Posso estar errado.»

A ignorância não precisa dessa coragem.

Já nasceu certa.

O especialista tornou-se suspeito

Outra transformação curiosa ocorreu.

Durante séculos, conhecimento conferia autoridade.

Hoje, em determinados ambientes, conhecimento pode produzir suspeita.

Estudou vinte anos?

Faz parte do sistema.

Trabalha numa universidade?

Está condicionado.

Publicou investigação?

Tem interesses.

É especialista?

Precisamente por isso não podemos confiar nele.

Entretanto surge alguém num vídeo vertical gravado dentro de um automóvel:

«Vou contar-vos aquilo que os especialistas não querem que vocês saibam.»

Dois milhões de visualizações.

A humanidade percorreu um longo caminho desde a Biblioteca de Alexandria.

Nem todo ele na direcção esperada.

Mas os especialistas também falharam

Seria demasiado fácil terminar aqui.

E seria intelectualmente desonesto.

As instituições científicas, políticas, académicas e mediáticas também contribuíram para a desconfiança.

Especialistas erraram.

Governos manipularam informação.

Empresas financiaram estudos favoráveis.

Instituições esconderam erros.

Jornalistas confundiram activismo com informação.

Autoridades falaram com excessiva certeza sobre matérias incertas.

E algumas elites desenvolveram uma arrogância própria, tratando cidadãos comuns como crianças intelectualmente inferiores.

Tudo isso aconteceu.

E tem consequências.

Confiança demora décadas a construir.

Pode desaparecer numa tarde.

Portanto a resposta ao triunfo da ignorância não pode ser:

«Calem-se e confiem nos especialistas.»

Isso seria apenas outra forma de ignorância.

A resposta tem de ser:

Autoridade sem transparência produz desconfiança.

Conhecimento sem humildade produz ressentimento.

A inteligência artificial entra em cena

E agora apareceu uma nova personagem.

A inteligência artificial.

Nunca tivemos uma ferramenta tão poderosa para democratizar conhecimento.

Qualquer pessoa pode perguntar.

Comparar.

Traduzir.

Explorar conceitos.

Aprender matemática.

Programar.

Ler história.

Compreender ciência.

É extraordinário.

Mas há outra possibilidade.

Podemos utilizar inteligência artificial para produzir desinformação à escala industrial.

Textos.

Imagens.

Vídeos.

Vozes.

Documentos.

Falsas evidências.

Argumentos aparentemente sofisticados para confirmar qualquer convicção absurda.

A mesma tecnologia que poderá elevar dramaticamente a inteligência colectiva pode também elevar dramaticamente a capacidade colectiva de fabricar estupidez convincente.

Uma vez mais, a tecnologia não decide.

Amplifica.

A pergunta continua a ser humana.

Estamos a perder a capacidade de dizer «não sei»

Talvez seja esta a perda mais grave.

«Não sei» tornou-se socialmente difícil.

Esperamos opinião imediata sobre tudo.

Guerra.

Epidemia.

Economia.

Energia.

Educação.

Inteligência artificial.

Alterações climáticas.

Crime.

Geopolítica.

Se aconteceu esta manhã, às onze horas já existem especialistas universais a explicar as causas profundas.

Talvez precisemos recuperar uma das frases mais inteligentes da linguagem humana:

Que extraordinária revolução seria.

Milhões de pessoas a recusarem comentar aquilo que desconhecem.

As redes sociais poderiam mesmo sofrer dificuldades financeiras.

Um risco que teremos de aceitar.

Ensinar a pensar, não apenas ensinar respostas

Durante décadas construímos sistemas educativos obcecados com respostas.

Memorizar.

Repetir.

Classificar.

Examinar.

Talvez o século XXI exija outra prioridade.

Ensinar pessoas a avaliar informação.

A perguntar pela fonte.

A distinguir correlação de causalidade.

A compreender probabilidades.

A reconhecer manipulação emocional.

A procurar evidência contrária àquilo em que acreditam.

A mudar de opinião sem sentir que perderam identidade.

A viver confortavelmente com incerteza.

Isto chama-se pensamento crítico.

Falamos muito dele.

Praticamo-lo bastante menos.

O direito de mudar de opinião

Há ainda uma estranha patologia contemporânea.

Mudar de opinião passou frequentemente a ser tratado como fraqueza.

Alguém disse algo há dez anos.

Hoje pensa de maneira diferente.

Apresentamos a antiga declaração como prova de hipocrisia.

Talvez seja.

Mas talvez tenha aprendido.

Uma sociedade inteligente deveria celebrar pessoas capazes de dizer:

«Eu estava errado.»

É uma das frases mais difíceis de pronunciar.

E uma das mais importantes.

Sem ela não há aprendizagem.

Há apenas trincheiras.

O triunfo pode não ser definitivo

Apesar de tudo, não acredito que estejamos condenados.

A mesma Internet que espalha ignorância disponibiliza conhecimento sem precedentes.

A mesma inteligência artificial que pode fabricar falsidades também pode ajudar milhões de pessoas a aprender.

Nunca tanta ciência esteve acessível.

Nunca tantos cursos.

Nunca tantas bibliotecas.

Nunca tantos dados.

Nunca tantos instrumentos para verificar afirmações.

O conhecimento não desapareceu.

Está apenas a competir num ambiente novo.

E talvez precise aprender a comunicar melhor sem se prostituir intelectualmente.

Precisamos de especialistas capazes de explicar.

Jornalistas capazes de contextualizar.

Professores capazes de despertar curiosidade.

Instituições capazes de admitir erros.

Cidadãos capazes de desconfiar sem cair em paranoia.

E sobretudo pessoas suficientemente inteligentes para perceber uma verdade extraordinariamente simples:

nenhum de nós sabe tanto quanto julga saber.

A batalha decisiva

O conflito fundamental do século XXI talvez não seja entre esquerda e direita.

Nem entre humanos e inteligência artificial.

Nem sequer entre democracia e autoritarismo.

Talvez exista uma batalha ainda mais profunda:

Porque uma civilização pode sobreviver a pessoas ignorantes.

Sempre sobreviveu.

Aquilo a que dificilmente sobreviverá é uma cultura onde a ignorância se transforma em virtude, a competência em suspeita, a evidência em opinião e a verdade numa questão de popularidade.

A ignorância sempre existiu.

A novidade é ter recebido um smartphone, milhões de seguidores e um algoritmo de recomendação.

E talvez seja por isso que parece estar a conquistar o mundo.

Não porque saiba mais.

Mas porque grita melhor.

O conhecimento, pelo contrário, continua sentado num canto a cometer o seu velho erro:

pensar antes de falar.

Talvez esteja na altura de também aprender a levantar a voz.

Não para substituir uma arrogância por outra.

Mas para defender algo que nenhuma sociedade livre pode abandonar sem pagar um preço terrível:

o direito de duvidar, o dever de aprender e a coragem de mudar de opinião quando os factos o exigem.

Porque o verdadeiro oposto da ignorância não é o conhecimento.

É a curiosidade.

E enquanto ainda formos capazes de perguntar sinceramente

a ignorância ainda não ganhou.

Nota Editorial

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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