O País dos Vendedores de Sonhos

Em Portugal há quem governe, quem espere e quem venda esperança a prestações. O problema é que a factura costuma chegar sempre ao mesmo endereço.

Nota de abertura:
Portugal é um país extraordinário. Não necessariamente pelo que faz, mas pelo que promete fazer. Há sempre um plano, uma estratégia, uma reforma estrutural, uma visão, uma agenda ou um programa de transformação. Quando nada resulta, há normalmente uma comissão para estudar por que razão a comissão anterior não conseguiu implementar o plano que substituiria a estratégia que vinha resolver o problema diagnosticado vinte anos antes. A máquina funciona. Produz sobretudo documentos.

Portugal é um país extraordinário.

Não necessariamente pelo que faz.

Mas pelo que promete fazer.

Somos provavelmente uma das poucas nações onde o futuro está permanentemente a começar na próxima legislatura.

Há sempre um plano.

Uma estratégia.

Uma reforma estrutural.

Uma visão.

Um choque.

Uma agenda.

Um programa de transformação.

E, quando nada resulta, há naturalmente uma comissão para estudar por que razão a comissão anterior não conseguiu implementar o plano que substituiria a estratégia que vinha resolver o problema diagnosticado vinte anos antes.

É uma máquina admirável.

Produz sobretudo documentos.

O grande mercado nacional dos sonhos

A política portuguesa descobriu há muito um princípio comercial extraordinário:

Não é necessário resolver um problema se conseguirmos vendê-lo suficientemente bem como esperança.

É por isso que o país funciona como uma feira permanente.

Há tendas à esquerda.

Há tendas à direita.

Há tendas ao centro.

Há bancas populistas.

Há bancas tecnocráticas.

Há vendedores ecológicos, liberais, socialistas, conservadores e revolucionários.

Todos têm um produto.

"Portugal vai crescer."

"Os salários vão subir."

"Os impostos vão descer."

"As pensões estão garantidas."

"A saúde vai melhorar."

"A habitação será resolvida."

"Os jovens vão ficar."

"Os emigrantes vão voltar."

"As empresas vão investir."

"Vamos simplificar a burocracia."

Esta última é particularmente divertida.

Portugal anuncia a simplificação administrativa com formulários de 17 páginas.

O vendedor profissional

O político português moderno não precisa necessariamente de saber resolver problemas.

Precisa de saber apresentá-los.

É uma competência diferente.

Pode não perceber de energia.

Mas sabe falar de transição energética.

Pode nunca ter criado uma empresa.

Mas fala fluentemente de empreendedorismo.

Pode desconhecer completamente a realidade de uma pequena empresa.

Mas conhece a expressão "tecido empresarial".

Pode nunca ter vivido com uma pensão mínima.

Mas explica com enorme segurança como os pensionistas terão de compreender os desafios da sustentabilidade.

É comovente.

Sobretudo quando a sustentabilidade exige sempre sacrifícios aos outros.

A formação dos futuros vendedores

E como toda a profissão séria, também esta exige formação.

Uns vão para academias partidárias.

Outros para universidades de Verão.

Aprendem comunicação.

Argumentação.

Media training.

Debate.

Estratégia.

Posicionamento.

Narrativa.

Gestão de crise.

Talvez até aprendam a responder durante quatro minutos sem dizer absolutamente nada.

É uma capacidade de altíssimo nível.

O jovem entra curioso.

Sai preparado.

Aprendeu a começar frases com:

"Importa esclarecer..."

"Não podemos ignorar..."

"Os portugueses sabem que..."

"Este Governo herdou..."

"O anterior Executivo deixou..."

"Temos de olhar para o futuro..."

E depois existe aquela obra-prima da retórica nacional:

"Estamos a trabalhar."

Em Portugal, quando um político diz que está a trabalhar, o cidadão deve começar imediatamente a preocupar-se.

Primeiro cria-se a tribo

Nas bancadas partidárias aprende-se também uma regra essencial:

Primeiro escolhe-se a camisola.

Depois analisam-se os factos.

Se o nosso partido aumenta impostos, é responsabilidade orçamental.

Se o outro aumenta impostos, é assalto fiscal.

Se o nosso partido aumenta pensões, é justiça social.

Se o adversário aumenta pensões, é eleitoralismo.

Se nós mudamos de posição, adaptámo-nos à realidade.

Se os outros mudam de posição, traíram os princípios.

É um sistema intelectualmente robusto.

Não há risco de pensamento excessivo.

O cidadão entra em cena

Do outro lado está o eleitor.

Frequentemente sem formação séria sobre orçamento público, processo legislativo, economia política, funcionamento das instituições ou técnicas de manipulação comunicacional.

Mas não faz mal.

Chegam-lhe cartazes.

Debates.

Vídeos.

Frases.

Slogans.

Uma bandeira.

Uma música.

Talvez uma fotografia do candidato a comer uma bifana.

A democracia está servida.

Depois pedimos ao cidadão que compare programas de centenas de páginas escritos com linguagem técnica e determine qual deles é financeiramente sustentável.

Ele teve seis minutos de atenção entre um jogo de futebol e um vídeo no telemóvel.

Parece justo.

As grandes promessas nacionais

Portugal possui alguns sonhos clássicos que atravessam gerações.

O primeiro é:

"Agora é que vamos reformar o Estado."

É dito aproximadamente desde o período em que ainda se usavam máquinas de escrever.

O segundo:

"Vamos combater a burocracia."

Curiosamente, cada reforma burocrática cria mais duas plataformas digitais, três códigos de acesso e uma senha que expira de 90 em 90 dias.

O terceiro:

"Vamos valorizar os jovens."

Depois o jovem olha para o salário, compara com a renda e valoriza-se emigrando.

O quarto:

"Vamos apostar na ciência e na inovação."

Normalmente seguido de um concurso público onde o investigador precisa de apresentar 14 anexos para comprar um cabo USB.

O país do futuro adiado

Portugal tem ainda uma relação particularmente sofisticada com o futuro.

O futuro nunca é agora.

Está sempre ali.

Depois da próxima reforma.

Depois do próximo quadro comunitário.

Depois do PRR.

Depois da revisão legislativa.

Depois das eleições.

Depois do próximo orçamento.

O futuro português tem um defeito de fabrico.

Quando chega, transforma-se imediatamente em presente.

E nesse momento deixa de interessar.

Começamos logo a planear o futuro seguinte.

As pensões também entram na feira

O mercado dos sonhos fica especialmente animado quando se fala de pensões.

Uns dizem:

"Não há alternativa. Temos de trabalhar mais anos."

Outros respondem:

"Reforma aos 65 para todos."

Um vende fatalismo.

O outro vende facilidade.

Ambos preferem slogans.

Poucos apresentam cenários completos.

Quanto custa?

Quem paga?

Durante quanto tempo?

Que impacto tem sobre salários?

Sobre contribuições?

Sobre impostos?

Sobre emprego?

Sobre desigualdade?

Perguntas desagradáveis.

Estragam cartazes.

A desinformação também ajuda

Entretanto apareceu outra mercadoria política extremamente útil:

a desinformação.

Não a desinformação real.

Essa existe e deve ser combatida.

Refiro-me ao uso político da palavra.

Quando uma afirmação é inconveniente, pode sempre nascer a tentação de perguntar se não será "desinformação".

É elegante.

Muito mais elegante do que responder.

O passo seguinte seria extraordinariamente eficiente:

criar um serviço central que determinasse semanalmente aquilo em que podemos acreditar.

Talvez pudesse chamar-se:

Instituto Nacional da Verdade Provisória.

Aberto das 9h00 às 16h30.

Encerrado para almoço.

O problema não são apenas os vendedores

Seria confortável culpar exclusivamente os políticos.

Mas um mercado só existe porque há compradores.

Gostamos de promessas simples.

Gostamos de soluções instantâneas.

Gostamos de quem confirma aquilo que já pensamos.

Gostamos de ouvir:

"Você tem razão."

"Eles são os culpados."

"Eu vou resolver."

Talvez por isso os vendedores de sonhos nunca tenham falta de clientes.

A realidade é muito menos simpática.

Problemas complexos têm soluções incompletas.

Reformas têm custos.

Escolhas criam perdedores.

Resultados demoram.

Nenhum político consegue transformar um país em quatro anos.

Isto seria uma péssima campanha eleitoral.

O produto mais raro: verdade

Imaginem por um momento um candidato diferente.

Subia ao palco e dizia:

"Não sei resolver tudo."

"Esta medida terá custos."

"Algumas promessas são incompatíveis entre si."

"Talvez tenhamos de mudar de estratégia se os dados mostrarem que estamos errados."

"A oposição tem razão em alguns pontos."

Provavelmente seria internado antes de terminar o comício.

Ou, pior:

perderia as eleições.

Porque o mercado político recompensa confiança absoluta.

Mesmo quando é completamente injustificada.

Talvez o problema seja esse

Passámos demasiado tempo a formar vendedores.

Talvez devêssemos formar compradores mais exigentes.

Cidadãos capazes de perguntar:

Quanto custa?

Quem beneficia?

Quem paga?

Qual é a fonte?

Qual é a alternativa?

Que resultados houve anteriormente?

Que promessas ficaram por cumprir?

Mostre-me os números.

Mostre-me a lei.

Mostre-me o contrato.

Mostre-me o relatório.

Isto destruiria imediatamente metade da indústria nacional dos sonhos.

E talvez fosse exactamente aquilo de que a democracia portuguesa precisa.

O verdadeiro Estado da Nação

Portugal não sofre apenas de falta de dinheiro.

Sofre de excesso de promessa.

Não sofre apenas de problemas estruturais.

Sofre de soluções publicitárias.

Não sofre apenas de maus governos.

Sofre de um sistema onde demasiadas vezes comunicar parece mais importante do que executar.

E assim continuamos.

Os vendedores montam as bancas.

As bandeiras aparecem.

As músicas começam.

Os discursos aquecem.

O futuro volta a estar magnífico.

O cidadão aproxima-se.

Escuta.

Sorri.

E compra mais um sonho.

Sem garantia.

Sem factura.

Sem direito a devolução.

Quatro anos depois, regressa à feira.

E o vendedor já tem um produto novo.

Portugal, País dos Vendedores de Sonhos.

Onde o futuro está sempre em promoção.
E a realidade, como habitualmente, paga-se a preço inteiro.

Nota Editorial

Esta crónica utiliza humor, exagero e sátira para criticar práticas recorrentes da comunicação política portuguesa: promessas excessivas, slogans simplificadores, tribalismo partidário, burocracia persistente e tendência para apresentar o futuro como solução permanente para problemas que permanecem no presente.

As referências a academias partidárias, pensões, desinformação, burocracia e campanhas eleitorais são utilizadas como elementos de sátira política e não como acusações factuais específicas contra pessoas determinadas.

A crítica central não se dirige apenas aos partidos ou aos governantes. Uma democracia também depende da exigência dos cidadãos. Mercados políticos baseados em promessas simplificadas sobrevivem porque existe procura por respostas fáceis para problemas complexos.

O objectivo editorial é defender uma cultura democrática mais exigente: menos marketing político, mais demonstração; menos promessa, mais execução; menos tribalismo, mais escrutínio; e cidadãos mais preparados para perguntar quanto custa, quem paga, quem beneficia e quais foram os resultados reais.

Francisco António dos Santos Gonçalves
Fragmentos do Caos
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