Feminismo, pobreza e a armadilha das lutas tribais

A igualdade entre homens e mulheres continua a ser uma causa essencial. Mas quando a política esquece a pobreza, corre o risco de redistribuir lugares no topo sem alterar suficientemente a falta de poder na base.

Nota de abertura:
Esta crónica não contrapõe feminismo e combate à pobreza como causas incompatíveis. Defende exactamente o contrário: a igualdade entre homens e mulheres torna-se mais profunda quando é inseparável da autonomia económica, do acesso à educação, da protecção social, da habitação, do trabalho digno e da possibilidade real de escolher a própria vida. O alvo da crítica é a transformação de problemas sociais complexos em identidades rivais, como se justiça para uns exigisse procurar adversários noutros grupos.

Há uma tendência crescente nas sociedades modernas para transformar problemas humanos complexos em guerras de trincheiras identitárias.

Homens contra mulheres. Mulheres contra homens. Jovens contra velhos. Nativos contra imigrantes. Direita contra esquerda. Uma espécie de campeonato permanente de ressentimentos, porque aparentemente a civilização ainda não tinha competições suficientes.

O feminismo nasceu de injustiças reais e historicamente profundas. Mulheres foram privadas de voto, autonomia jurídica, acesso à educação, propriedade, participação económica e capacidade de decidir sobre a própria vida. Muitas dessas desigualdades foram corrigidas graças a décadas de luta social e política.

Por isso, discutir igualdade entre homens e mulheres continua a ser necessário.

O problema começa quando a luta pela igualdade se transforma numa luta tribal.

Quando deixamos de perguntar «como tornar a sociedade mais justa?» e começamos sobretudo a perguntar «qual é o grupo culpado?», trocamos a procura de soluções pela procura de adversários.

A desigualdade começa muito antes do género

Uma mulher pobre e uma mulher rica pertencem ao mesmo sexo, mas podem viver em universos completamente diferentes.

A mulher com recursos pode enfrentar discriminação profissional e continuar a dispor de educação, cuidados de saúde, advogados, habitação segura, redes de contactos e margem financeira para abandonar um emprego abusivo.

A mulher pobre pode enfrentar a mesma discriminação e não possuir quase nenhum desses instrumentos.

O mesmo acontece entre homens. Um homem com património, formação e influência vive uma realidade radicalmente diferente da de outro que trabalha por um salário baixo, não consegue pagar uma casa e chega ao fim do mês dependente do próximo vencimento.

Existe, portanto, uma desigualdade que atravessa praticamente todas as outras: a desigualdade económica.

Ela não elimina o sexismo. Não elimina o racismo. Não elimina a violência ou outras formas de discriminação. Mas determina frequentemente quantos instrumentos uma pessoa possui para lhes resistir.

A pobreza transforma desigualdade em falta de liberdade

Ser pobre não significa apenas ter menos dinheiro.

Significa, demasiadas vezes, ter menos opções.

Quem possui recursos pode mudar de emprego. Quem não possui talvez tenha de aceitar humilhações. Quem possui dinheiro pode pagar uma creche. Quem não possui pode abandonar o mercado de trabalho. Quem tem poupanças pode sobreviver alguns meses sem rendimento. Quem vive de salário em salário não dispõe dessa liberdade.

É aqui que igualdade e liberdade começam a encontrar-se.

A ONU Mulheres tem mostrado precisamente como pobreza e desigualdade de género se reforçam mutuamente. Discriminação laboral, menor acesso a activos, responsabilidades de cuidado e trabalho doméstico não remunerado podem reduzir a autonomia económica das mulheres. A OIT estimou que, em 2023, 708 milhões de mulheres estavam fora da força de trabalho devido a responsabilidades de cuidado não remunerado.

Estes dados não contradizem a tese desta crónica. Reforçam-na: as desigualdades de género tornam-se particularmente destrutivas quando se transformam em dependência económica e falta de capacidade para escolher.

O QUE DEVE SER RETIDO

  • A pobreza não é neutra em relação ao género: em muitos países, as mulheres apresentam maior risco de pobreza.
  • O trabalho de cuidado não remunerado continua desproporcionadamente concentrado nas mulheres e limita a participação económica.
  • A pobreza é multidimensional: rendimento, saúde, educação, habitação, tempo e protecção social condicionam a liberdade real.
  • Combater desigualdade económica não substitui o combate à discriminação; torna-o materialmente mais eficaz.

Igualdade no topo não resolve desigualdade na base

É legítimo querer mais mulheres em administrações de empresas, universidades, governos ou profissões tradicionalmente masculinas.

A representação importa. O acesso ao poder importa.

Mas existe uma pergunta mais incómoda.

O que acontece à mulher que limpa o gabinete da administradora?

E ao homem que faz a manutenção do edifício?

Talvez ambos recebam salários baixos, tenham contratos precários, paguem rendas esmagadoras e saibam que uma avaria no automóvel pode ser suficiente para destruir o orçamento do mês.

Podemos alcançar uma representação perfeitamente equilibrada entre homens e mulheres numa administração empresarial e continuar a possuir uma sociedade profundamente desigual.

Nesse caso teremos melhorado a distribuição do poder dentro da elite.

Não teremos necessariamente aumentado o poder de quem está fora dela.

Um feminismo que ignore a pobreza corre o risco de conquistar igualdade no topo enquanto deixa intacta a falta de liberdade na base.

O perigo da política identitária

As lutas tribais possuem uma enorme vantagem política: são simples.

Criam vítimas claras, culpados claros e slogans excelentes.

A pobreza é muito mais inconveniente.

Obriga a discutir salários, produtividade, educação, habitação, fiscalidade, mobilidade social, património, heranças, cuidados de infância, protecção social e distribuição efectiva de oportunidades.

Isto é trabalhoso. Exige políticas que podem ser medidas e responsabiliza governos por resultados.

É muito mais confortável organizar mais uma batalha cultural sobre quem pertence ao campo moralmente correcto.

Entretanto, homens e mulheres continuam a trabalhar quarenta horas por semana e, em demasiados casos, continuam sem conseguir pagar uma renda digna, constituir poupança ou garantir aos filhos as mesmas oportunidades de quem nasceu alguns quilómetros ao lado.

Curiosamente, a conta da electricidade ainda não pergunta pelo género antes de chegar.

Feminismo e pobreza não são causas rivais

Há um erro que seria igualmente grave: concluir que, por existir pobreza, as desigualdades de género deixaram de importar.

Isso seria substituir uma simplificação por outra.

Os próprios organismos internacionais que estudam estas matérias não tratam pobreza e género como compartimentos estanques. O Banco Mundial coloca a igualdade de género no centro da sua estratégia de redução da pobreza. A ONU Mulheres relaciona autonomia económica com protecção social, emprego digno e redistribuição do trabalho de cuidado. A OIT mostra que as diferenças no mercado de trabalho se reproduzem depois em salários, poupança, cobertura social e pensões.

Ou seja: quanto mais séria é a análise do feminismo, menos tribal ela se torna.

Porque acaba inevitavelmente por chegar às condições materiais da vida.

A verdadeira luta deveria ser contra a ausência de poder

Talvez precisemos de substituir parte desta lógica tribal por uma pergunta mais universal:

Quem possui capacidade real para escolher a própria vida?

Uma sociedade justa deve combater discriminação contra mulheres.

Deve combater discriminação contra homens quando ela exista.

Deve combater racismo, violência, exclusão e perseguição de minorias.

Mas deveria igualmente impedir que milhões de pessoas fossem condenadas desde o nascimento por circunstâncias económicas que nunca escolheram.

Porque pobreza não é apenas falta de rendimento.

É frequentemente falta de voz. Falta de segurança. Falta de tempo. Falta de escolha. Falta de futuro.

O Índice de Pobreza Multidimensional das Nações Unidas lembra exactamente isso: a privação humana não cabe apenas numa coluna de rendimento. Saúde, educação e condições de vida acumulam-se e transformam desvantagens económicas em destinos antecipados.

Uma causa universal não precisa de inimigos tribais

Talvez a luta verdadeiramente progressista não seja colocar grupos uns contra os outros.

Talvez seja construir uma sociedade onde nascer homem ou mulher, rico ou pobre, num bairro privilegiado ou numa periferia esquecida, determine cada vez menos aquilo que uma pessoa poderá vir a ser.

O feminismo tem um lugar indispensável nessa luta.

Mas torna-se mais forte quando recusa transformar todos os homens num bloco adversário e quando reconhece que classe social, pobreza, educação, trabalho, família, deficiência, origem e outros factores também distribuem poder e vulnerabilidade.

Da mesma forma, o combate à pobreza será incompleto se ignorar que mulheres e homens podem experimentar a pobreza de formas diferentes.

A alternativa à guerra tribal não é fechar os olhos às diferenças.

É compreender como elas se cruzam.

Uma sociedade não será verdadeiramente igual enquanto milhões de pessoas, homens ou mulheres, forem livres perante a lei e prisioneiras perante a vida.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião sobre igualdade, feminismo, pobreza e fragmentação identitária. Não sustenta que a pobreza seja a causa única de todas as desigualdades nem que o combate à discriminação de género seja secundário ou dispensável.

A tese defendida é mais específica: a desigualdade económica e a pobreza funcionam frequentemente como multiplicadores de outras vulnerabilidades, reduzindo a capacidade material de uma pessoa para exercer direitos que formalmente possui. Por isso, políticas de igualdade de género e políticas de combate à pobreza devem ser articuladas e não apresentadas como causas concorrentes.

Os dados internacionais citados mostram simultaneamente duas realidades: as mulheres continuam a enfrentar desigualdades específicas em emprego, trabalho de cuidado, rendimento e protecção social; e a pobreza é multidimensional, atravessando género, idade, classe, educação, composição familiar e outras condições sociais.

Pesquisa factual e verificação de fontes assistidas por IA da OpenAI. A interpretação e o argumento editorial pertencem à crónica.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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