Centum Celas: a Casa Romana que o Tempo Transformou numa Torre

Centum Celas: a Casa Romana que o Tempo Transformou numa Torre
Entre Belmonte e o Zêzere, dois mil anos de ruína, reutilização e mistério esconderam durante séculos aquilo que a arqueologia começa finalmente a revelar
Nota de abertura:
Centum Celas é um dos monumentos romanos mais singulares da Beira Interior e também um dos que mais interpretações gerou ao longo do tempo. A leitura hoje mais consistente, apoiada pelas escavações arqueológicas de Helena Frade e por estudos posteriores de Jorge de Alarcão, identifica a estrutura conservada como a parte monumental de uma villa romana. Subsistem, contudo, questões em aberto sobre a extensão do conjunto, a função exacta de alguns espaços, a relação com um eventual vicus, a proximidade de uma estação viária e a participação da propriedade na exploração mineira regional. Esta crónica distingue deliberadamente dados arqueológicos, hipóteses plausíveis e lendas posteriores.
Nota sobre a imagem:
A imagem apresentada é uma reconstituição visual hipotética criada por Inteligência Artificial, com base nos relatos históricos, vestígios arqueológicos e investigações mencionadas nesta crónica. Não pretende representar com exactidão documental o aspecto original de Centum Celas, mas antes oferecer uma interpretação visual plausível à luz da informação actualmente disponível.
Quem olha hoje para Centum Celas vê uma torre.
E é precisamente aí que começa o engano.
A estrutura isolada que domina a paisagem junto ao Colmeal da Torre, a poucos quilómetros de Belmonte, é apenas a parte que resistiu de um conjunto arquitectónico muito maior.
Durante séculos imaginou-se ali uma prisão, um templo, uma torre militar, uma estação viária ou qualquer construção misteriosa de função obscura.
A arqueologia alterou profundamente essa leitura.
O sítio é hoje classificado pelo Património Cultural como uma villa romana, e as escavações realizadas no final do século XX demonstraram que a estrutura visível fazia parte de um complexo residencial enterrado.
E talvez a história verdadeira seja ainda mais fascinante do que as lendas.
Uma ruína que enganou gerações
Centum Celas reúne praticamente todos os ingredientes necessários para produzir mitologia.
Uma construção monumental.
Isolada.
De excelente cantaria de granito.
Com grandes aberturas nas paredes.
Sem telhado.
Sem pisos interiores.
Sem uma função imediatamente evidente.
Durante séculos tentaram explicar aquele estranho esqueleto de pedra.
Foi prisão de São Cornélio.
Teria tido cem celas.
Teria sido um praetorium militar romano.
Uma torre de vigia.
Uma mansio ou mutatio destinada aos viajantes.
Um templo.
Chegou mesmo a ser proposta como parte de um fórum romano.
Quase tudo foi imaginado.
O problema é que a arqueologia começou progressivamente a encontrar outra coisa debaixo da terra.
O momento decisivo: escavar à volta da torre
A mudança fundamental ocorreu quando os arqueólogos deixaram de tentar compreender apenas o edifício que permanecia em pé e começaram a investigar aquilo que estava enterrado à sua volta.
As escavações dirigidas por Helena Frade entre 1993 e 1998 revelaram compartimentos e estruturas que demonstravam que o núcleo central não estava isolado.
Era parte de uma construção residencial muito mais extensa.
Jorge de Alarcão resumiu posteriormente a importância dessas escavações de forma clara: confirmaram que a chamada torre era a parte visível de uma villa enterrada.
Helena Frade dedicou uma parte essencial da sua investigação científica ao monumento, incluindo a dissertação de mestrado Centum Celas: uma villa romana na Cova da Beira, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 2002.
A leitura da villa é, actualmente, a interpretação que reúne o suporte arqueológico mais consistente.
Não era propriamente uma torre
Este ponto é fundamental para imaginarmos Centum Celas no século I.
A aparência vertical que hoje observamos é consequência da destruição do resto do complexo e das transformações posteriores.
Durante o período romano, aquilo que hoje chamamos "torre" seria o núcleo monumental da residência, integrado numa composição arquitectónica mais extensa.
Jorge de Alarcão descreveu o edifício romano como tendo dois pisos, divisão interna com várias salas em cada piso e uma varanda.
Para o arqueólogo, essa configuração convém claramente a uma função residencial e constitui um argumento importante contra a hipótese de templo.
Outras reconstruções propõem uma grande sala superior e soluções de cobertura hoje impossíveis de determinar com absoluta segurança.
Por isso, qualquer reconstituição visual deve assumir alguma margem interpretativa.
O que hoje vemos aberto ao céu teria sido uma residência coberta, habitada e consideravelmente mais complexa do que a ruína sugere.
A imagem de um enorme arranha-céus romano deve, portanto, ser tratada com prudência.
Centum Celas era monumental, mas a sua monumentalidade não deve ser confundida com a lógica de uma torre medieval.
Uma casa extraordinária na Lusitânia
Helena Frade identificou três grandes fases de ocupação no conjunto.
A primeira inclui a construção do edifício monumental e é situada em meados ou na segunda metade do século I d.C.
Uma segunda fase pertence ainda aos finais do mesmo século.
A terceira corresponde aos finais do século III ou aos inícios do século IV.
Isto coloca a primeira grande construção numa época em que a Lusitânia estava plenamente integrada no Império Romano.
Emerita Augusta, actual Mérida, era a capital provincial.
As estradas atravessavam a Península.
A economia regional integrava agricultura, mineração, circulação de pessoas e comércio.
O interior da Península não era um território desligado do mundo romano.
Centum Celas fazia parte desse mundo.
Lucius Caecilius entra na história
Durante as escavações apareceu uma ara contendo uma inscrição associada a um Lucius Caecilius.
O texto não é de leitura totalmente segura e a interpretação epigráfica deve ser tratada com cautela.
A investigação relaciona a inscrição com uma consagração a Vénus e Minerva e com a saúde ou sucesso de um vicus.
Jorge de Alarcão admitiu a possibilidade de a residência pertencer a um ramo da família Caecilia, uma antiga família romana.
É uma hipótese sedutora.
Mas continua a ser uma hipótese.
Não possuímos qualquer escritura romana identificando definitivamente o proprietário da casa.
Nem existe uma inscrição que permita escrever sem reservas uma biografia de um "rico comerciante de estanho chamado Lucius Caecilius".
Possuímos arqueologia, epigrafia e contexto.
E a partir deles podemos construir probabilidades.
Agricultura, mineração e riqueza
A implantação do conjunto dificilmente terá sido casual.
Centum Celas encontra-se numa área fértil da Cova da Beira, próxima do sistema hidrográfico do Zêzere e de zonas cujos aluviões metalíferos foram explorados desde épocas antigas.
Jorge de Alarcão chama particularmente a atenção para o estanho aluvial do vale do Zêzere, explorado em época romana.
É, portanto, plausível imaginar uma propriedade economicamente poderosa, apoiada na agricultura e eventualmente relacionada com a exploração mineira.
Mas aqui é novamente necessária disciplina histórica.
É muito provável que estivéssemos perante uma residência de elevado estatuto.
É plausível que a mineração desempenhasse um papel económico importante na região.
É possível que os proprietários de Centum Celas participassem nessa actividade.
Mas transformar essa possibilidade numa certeza seria ultrapassar a evidência disponível.
Uma estrada passava por aquele mundo
Há ainda outra peça extremamente interessante.
Centum Celas encontrava-se numa região atravessada por uma rota romana que ligava a área de Emerita Augusta, através de Egitania, à Beira Interior e a Viseu.
Jorge de Alarcão admitiu que pudesse existir nas proximidades algum tipo de estação viária, embora rejeitando que o próprio edifício central devesse ser interpretado como uma mansio.
Esta distinção é importante.
A antiga hipótese de "estalagem romana" pode estar errada relativamente ao edifício monumental e, ainda assim, captar parte da realidade de um sítio situado num corredor de circulação.
A casa podia ser uma villa.
E simultaneamente existir nas suas proximidades uma estrutura relacionada com a estrada.
A vida real raramente respeita as categorias rígidas com que tentamos reconstruí-la dois mil anos depois.
Villa ou pequeno centro de povoamento?
A inscrição de Centum Celas contém ainda uma palavra particularmente intrigante:
vicus.
No mundo romano, o termo podia designar diferentes realidades, incluindo pequenos aglomerados.
Jorge de Alarcão discutiu a possibilidade de o vicus referido corresponder a uma pequena povoação situada dentro de uma grande propriedade, cujos habitantes se dedicassem à agricultura ou à mineração.
Nesse cenário, a residência monumental seria o centro visível de um território económico mais complexo.
Não apenas uma casa.
Mas uma casa ligada a pessoas, terras, produção, circulação e recursos.
É uma hipótese plausível e historicamente fascinante.
Não é, porém, uma conclusão definitiva.
Então porque era tão monumental?
A arquitectura romana privada não servia apenas para morar.
Também servia para mostrar estatuto.
Uma residência monumental dizia aos visitantes quem era o proprietário.
Poder.
Riqueza.
Romanidade.
Cultura.
Posição social.
Centum Celas, erguida em excelente silharia de granito no interior da Lusitânia, seria impossível de ignorar.
Quem se aproximasse perceberia imediatamente que ali existia uma residência fora do comum.
Era casa.
Mas também era mensagem.
Uma arquitectura quase sem paralelo
E aqui permanece parte do verdadeiro mistério.
Jorge de Alarcão reconhece que o edifício é invulgar.
Mesmo aceitando a função residencial, a forma arquitectónica não possui paralelos simples na Lusitânia.
O arqueólogo sugeriu que talvez fosse necessário procurar antecedentes na arquitectura doméstica da Itália republicana ou do mundo tardo-helenístico.
Este é um mistério muito mais interessante do que as lendárias cem celas.
Que tradição arquitectónica inspirou Centum Celas?
Quem concebeu aquele edifício?
Que modelos conhecia?
Porque decidiu construí-lo daquela forma no coração da Beira Interior?
Ainda não possuímos respostas definitivas.
O incêndio e a transformação
Nos finais do século III ou nos inícios do IV, o conjunto sofreu profundas alterações.
A investigação arqueológica identifica uma última grande fase de remodelação neste período.
Outros estudos do sítio relacionam a transformação com um episódio de incêndio e com a reorganização de áreas residenciais e religiosas.
O importante é perceber que Centum Celas não corresponde a uma fotografia congelada do século I.
Foi um organismo arquitectónico utilizado, alterado e reinterpretado durante séculos.
Uma vila, uma família, quatro séculos
O próprio título escolhido por Helena Frade para um dos seus estudos posteriores é revelador:
"A Torre de Centum Celas: uma vila, uma família, quatro séculos."
O espólio arqueológico e as diferentes fases construtivas mostram uma longa duração de ocupação romana.
Gerações sucessivas passaram por aquele espaço.
A casa foi construída.
Habitada.
Alterada.
Reorganizada.
Reutilizada.
A verdadeira história de Centum Celas não é a história de uma torre imóvel.
É a história de um lugar que mudou continuamente enquanto continuava a ser habitado.
Roma desapareceu. A casa ficou.
Quando a administração imperial romana desapareceu da Península, as paredes continuavam lá.
E paredes monumentais são demasiado úteis para serem simplesmente esquecidas.
O sítio conheceu reutilizações posteriores.
Jorge de Alarcão considera que a parte superior do edifício terá sido acrescentada ou refeita durante a Idade Média e coloca prudentemente duas possibilidades:
atalaia ou domus fortis?
O inventário arqueológico municipal recente refere igualmente reutilização medieval como atalaia.
Estas transformações ajudam a explicar a aparência vertical com que o monumento chegou até nós.
O edifício romano começou lentamente a transformar-se na "torre" que gerações posteriores imaginaram.
Centum Celas entra nos documentos medievais
O nome Centum Celas surge documentalmente em 1194, quando o bispo de Coimbra, D. Pedro Soares, lhe concedeu foral, posteriormente confirmado por D. Sancho I.
Esta referência é particularmente importante porque demonstra que, muitos séculos depois da fase romana, o lugar continuava a possuir identidade territorial.
A antiga residência tornara-se já parte integrante da paisagem medieval.
E São Cornélio entrou na lenda
Centum Celas ficou também conhecida como Torre de São Cornélio.
A tradição popular associou o monumento ao santo e construiu a narrativa de que ali teria estado preso.
A partir daí, "Centum Celas" pareceu oferecer uma tradução irresistível:
a prisão das cem celas.
Era uma explicação perfeita.
Excepto por um pequeno inconveniente.
A arqueologia não encontrou a prisão.
Centum Celas provavelmente nunca teve cem celas
O próprio nome não demonstra a lenda.
Jorge de Alarcão observou que o topónimo surge apenas em documentação medieval e chamou a atenção para a possibilidade de centum não significar literalmente cem.
Poderia transmitir simplesmente a ideia de muitos compartimentos.
A pluralidade de cubicula ou cellae de uma antiga villa poderia ter contribuído para a designação medieval.
Em vez de:
"a prisão das cem celas",
teríamos algo mais próximo de:
"o lugar das muitas divisões".
Muito menos cinematográfico.
Muito mais plausível.
O que desapareceu
Este é talvez o maior drama arqueológico de Centum Celas.
Aquilo que conhecemos representa apenas uma parte de um conjunto originalmente muito mais vasto.
Estruturas periféricas foram afectadas ao longo do tempo pela agricultura, caminhos e transformações modernas do terreno.
A pars rustica, isto é, as áreas relacionadas com produção, trabalhadores, animais e armazenamento, é muito menos conhecida do que a estrutura monumental conservada.
Algumas das respostas de que necessitamos poderão simplesmente ter desaparecido.
É uma ironia arqueológica cruel.
Sobreviveu durante quase dois mil anos um dos edifícios romanos mais extraordinários da Beira Interior.
Mas parte da informação necessária para o explicar perdeu-se.
O que sabemos com elevada confiança
Podemos hoje afastar grande parte da névoa acumulada.
Centum Celas é uma construção de origem romana integrada num conjunto muito maior.
As escavações demonstraram que a chamada torre era parte de uma villa.
A primeira fase monumental pertence aproximadamente a meados ou à segunda metade do século I d.C.
O edifício romano possuía dois pisos, compartimentação interna e varanda.
Existiram várias fases de construção e remodelação.
O local continuou a ser utilizado durante séculos.
E foi reutilizado depois da Antiguidade, incluindo durante a Idade Média.
O que é provável, mas não totalmente demonstrado
Que Lucius Caecilius estivesse directamente ligado à família proprietária.
Que essa família pertencesse a um ramo da antiga gens Caecilia.
Que a propriedade combinasse agricultura com interesses na exploração do estanho.
Que existisse nas proximidades uma pequena comunidade ou vicus relacionada economicamente com a propriedade.
Que pudesse existir uma estação viária próxima.
Que a arquitectura revele influências italianas ou helenísticas.
Todas estas hipóteses possuem argumentos.
Nenhuma deve ser apresentada como certeza absoluta.
E aquilo que ainda não sabemos
Não conhecemos com certeza o aspecto completo da fachada romana.
Não sabemos exactamente como eram todas as coberturas.
Não conhecemos toda a extensão da propriedade.
Não sabemos quantas pessoas ali viviam.
Não conseguimos reconstruir com segurança a biografia do proprietário.
Não sabemos exactamente que relação existia entre a villa e a exploração mineira.
Não sabemos se o eventual vicus estava imediatamente junto da residência.
E continuamos sem possuir um paralelo arquitectónico perfeito para o edifício central.
O mistério não desapareceu.
Apenas deixou de ser fantasia e passou a ser ciência.
Talvez seja essa a verdadeira beleza de Centum Celas
Durante séculos perguntámos:
"Para que servia aquela torre?"
A arqueologia obrigou-nos a fazer uma pergunta diferente:
"Que sociedade conseguiu construir aquela residência naquele lugar há quase dois mil anos?"
E subitamente o edifício deixa de ser uma extravagância de granito.
Torna-se uma janela para a Cova da Beira romana.
Uma região com estradas.
Agricultura.
Mineração.
Circulação de mercadorias.
Famílias abastadas.
Trabalhadores.
Religião doméstica.
Redes económicas.
E arquitectura suficientemente ambiciosa para ainda hoje nos desconcertar.
A torre que nunca foi apenas uma torre
Talvez Centum Celas tenha sobrevivido precisamente porque deixou de ser aquilo para que fora construída.
A villa perdeu-se.
A parte monumental permaneceu.
A casa tornou-se ruína.
A ruína tornou-se torre.
A torre foi reutilizada.
Depois tornou-se lenda.
Finalmente tornou-se património.
Desde 1927 encontra-se classificada como Monumento Nacional.
E quase dois mil anos depois de alguém mandar erguer aqueles enormes blocos de granito junto ao Zêzere, continuamos a tentar compreender exactamente quem entrou pela porta.
Talvez nunca saibamos tudo.
O verdadeiro mistério de Centum Celas não está nas cem celas que provavelmente nunca existiram. Está na extraordinária casa romana que durante séculos ninguém conseguiu reconhecer.
E essa história é bastante mais fascinante do que qualquer prisão lendária.
SÍNTESE DA EVIDÊNCIA
- O Património Cultural classifica actualmente Torre de Centum-Cellas na tipologia arqueológica de Villa e confirma a classificação como Monumento Nacional desde 1927.
- Jorge de Alarcão afirma que as escavações de Helena Frade, realizadas entre 1993 e 1998, demonstraram que a estrutura visível era parte de uma villa enterrada.
- Essas escavações identificaram três fases principais: construção monumental em meados ou na segunda metade do século I d.C.; nova fase no final do século I; e remodelação nos finais do século III ou inícios do IV.
- Alarcão descreve o edifício romano como possuindo dois pisos, várias salas internas em cada piso e uma varanda, características compatíveis com função residencial.
- Uma inscrição encontrada no sítio menciona um Lucius Caecilius e um vicus, mas a leitura integral e a interpretação permanecem discutidas.
- A possibilidade de uma família Caecilia, de exploração de estanho, de um vicus associado ou de uma estação viária próxima deve ser tratada como hipótese, não como facto definitivamente demonstrado.
- O topónimo Centum Celas está documentado desde 1194. A ideia de "cem celas" é uma tradição posterior e não encontra confirmação arqueológica.
- O edifício conheceu reutilização medieval; a natureza exacta dessa fase continua discutida entre funções como atalaia ou residência fortificada.
Nota Editorial
Centum Celas continua a ser um sítio arqueológico sujeito a debate científico. A presente crónica privilegia a interpretação da villa romana porque é aquela que resulta directamente das escavações de Helena Frade e é defendida por Jorge de Alarcão, além de corresponder à tipologia actualmente adoptada pelo Património Cultural, I.P.
Isso não significa que todas as questões estejam resolvidas. Existem propostas alternativas na bibliografia arqueológica, incluindo interpretações como núcleo de vicus, estação viária ou centro administrativo. Algumas podem ser compatíveis com uma função residencial dominante, sobretudo se o sítio tiver integrado uma realidade económica e viária mais ampla.
A investigação histórica deve distinguir entre evidência material e reconstrução provável. A associação a Lucius Caecilius, a possível ligação à antiga família Caecilia, a exploração de estanho e a existência de um pequeno aglomerado associado são hipóteses fundamentadas, mas não possuem o mesmo grau de certeza que a cronologia geral, a natureza romana do edifício ou a existência da villa revelada pelas escavações.
Também as reconstruções visuais devem ser entendidas como modelos interpretativos. A arqueologia permite inferir volumes, compartimentação, alguns elementos arquitectónicos e a relação com estruturas adjacentes, mas não preservou informação suficiente para reconstituir com rigor absoluto coberturas, fachadas completas, decoração ou todos os edifícios do conjunto.
A melhor maneira de respeitar Centum Celas não é eliminar o mistério através de certezas artificiais. É mostrar até onde chega a evidência e reconhecer honestamente o ponto exacto onde começa a hipótese. É precisamente nesse limite que a arqueologia se torna mais interessante.
Referências credíveis
- Património Cultural, I.P. — Torre de Centum-Cellas: ficha oficial de património imóvel
- FRADE, Helena — Centum Celas: uma villa romana na Cova da Beira, dissertação de mestrado, Universidade de Coimbra, 2002
- ALARCÃO, Jorge de — "Notas de arqueologia, epigrafia e toponímia – VI", Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 15, 2012, pp. 113–137
- Município de Belmonte — apresentação de A Torre de Centum Celas (Belmonte), Jorge de Alarcão e José Luís Madeira, 2019
- e-Cultura / Centro Nacional de Cultura — Torre de Centum Cellas
- Município de Belmonte — Centro Interpretativo de Centum Cellas
Augustus Veritas OpenAI
E co-autoria de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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