Aos Jovens que Entram na Universidade

Aprendam a navegar o caos antes que o caos aprenda a navegar-vos

Nota de abertura:
Entrar na universidade já não significa receber um mapa relativamente estável para uma profissão. Significa, cada vez mais, aprender a construir mapas enquanto o território muda. Num mundo onde tecnologia, ciência, economia e profissões se transformam em ciclos cada vez mais curtos, a principal competência talvez seja esta: aprender a navegar o caos e estar preparado para surpreender a mudança antes que a mudança nos surpreenda.

Entrar na universidade continua a ser apresentado como o início de uma estrada relativamente previsível.

Escolher um curso.

Aprender uma profissão.

Obter um diploma.

Encontrar emprego.

Construir uma carreira.

Durante muito tempo, esta sequência teve alguma correspondência com a realidade.

Hoje, cada vez menos.

Quem entra agora na universidade poderá trabalhar, dentro de vinte anos, em profissões que ainda não existem, utilizar tecnologias que ainda não foram inventadas e resolver problemas que neste momento ninguém consegue sequer formular.

Por isso, talvez o pior conselho que se possa dar a um jovem seja:

"Prepara-te para o emprego que vais ter."

O conselho deveria ser outro:

Prepara-te para um mundo que vai mudar várias vezes enquanto estiveres nele.

O diploma é o começo, não o destino

A universidade continua a ser importante.

Mas não deveria servir apenas para ensinar ferramentas.

Ferramentas envelhecem.

Linguagens mudam.

Plataformas desaparecem.

Empresas deixam de existir.

Profissões transformam-se.

Até conhecimentos altamente especializados podem perder valor quando o contexto muda.

Aquilo que permanece é outra coisa:

capacidade de pensar.

Perceber um problema.

Questionar pressupostos.

Aprender autonomamente.

Relacionar conhecimentos diferentes.

Reconhecer quando estamos errados.

Adaptar uma estratégia.

Começar novamente.

Essas competências envelhecem muito mais devagar.

Aprendam sobretudo a aprender

Uma das maiores ilusões do ensino é fazer-nos acreditar que primeiro aprendemos e depois utilizamos aquilo que aprendemos.

A vida profissional raramente funciona assim.

Frequentemente recebemos primeiro o problema.

E só depois descobrimos aquilo que precisamos de aprender para o resolver.

É aí que se distingue quem sabe apenas executar procedimentos de quem realmente sabe pensar.

Não tenham medo de dizer:

"Não sei."

Tenham medo de acrescentar:

"E não quero descobrir."

A pessoa intelectualmente forte não é aquela que possui todas as respostas.

É aquela que sabe construir uma resposta quando ainda não existe nenhuma.

O mundo não vos deve estabilidade

Esta talvez seja uma ideia desagradável, mas útil.

O mundo não tem obrigação de permanecer semelhante ao que encontraram quando entraram na universidade.

A Inteligência Artificial já está a alterar profissões inteiras.

A automatização continuará.

A ciência acelerará.

Empresas nascerão e desaparecerão.

Novos conflitos políticos e económicos mudarão mercados.

A transição energética criará indústrias e destruirá outras.

E provavelmente acontecerão várias coisas que ninguém antecipou.

A humanidade possui um talento particular para produzir acontecimentos não previstos e depois constituir uma comissão para estudar por que razão ninguém os previu.

Habituem-se a isso.

Não estudem apenas dentro da vossa área

Um engenheiro deveria conhecer alguma economia.

Um economista deveria compreender tecnologia.

Um médico deveria conhecer estatística.

Um programador deveria ler filosofia.

Um gestor deveria perceber ciência.

E todos deveriam conhecer História suficientemente bem para perceber que quase todas as gerações acreditaram viver num mundo estável imediatamente antes de alguma coisa o alterar profundamente.

Os problemas interessantes raramente respeitam fronteiras académicas.

A inovação acontece muitas vezes precisamente onde duas áreas que normalmente não conversavam começam finalmente a conversar.

Aprendam a discordar

A universidade deveria ser também um lugar onde se aprende algo actualmente em vias de extinção:

discordar sem transformar o outro em inimigo.

Procurem pessoas que contradigam as vossas ideias.

Leiam autores com quem não concordam.

Tentem provar que vocês próprios estão errados.

Uma ideia que só sobrevive num ambiente onde ninguém a questiona não é uma ideia forte.

É uma espécie protegida.

E nunca confundam consenso com verdade.

O consenso pode ser útil.

Mas:

Sem dissenso, o consenso transforma-se facilmente em silêncio organizado.

Não construam a identidade em torno de uma profissão

Não digam demasiado cedo:

"Eu sou isto."

Digam:

"Neste momento faço isto."

Parece uma diferença pequena.

Não é.

Quem transforma uma profissão em identidade pode sentir qualquer mudança tecnológica como ameaça pessoal.

Quem constrói a identidade em torno da curiosidade e da capacidade de aprender consegue mudar de profissão sem sentir que deixou de existir.

O futuro pertencerá cada vez mais a pessoas capazes de reconstruir competências várias vezes durante a vida.

Tenham projectos próprios

Não esperem sempre por autorização institucional.

Construam qualquer coisa.

Um programa.

Um artigo.

Uma investigação.

Uma associação.

Uma pequena empresa.

Um projecto aberto.

Uma experiência.

Uma solução para um problema real.

É extraordinária a diferença entre aprender teoricamente que algo funciona e descobrir, às duas da manhã, que aquilo afinal não funciona.

É nesse momento que começa grande parte da aprendizagem verdadeira.

E aprendam a navegar o caos

Talvez esta seja a competência principal.

O caos não significa ausência completa de ordem.

Significa viver num ambiente onde informação é incompleta, regras mudam, acontecimentos inesperados surgem e ninguém possui o mapa completo.

Não esperem sempre por certezas.

Aprendam a avançar com conhecimento imperfeito.

Reavaliar.

Corrigir.

Mudar de direcção.

E continuar.

Porque uma das capacidades mais importantes deste século será conseguir dizer:

"O plano deixou de funcionar. Vamos construir outro."

Sem drama.

Sem orgulho ferido.

Sem nostalgia pelo plano antigo.

Uma mensagem para quem começa

Entrem na universidade para aprender muito mais do que uma profissão.

Aprendam ciência.

Aprendam tecnologia.

Aprendam História.

Aprendam a escrever.

Aprendam a argumentar.

Aprendam a ouvir.

Aprendam sobretudo a pensar.

Cultivem curiosidade suficiente para nunca considerar terminada a vossa formação.

E não tentem prever exactamente onde estarão daqui a trinta anos.

Provavelmente falhariam.

Preparem-se antes para conseguir continuar a avançar quando o mundo mudar.

Porque vai mudar.

Várias vezes.

E talvez o melhor conselho que vos possa ser dado no primeiro dia seja este:

Não entrem na universidade apenas para aprender uma profissão. Entrem para aprender a pensar, a aprender depressa, a navegar o caos e a estar preparados para surpreender a mudança antes que a mudança vos surpreenda.

O futuro não pertence necessariamente aos que sabem mais hoje.

Pertence aos que continuarem capazes de aprender amanhã.

O QUE OS DADOS INTERNACIONAIS SUGEREM

  • O World Economic Forum estima que cerca de 39% das competências essenciais dos trabalhadores poderão mudar até 2030, segundo empregadores inquiridos para o Future of Jobs Report 2025.
  • Entre as competências cuja importância mais cresce aparecem Inteligência Artificial e big data, redes e cibersegurança, literacia tecnológica, pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, agilidade, curiosidade e aprendizagem ao longo da vida.
  • A OCDE destaca no Skills Outlook 2025 a importância do pensamento adaptativo, da resolução de problemas, das competências socioemocionais e da aprendizagem contínua num contexto em que as exigências do mercado mudam mais depressa do que os ciclos tradicionais de política educativa.
  • O mesmo relatório da OCDE sublinha que aprendizagem ao longo da vida e informação actualizada sobre o mercado de trabalho são essenciais para permitir adaptação, produtividade e mobilidade num ambiente económico em transformação.

Nota Editorial

Este artigo é uma mensagem editorial dirigida a jovens que iniciam o ensino superior. Não pretende diminuir a importância da formação académica nem sugerir que conhecimentos técnicos ou especializados perderam valor. Pelo contrário: quanto mais complexo se torna o mundo, maior é a necessidade de bases sólidas em ciência, tecnologia, humanidades, literacia, numeracia e pensamento analítico.

A tese central é outra: num ambiente profissional marcado por rápidas mudanças tecnológicas, económicas, demográficas e geopolíticas, a formação inicial já não pode ser encarada como um pacote fechado de conhecimentos destinado a durar uma carreira inteira. A capacidade de aprender, desaprender, reaprender e transferir conhecimentos entre contextos torna-se parte essencial da própria competência profissional.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, baseado em respostas de mais de mil grandes empregadores em 55 economias, estima que 39% das competências essenciais dos trabalhadores poderão mudar até 2030. O relatório identifica simultaneamente competências tecnológicas e humanas entre as que mais crescem em importância, incluindo IA e big data, cibersegurança, literacia tecnológica, pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, curiosidade e aprendizagem ao longo da vida.

A OCDE, no Skills Outlook 2025, chega a uma conclusão complementar: capacidades fundamentais como literacia, numeracia, resolução adaptativa de problemas e competências sociais e emocionais continuam centrais, enquanto a aprendizagem ao longo da vida se torna indispensável para acompanhar necessidades que evoluem mais rapidamente do que os ciclos tradicionais de educação e política pública.

A expressão «navegar o caos» é, portanto, metafórica. Não defende improvisação permanente nem abandono do conhecimento estruturado. Significa desenvolver capacidade para agir perante informação incompleta, rever hipóteses, aprender novas ferramentas e mudar de estratégia sem perder rigor intelectual.

A universidade continua a ter uma missão decisiva. Talvez deva apenas recordar com maior frequência que a sua melhor contribuição não é entregar aos estudantes um mapa definitivo do futuro, mas ajudá-los a construir a inteligência necessária para continuar a desenhá-lo quando o mapa deixar de corresponder ao território.

Referências internacionais

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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