A República dos "Concordo Plenamente"

Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Talvez por isso seja tão extraordinário observar a quantidade de pessoas que consegue concordar antes de ler.

Nota de abertura:
As redes sociais prometeram democratizar a conversa pública. O LinkedIn prometeu até uma versão profissional dessa ágora. Entre algoritmos, prestígio, métricas, autopromoção e reacções automáticas, conseguimos por vezes transformar essa extraordinária infra-estrutura de conhecimento numa procissão de "Excelente reflexão". A tecnologia é moderna. O comportamento humano continua deliciosamente paleolítico.

Há qualquer coisa de profundamente cómica no modo como transformámos as redes sociais em lugares onde toda a gente fala e quase ninguém conversa.

Prometeram-nos uma nova ágora.

Um espaço aberto.

Horizontal.

Democrático.

Um lugar onde ideias circulariam livremente, especialistas encontrariam cidadãos, desconhecidos poderiam desafiar figuras públicas e o conhecimento deixaria de depender das antigas portas de entrada.

Construímos isso.

Depois enchêmo-lo de fotografias de pequeno-almoço, frases motivacionais, indignação instantânea e comentários do género:

"Excelente reflexão."

Talvez Sócrates tivesse preferido a cicuta.

A opinião em três segundos

Nunca tivemos acesso a tanta informação.

Nunca foi tão fácil publicar.

Nunca foi tão simples encontrar documentos científicos, estatísticas, livros, arquivos, opiniões contraditórias e dados oficiais.

Era suposto isto produzir cidadãos melhor informados.

Produziu também uma nova criatura.

O leitor que não lê.

Percorre o título.

Olha para a fotografia.

Reconhece o autor.

Consulta rapidamente o número de reacções.

E em aproximadamente três segundos decide aquilo que pensa.

Se o autor pertence à sua tribo:

"Brilhante."

Se pertence à tribo adversária:

"Vergonhoso."

Se nunca ouviu falar dele:

continua a deslizar o dedo.

Não é propriamente leitura.

É classificação.

Uma espécie de alfândega mental onde cada ideia recebe imediatamente um carimbo:

AMIGO.

INIMIGO.

IRRELEVANTE.

Depois chegou o LinkedIn

O LinkedIn deveria ser diferente.

É uma rede profissional.

Ali estão engenheiros.

Médicos.

Investigadores.

Professores.

Programadores.

Gestores.

Economistas.

Pessoas com licenciaturas, mestrados, doutoramentos e currículos suficientemente extensos para necessitarem de índice remissivo.

Seria de esperar discussão.

Perguntas.

Argumentos.

Discordância fundamentada.

Troca de experiências.

Quase uma universidade distribuída.

E então alguém publica um artigo sério, tecnicamente competente, com dados, referências e uma tese que exige oito minutos de atenção.

Silêncio.

Duas reacções.

Talvez um primo.

Depois aparece um antigo ministro, administrador reciclado, comentador permanente ou personalidade suficientemente conhecida para já não necessitar de dizer nada particularmente interessante.

Publica sete parágrafos de banalidades.

Às vezes nem sete.

Pode ser apenas:

"Precisamos de pessoas no centro das decisões."

E imediatamente começa a procissão.

"Excelente, Dr.!"

"Não podia estar mais de acordo."

"Uma visão necessária."

"Fantástico contributo."

Contributo para quê permanece ligeiramente misterioso.

O milagre da concordância sem leitura

Há aqui uma hipótese que merece investigação científica.

Talvez muitos destes comentadores nem sequer tenham lido aquilo com que concordam.

É perfeitamente possível.

A internet criou uma extraordinária modalidade intelectual:

a concordância preventiva.

Reconhece-se a personagem.

Confirma-se o estatuto.

Observa-se que outras pessoas importantes já reagiram.

E concorda-se.

O conteúdo torna-se quase secundário.

É uma forma muito eficiente de pensamento.

Poupa tempo.

Poupa esforço.

E reduz significativamente o risco de descobrir que afinal discordávamos.

O comentário como cartão de visita

No LinkedIn existe ainda outro fenómeno fascinante.

Muitos comentários não são realmente dirigidos ao autor.

São dirigidos à audiência.

"Excelente reflexão" pode significar:

"Estou aqui."

"Totalmente de acordo" pode querer dizer:

"Veja que pertenço ao seu círculo intelectual."

"Parabéns pela partilha" talvez signifique:

"Quando surgir aquela vaga no conselho de administração, recorde-se desta pequena demonstração de entusiasmo."

Transformámos o debate numa forma subtil de publicidade pessoal.

É networking litúrgico.

O autor publica.

A assembleia responde:

Ámen.

O algoritmo distribui visibilidade pelos fiéis.

O prestígio substituiu o argumento

Não é um problema novo.

Durante milhares de anos, os seres humanos deram mais atenção a quem possui estatuto.

Chefes.

Sacerdotes.

Generais.

Professores.

Políticos.

Celebridades.

Influenciadores.

Mudámos os títulos.

O mecanismo permaneceu extraordinariamente robusto.

Nas redes sociais, porém, acrescentámos instrumentos de medição.

Seguidores.

Gostos.

Partilhas.

Visualizações.

Distintivos.

Cargos.

Empresas onde alguém trabalhou.

Agora o prestígio vem acompanhado de números.

E números produzem uma ilusão particularmente poderosa:

se muitas pessoas prestam atenção, deve valer a pena prestar atenção.

Nem sempre.

Milhões de moscas também podem demonstrar entusiasmo considerável por determinadas matérias sem que isso constitua recomendação gastronómica.

O desconhecido tem de provar tudo

A desigualdade mais interessante das redes sociais não é tecnológica.

É reputacional.

Uma pessoa desconhecida pode escrever uma análise excelente.

Tem de demonstrar tudo.

Fontes.

Dados.

Argumentos.

Contexto.

Coerência.

Outro indivíduo possui simplesmente um nome reconhecido.

Já entra na sala com crédito intelectual pré-aprovado.

Pode escrever:

"Vivemos tempos de mudança."

E centenas de pessoas descobrem subitamente profundidade filosófica nesta extraordinária revelação.

Um desconhecido escreve quinze páginas sobre as causas dessa mudança.

Quatro pessoas começam a ler.

Duas chegam ao fim.

Uma discorda.

A outra era o autor.

E os diplomas?

Talvez a parte mais desconcertante seja observar este comportamento entre pessoas altamente qualificadas.

Durante muito tempo tivemos uma crença confortável.

Mais educação produziria automaticamente mais pensamento crítico.

Não funciona assim.

Educação e pensamento crítico relacionam-se.

Mas não são sinónimos.

Um doutoramento demonstra competência num determinado domínio.

Não vacina contra conformismo.

Não elimina tribalismo.

Não impede reverência perante autoridade.

Não oferece imunidade contra vaidade.

E certamente não impede alguém de escrever:

"Concordo consigo a 100%."

Uma frase curiosa.

Concordar a 73% poderia exigir algum raciocínio.

A 100% resolve-se mais depressa.

A tribo dos inteligentes

Existe até uma armadilha adicional.

Quanto mais inteligentes somos, mais capazes podemos tornar-nos de justificar aquilo em que já acreditávamos.

A inteligência não serve apenas para descobrir a verdade.

Também pode servir para construir argumentos sofisticadíssimos em defesa do erro.

Um cérebro bem treinado é uma ferramenta poderosa.

Infelizmente pode ser utilizado pelo proprietário para qualquer fim.

Inclusive para convencer-se de que nunca esteve errado.

As redes sociais recompensam particularmente esta habilidade.

Não premiam frequentemente quem hesita.

Premiam quem afirma.

Quem simplifica.

Quem indigna.

Quem confirma aquilo que o público já desejava ouvir.

"Não tenho informação suficiente para formar uma opinião" dificilmente se tornará viral.

Embora seja provavelmente uma das frases mais inteligentes que alguém possa escrever.

A morte da dúvida

Há algo especialmente inquietante nesta cultura.

Estamos a perder o valor social da dúvida.

Dizer:

"Não sei."

"Preciso de ler mais."

"Talvez esteja enganado."

"Esse argumento fez-me mudar de opinião."

deveria ser sinal de maturidade intelectual.

Nas redes sociais parece frequentemente uma demonstração de fraqueza.

Por isso todos sabem.

Todos decidem.

Todos possuem certezas.

É impressionante a quantidade de especialistas mundiais que aparecem subitamente durante uma pandemia, uma guerra, uma eleição ou uma crise económica.

Passamos numa semana de epidemiologistas para estrategas militares.

Depois economistas.

Depois constitucionalistas.

Finalmente treinadores da selecção nacional.

Há competências humanas que aparentemente se transmitem por actualização automática.

O algoritmo não quer filósofos

Convém também não culpar apenas as pessoas.

As próprias plataformas foram concebidas para maximizar atenção.

E pensamento profundo possui um defeito comercial gravíssimo.

Demora tempo.

Uma discussão séria pode exigir vinte minutos.

Uma indignação exige vinte segundos.

Para uma plataforma que mede permanência, interacção e frequência, a segunda possui vantagens evidentes.

Complexidade perde contra simplicidade.

Nuance perde contra certeza.

Um ensaio perde contra uma frase.

Um especialista desconhecido perde frequentemente contra uma personalidade reconhecível.

Não existe conspiração.

Existe optimização.

E a optimização, quando aplicada suficientemente bem à psicologia humana, produz resultados muito parecidos com uma conspiração.

Tornámo-nos audiência uns dos outros

A transformação talvez seja ainda mais profunda.

Deixámos de ser apenas cidadãos.

Tornámo-nos audiência.

Cada pessoa possui palco.

Perfil.

Seguidores.

Marca pessoal.

Métricas.

Produzimos pequenas versões públicas de nós próprios.

Naturalmente começamos a comportar-nos como empresas de comunicação.

Protegemos reputação.

Escolhemos posições seguras.

Evitamos conflitos com pessoas importantes.

Elogiamos estrategicamente.

Publicamos opiniões suficientemente fortes para parecer interessantes, mas não suficientemente perigosas para prejudicar oportunidades profissionais.

O pensamento transforma-se lentamente em gestão de carreira.

É particularmente elegante porque podemos continuar a chamar-lhe autenticidade.

A conversa que desapareceu

Talvez aquilo que mais falta nas redes sociais não seja informação.

É conversa.

Conversa verdadeira.

Aquela em que alguém apresenta uma ideia.

Outro discorda.

Explica porquê.

O primeiro responde.

Ambos descobrem alguma coisa.

Talvez nenhum mude completamente de opinião.

Mas saem intelectualmente diferentes do ponto onde começaram.

Isso é discussão.

Não é combate.

Não exige vencedor.

Durante séculos, algumas das maiores ideias humanas nasceram precisamente assim.

Hoje frequentemente tratamos a discordância como agressão.

Ou como oportunidade para uma exibição pública de superioridade moral.

O resultado é previsível.

As pessoas deixam de discutir.

Agrupam-se.

Cada grupo confirma o outro.

E todos saem extraordinariamente satisfeitos por terem demonstrado aquilo que já sabiam quando entraram.

O grande desperdício

E talvez seja isto que considero mais grotesco.

Temos uma infra-estrutura que teria parecido ficção científica aos maiores pensadores da história.

Um investigador em Lisboa pode discutir instantaneamente com outro em Tóquio.

Um estudante pode consultar bibliotecas inteiras sem sair de casa.

Um engenheiro pode publicar uma solução e receber contributos de milhares de colegas.

Um cidadão comum pode confrontar directamente um ministro com dados oficiais.

Toda a humanidade poderia participar numa gigantesca conversa.

É uma conquista extraordinária.

E uma parte considerável dela é utilizada para:

"Excelente reflexão, Dr. João."

Há qualquer coisa de magnificamente humana nesta tragédia.

Construímos uma máquina para ligar todo o conhecimento do planeta.

E utilizamo-la para enviar aplausos.

Talvez ainda haja esperança

Mas as redes são aquilo que fazemos delas.

Nada impede alguém de ler antes de reagir.

Perguntar antes de atacar.

Discordar sem insultar.

Exigir fontes.

Reconhecer um bom argumento vindo de alguém desconhecido.

Ignorar um mau argumento vindo de alguém famoso.

Mudar de opinião.

Escrever:

"Não concordo consigo, e estas são as razões."

Essa pequena frase contém mais democracia do que milhares de reacções automáticas.

Porque uma sociedade intelectualmente saudável não é aquela onde todos concordam.

É aquela onde as pessoas conseguem discordar sem deixar de pensar.

Talvez esse devesse ser o verdadeiro indicador de literacia digital.

Não quantas pessoas possuem acesso à Internet.

Nem quantas estão no LinkedIn.

Nem quantos diplomas acumulámos.

Mas quantas ainda conseguem fazer uma coisa aparentemente revolucionária:

ler aquilo que alguém escreveu antes de decidir se concordam.

Num mundo permanentemente ligado, talvez essa seja agora uma das formas mais raras de inteligência.

O QUE DEVE SER RETIDO

  • A leitura superficial em redes sociais é um fenómeno mensurável: um estudo com mais de 35 milhões de publicações no Facebook encontrou cerca de 75% de partilhas de links sem clique prévio.
  • Prestígio e influência funcionam como atalhos de aprendizagem social e podem aumentar a difusão de conteúdos independentemente da qualidade intrínseca do argumento.
  • No LinkedIn, número de seguidores, tags, hashtags e interacções prévias estão associados a mais reacções, comentários e republicações.
  • Sinais sociais como gostos, comentários e consenso percebido podem alterar a avaliação que fazemos de mensagens e informação.
  • Conteúdo emocional e indignação tendem a gerar forte engagement, incluindo na difusão de desinformação.
  • As redes sociais não produzem apenas efeitos negativos: investigação experimental recente mostra que seguir notícias nelas pode também aumentar conhecimento e exactidão de crenças, dependendo do uso e do contexto.

Nota Editorial

Esta crónica é um texto de opinião e utiliza deliberadamente caricatura, exagero e humor para descrever comportamentos observáveis nas redes sociais. Não pretende afirmar que todos os utilizadores do LinkedIn ou de outras plataformas leiam superficialmente, procurem aprovação social ou reajam em função do estatuto de quem publica.

A ideia do "leitor que não lê", contudo, possui suporte empírico. Um estudo publicado em Nature Human Behaviour, baseado em mais de 35 milhões de publicações públicas do Facebook com ligações externas, estimou que cerca de 75% dos links reenviados foram partilhados sem que o utilizador tivesse clicado previamente no conteúdo. Os autores associaram este comportamento a processamento superficial de títulos e resumos, particularmente em conteúdos politicamente alinhados com as predisposições do utilizador.

O peso do prestígio também não é apenas uma intuição social. A investigação em evolução cultural descreve há anos o chamado prestige bias: a tendência humana para prestar mais atenção e aprender preferencialmente com indivíduos percebidos como prestigiados. Um estudo publicado em 2025, analisando dezenas de milhões de publicações e centenas de milhões de republicações no Twitter/X, encontrou que conteúdos republicados por utilizadores altamente influentes tinham maior probabilidade de continuar a difundir-se e que uma pequena fracção de utilizadores muito influentes concentrava uma parte substancial do fluxo de informação.

No caso específico do LinkedIn, investigação publicada em 2025 analisou uma amostra aleatória de 991 publicações e encontrou associações entre engagement e factores como número de seguidores, tags, hashtags e interacções anteriores. Isto não demonstra que o prestígio substitua necessariamente a qualidade do conteúdo, mas mostra que a visibilidade numa rede profissional não resulta apenas do mérito argumentativo de uma publicação.

Também os sinais sociais podem influenciar a forma como avaliamos informação. Estudos experimentais indicam que números de gostos, republicações e comentários podem afectar a percepção de consenso e a susceptibilidade a informação falsa. Uma meta-análise recente sobre comentários online encontrou igualmente que comentários positivos tendem a melhorar a avaliação da mensagem original e a aproximar atitudes das posições expressas nesses comentários.

Os algoritmos acrescentam outra camada. A literatura científica tem alertado para uma possível desadequação entre os mecanismos humanos de aprendizagem social e sistemas de recomendação optimizados para atenção e engagement. Conteúdo emocional, moral, identitário ou associado a figuras prestigiosas pode beneficiar dessa arquitectura. Estudos publicados em Science mostram, por exemplo, que indignação facilita a partilha de desinformação e pode levar utilizadores a partilhá-la sem a ler previamente.

Importa, contudo, evitar o erro inverso de considerar as redes sociais intelectualmente inúteis. Um estudo experimental publicado em Nature Human Behaviour em 2025, realizado em França e Alemanha, encontrou que seguir notícias através de Instagram e WhatsApp aumentou conhecimento político, exactidão de crenças e confiança. O problema não é simplesmente a existência das redes. É a forma como plataformas, incentivos e utilizadores escolhem utilizá-las.

A conclusão editorial da crónica é, portanto, menos tecnológica do que cultural. Nunca dispusemos de instrumentos tão poderosos para trocar conhecimento, confrontar ideias e aproximar especialistas. Se esses instrumentos forem reduzidos a métricas de visibilidade, reverência por estatuto e fórmulas automáticas de aprovação, o desperdício não será apenas digital. Será intelectual. Uma sociedade verdadeiramente qualificada não se mede pelo número de diplomas presentes numa rede, mas pela capacidade dos seus membros para ler, questionar, discordar, corrigir-se e mudar de opinião.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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