A Islândia Recusou o Privilégio

A Islândia Recusou o Privilégio
Portugueses ainda tentam perceber como é possível um povo rejeitar voluntariamente tanta experiência acumulada
Portugal acordou em estado de choque.
A notícia chegou do Norte da Europa como chegam normalmente as tragédias incompreensíveis: primeiro com incredulidade, depois com comentários de especialistas e finalmente com alguém a sugerir uma comissão de inquérito.
A Islândia voltou a dizer não à União Europeia.
Até aqui, tudo dentro da normalidade democrática.
O verdadeiro escândalo veio depois.
Ao rejeitar a reabertura das negociações com a UE, os islandeses recusaram também, ainda que apenas no maravilhoso universo da sátira, a extraordinária possibilidade de um dia poderem ser governados por António Costa.
É difícil compreender.
Muito difícil.
Talvez seja cultural.
Talvez o frio afecte o discernimento.
Talvez viver rodeado de vulcões tenha produzido naquele povo uma estranha tolerância ao risco.
Porque nenhum português sensato consegue perceber como alguém olha para décadas de experiência política nacional, observa o percurso europeu de António Costa e conclui:
É quase ofensivo.
Um privilégio europeu desperdiçado
Os islandeses talvez não tenham compreendido aquilo que estava em causa.
Não se tratava apenas de aderir à União Europeia.
Isso seria demasiado banal.
Tratava-se de abrir a porta a todo um universo civilizacional.
Regulamentos.
Directivas.
Comissões.
Subcomissões.
Planos estratégicos.
Relatórios de acompanhamento.
Relatórios sobre os relatórios de acompanhamento.
Reuniões preparatórias para decidir a data da reunião seguinte.
E, num horizonte suficientemente generoso, talvez até António Costa.
Um pacote completo.
Europa Premium.
Os islandeses recusaram.
Há povos ingratos.
Portugal tenta ajudar
Fontes não identificadas, que não existem mas deveriam existir, garantem que Lisboa está disponível para enviar uma missão pedagógica à Islândia.
A delegação poderá incluir:
três antigos ministros;
quatro assessores;
dois consultores;
um motorista;
um especialista em fundos europeus;
e alguém cuja função ninguém consegue explicar, mas que recebe bastante bem.
O objectivo será ensinar aos islandeses aquilo que Portugal aperfeiçoou durante décadas:
a arte de aceitar decisões explicadas como inevitáveis.
A Islândia parece ainda ter hábitos políticos antiquados.
Consultam os cidadãos.
Debatem.
Decidem.
E, pior:
às vezes dizem não.
Isto obviamente cria instabilidade.
Na Europa moderna, o método mais seguro é outro.
Consulta-se a população.
Explica-se cuidadosamente aquilo que deve pensar.
A população escolhe mal.
Espera-se alguns anos.
Pergunta-se outra vez.
Chama-se a isso aprofundamento democrático.
"Mas recusaram mesmo?"
A notícia provocou perplexidade entre cidadãos portugueses.
Um reformado de 72 anos, encontrado numa pastelaria em Lisboa, teria declarado:
O homem precisou de água.
Outro cidadão perguntou se os islandeses tinham recebido informação suficiente.
"Talvez não saibam do currículo."
É possível.
Talvez ninguém lhes tenha explicado que Portugal produziu uma geração extraordinária de dirigentes capazes de passar da política nacional para instituições europeias com a naturalidade de quem muda da sala para a cozinha.
É uma espécie de programa Erasmus para estadistas.
Nós formamos.
A Europa aproveita.
A Islândia recusa.
Ingratos.
O problema da liberdade excessiva
Talvez exista, porém, uma explicação mais profunda.
Os islandeses parecem possuir um hábito perigoso:
gostam de decidir coisas.
Isto pode parecer inocente, mas conduz rapidamente a situações incontroláveis.
Hoje recusam a União Europeia.
Amanhã perguntam para onde vão os impostos.
Depois querem saber quem decidiu determinada política.
Daqui a pouco exigem responsabilidades.
É uma espiral.
Portugal conseguiu evitar muitos destes perigos através de um sistema mais sofisticado.
O cidadão vota.
O governo governa.
As instituições explicam.
Os comentadores traduzem.
E, quando ninguém percebe exactamente o que aconteceu, surge um especialista na televisão para garantir que tudo decorreu dentro da normalidade.
É um modelo muito mais tranquilo.
A Europa observa com preocupação
Em Bruxelas, haverá certamente preocupação.
Não necessariamente porque a Islândia rejeitou a UE.
Mas porque a ideia de um povo dizer simplesmente "não" pode espalhar-se.
É preciso ter cuidado.
A palavra é curta.
Tem apenas três letras.
Mas é extremamente perigosa.
"Não."
Não queremos.
Não concordamos.
Não aceitamos.
Não nos convence.
Um desastre institucional.
Muito melhor utilizar expressões europeias mais maduras:
"Há reservas."
"Será necessário aprofundar o diálogo."
"O processo permanece em avaliação."
"Existem sensibilidades que devem ser acomodadas."
Estas frases têm a enorme vantagem de não significarem absolutamente nada.
Por isso funcionam tão bem.
O choque português
O caso islandês é especialmente difícil para Portugal porque passámos décadas a aprender exactamente o comportamento contrário.
Disseram-nos que determinada medida era necessária.
Aceitámos.
Disseram-nos que outra era inevitável.
Aceitámos.
Disseram-nos que tínhamos vivido acima das possibilidades.
Pedimos desculpa.
Disseram-nos que precisávamos de austeridade.
Apertámos o cinto.
Depois explicaram-nos que precisávamos de crescimento.
Comprámos outro cinto.
Agora os islandeses aparecem e dizem:
"Não."
Assim, sem relatório.
Sem grupo de trabalho.
Sem reunião extraordinária.
É quase obsceno.
António Costa mantém-se disponível
Naturalmente, António Costa não tem qualquer responsabilidade nesta tragédia diplomática imaginária.
Mas isso não impedirá Portugal de sentir que a Islândia desperdiçou uma oportunidade histórica.
Talvez daqui a alguns anos os islandeses se arrependam.
Talvez estejam numa manhã fria em Reykjavik, olhando para a neve e pensando:
"Podíamos ter tido mais Europa."
Ou até:
"Podíamos ter tido António Costa."
Nesse momento já será tarde.
Há oportunidades que só aparecem uma vez.
Ou duas.
Ou várias, dependendo dos calendários eleitorais e das nomeações europeias.
Um povo difícil de governar
O verdadeiro problema islandês pode afinal ser outro.
É um país pequeno.
Pouca população.
Elevada confiança social.
Forte sentido de comunidade.
Instituições relativamente próximas dos cidadãos.
Tudo características perigosas.
Porque quanto mais próximo estiver o poder das pessoas, mais facilmente elas percebem o que ele está a fazer.
Portugal resolveu este problema através de sucessivas camadas administrativas.
Município.
Distrito.
Estado.
Instituto.
Autoridade.
Comissão.
Secretaria.
Ministério.
Bruxelas.
Quando a decisão finalmente chega ao cidadão, já ninguém consegue determinar exactamente onde começou.
É um extraordinário mecanismo de protecção política.
A superioridade administrativa do Sul
Também existe uma diferença cultural.
Na Islândia, aparentemente, quando algo não funciona tentam corrigir.
No Sul da Europa temos uma tradição mais rica.
Criamos uma comissão.
A comissão produz um relatório.
O relatório recomenda reformas.
As reformas são estudadas.
O estudo conclui que é necessária uma avaliação.
A avaliação propõe uma comissão.
E assim garantimos estabilidade institucional durante décadas.
Chama-se experiência governativa.
Os islandeses provavelmente ainda estão demasiado focados em resultados.
Coisa de povos jovens.
Um apelo à Islândia
Talvez ainda seja possível resolver o equívoco.
Portugal poderia enviar uma pequena amostra gratuita.
Um pacote experimental.
Durante seis meses, a Islândia receberia:
uma autoridade reguladora;
duas taxas administrativas;
quatro directivas;
uma plataforma informática pública que falha às segundas-feiras;
sete consultores;
e António Costa para explicar como tudo aquilo representa um enorme progresso europeu.
Se no final continuarem a dizer não, então teremos de aceitar.
Com tristeza.
Mas aceitar.
Somos democratas.
OS FACTOS, ANTES QUE A SÁTIRA OS CONGELE
- No referendo de 29 de Agosto de 2026, 52,8% dos islandeses votaram contra a reabertura das negociações de adesão à União Europeia; 47,2% votaram a favor.
- A participação eleitoral foi de 82,5%, uma taxa elevada que reforça a legitimidade política do resultado.
- A Islândia não é membro da UE, mas participa no Espaço Económico Europeu, em Schengen e na EFTA, estando profundamente integrada no mercado e na cooperação europeus.
- António Costa é presidente do Conselho Europeu, órgão que define orientações e prioridades políticas gerais da UE; não governa Estados-Membros, e muito menos países exteriores à União.
- Por isso, toda a ideia de "recusar ser governado por Costa" é assumidamente uma construção satírica inspirada pelo resultado islandês.
Nota final
Talvez os portugueses estejam realmente surpreendidos com a decisão islandesa.
Mas existe uma possibilidade que ninguém parece considerar.
Talvez os islandeses tenham simplesmente percebido aquilo que os povos pequenos aprendem rapidamente:
é muito fácil entregar poder.
Recuperá-lo é bastante mais complicado.
E talvez, enquanto nós discutimos perplexos como alguém pode recusar o privilégio de ser governado pelas grandes estruturas europeias, os islandeses estejam tranquilamente a beber café em Reykjavik e a pensar:
"Privilégio?"
Depois olham para o Atlântico.
Olham para os vulcões.
Olham para Bruxelas.
E respondem outra vez, com aquela eficiência nórdica irritante:
Sem relatório.
Sem comissão.
Sem António Costa.
Há povos que realmente não sabem aproveitar as oportunidades.
Nota Editorial
Referências credíveis e internacionais
- Reuters — Iceland rejects EU-accession talks in close-fought referendum
- Reuters — Iceland to seek new security partnerships after voters reject EU accession talks
- European Commission — Iceland: enlargement status and background
- EFTA — The European Free Trade Association
- EFTA — EEA Legal Texts
- EFTA — Ministerial Meeting in Reykjavík, 22 June 2026: communiqué
- EFTA — Council meets for third time in 2026
- European Council — António Costa, President of the European Council
- European Council — Biography and role of António Costa
- European Council — Latest news from President António Costa