A Europa dos Inventores Tornou-se a Europa dos Gestores

Um continente que continua a produzir ciência, engenharia e talento, mas que demasiadas vezes administra o futuro enquanto outros o constroem.

Nota de abertura:
Esta não é uma elegia nostálgica a uma Europa perfeita que nunca existiu. É uma crítica a um paradoxo contemporâneo: possuir universidades, capital, indústria, engenheiros e investigação de primeira linha e, ainda assim, depender crescentemente de plataformas e tecnologias estratégicas construídas noutros continentes.

Houve um tempo em que a Europa não precisava de organizar conferências sobre soberania tecnológica.

Tinha-a.

Fabricava computadores.

Construía centrais nucleares.

Desenvolvia telecomunicações.

Produzia electrónica.

Projectava aviões.

Criava sistemas operativos, linguagens, equipamentos científicos, máquinas industriais e componentes que o resto do mundo comprava.

Siemens, Philips, Olivetti, Ericsson, Nokia, Bull, ICL, Alcatel, Thomson, Bosch e tantas outras pertenciam a uma Europa que não perguntava constantemente como recuperar competitividade.

Competia.

Depois aconteceu uma transformação extraordinária.

A Europa dos engenheiros não desapareceu.

Fizemos coisa pior.

Colocámos gestores em cima dela.

Quando construir era uma actividade normal

A Europa industrial dos anos 60, 70 e 80 possuía defeitos suficientes para encher várias bibliotecas.

Mas tinha uma característica hoje quase exótica:

queria construir coisas.

Havia laboratórios associados a fábricas.

Engenheiros próximos da produção.

Empresas capazes de desenvolver tecnologias completas.

Estados com estratégias industriais.

Universidades ligadas à investigação aplicada.

Não precisávamos de utilizar a expressão pomposa ecossistema de inovação para explicar que investigadores, engenheiros, empresas e capital deveriam trabalhar próximos uns dos outros.

Chamava-se:

indústria.

E funcionava razoavelmente bem.

Depois descobrimos a gestão

A partir de determinado momento, o engenheiro começou a receber companhia.

Primeiro apareceu o gestor.

Depois o consultor.

Depois o gestor do consultor.

Depois o especialista em transformação.

Depois o responsável pela governance da transformação.

Depois surgiu uma comissão para assegurar que a transformação estava alinhada com a estratégia.

Finalmente contratámos alguém para produzir indicadores destinados a medir o progresso da comissão.

O produto, entretanto, podia esperar.

Estávamos muito ocupados a geri-lo.

A extraordinária máquina europeia de administrar

A União Europeia construiu uma das maiores realizações políticas do pós-guerra.

Paz.

Mercado comum.

Livre circulação.

Cooperação científica.

Programas de investigação.

Infra-estruturas.

Normas comuns.

Nada disso deve ser diminuído.

Mas a mesma Europa construiu progressivamente uma extraordinária máquina administrativa.

Uma máquina capaz de regular.

Normalizar.

Certificar.

Auditar.

Financiar.

Fiscalizar.

Consultar.

Planear.

Avaliar.

Produzir relatórios.

E voltar a avaliar os relatórios produzidos pela primeira avaliação.

Há apenas uma actividade em que a máquina continua estranhamente menos eficaz:

criar empresas tecnológicas globais.

Inventamos. Outros escalam.

Talvez seja esta a tragédia tecnológica europeia resumida numa frase.

A Europa continua a possuir excelentes universidades, excelentes investigadores, excelentes engenheiros e excelentes startups.

O problema aparece alguns anos depois.

Quando a pequena empresa precisa de se transformar numa grande empresa.

A própria Comissão Europeia reconhece que a UE tinha mais de 20 000 startups digitais avançadas em 2025, mas apenas uma pequena percentagem conseguia transformar-se em grandes scale-ups ou unicórnios.

Temos portanto uma máquina competente para produzir sementes.

E um talento extraordinário para deixar que as árvores cresçam noutro continente.

A fábrica europeia de empresas americanas

Uma empresa europeia começa num laboratório.

Recebe um pequeno investimento.

Desenvolve tecnologia.

Encontra clientes.

Começa a crescer.

Precisa de cinquenta milhões.

Depois cem.

Depois duzentos.

Nesse momento descobre que atravessar o Atlântico pode ser consideravelmente mais simples do que atravessar os mercados de capitais europeus.

A sede muda.

Os investidores mudam.

O crescimento muda.

Mais tarde o jornal europeu publica:

"Startup europeia alcança avaliação de dez mil milhões."

Tecnicamente verdadeiro.

Geograficamente discutível.

Economicamente trágico.

A Europa gosta muito do pequeno

Existe uma estranha obsessão europeia com pequenas e médias empresas.

As PME são essenciais.

Mas nenhuma civilização tecnológica global é construída exclusivamente por empresas médias.

Alguém precisa de crescer.

Muito.

Google não ficou uma PME.

Amazon não ficou uma PME.

Microsoft não ficou uma PME.

NVIDIA não ficou uma PME.

Tencent não ficou uma PME.

Samsung não ficou uma PME.

A Europa parece por vezes olhar para uma empresa que cresce demasiado depressa como uma mãe excessivamente protectora perante um adolescente:

"Tem cuidado. Não faças nada imprudente."

Nos Estados Unidos perguntam:

"Quanto capital precisas?"

Regular os vencedores dos outros

A Europa tornou-se também especialista numa actividade intelectualmente fascinante:

regular tecnologias que não criou.

Motores de pesquisa americanos.

Redes sociais americanas.

Cloud americana.

Sistemas operativos americanos.

Smartphones americanos.

Plataformas de IA americanas.

Semicondutores largamente asiáticos ou americanos.

Naturalmente, regulação é necessária.

Monopólios precisam de limites.

Privacidade importa.

Segurança importa.

Direitos dos consumidores importam.

Mas existe algo profundamente desconfortável numa civilização que se orgulha cada vez mais da qualidade das regras aplicadas aos produtos que compra a outras civilizações.

O regulador tornou-se quase o nosso campeão tecnológico continental.

A inovação sem risco

Inovar possui um inconveniente desagradável.

Pode correr mal.

E aqui começa o conflito cultural.

A Europa administrativa procura previsibilidade.

A inovação procura o contrário.

Experimentação.

Erro.

Fracasso.

Tentativa.

Capital perdido.

Produtos abandonados.

Empresas que desaparecem.

Pessoas que recomeçam.

Não existe inovação radical sem desperdício.

É precisamente esse desperdício que permite encontrar aquilo que funciona.

Mas numa cultura onde fracassar pode significar anos de consequências financeiras, reputacionais e administrativas, o comportamento racional começa a ser:

não arriscar demasiado.

Depois contratamos consultores para estudar por que razão não existe mais empreendedorismo.

O gestor da continuidade

Talvez a personagem central da decadência europeia não seja o burocrata.

É o gestor da continuidade.

Competente.

Educado.

Prudente.

Experiente.

Nunca toma uma decisão verdadeiramente absurda.

Também nunca toma uma decisão verdadeiramente extraordinária.

Reduz custos 3%.

Reorganiza departamentos.

Cria indicadores.

Vende uma divisão.

Compra outra.

Muda o logótipo.

Contrata uma consultora.

Apresenta resultados trimestrais.

Recebe um prémio de liderança.

Cinco anos depois, a empresa continua exactamente no mesmo sector tecnológico.

Enquanto isso, uma startup do outro lado do planeta destruiu o sector inteiro.

A Europa do PowerPoint

O continente que produziu algumas das maiores realizações científicas e industriais da história parece ter adquirido uma paixão patológica pela apresentação.

Há uma estratégia europeia.

Depois um plano.

Depois um roadmap.

Depois uma iniciativa.

Depois uma plataforma.

Depois um fundo.

Depois um observatório.

Depois um grupo de alto nível.

Depois uma consulta pública.

E finalmente surge o documento destinado a explicar por que motivo os resultados continuam aquém das expectativas.

Actualmente chamamos-lhe governança.

Antigamente provavelmente teríamos simplesmente construído a fábrica.

Até Bruxelas já percebeu

O mais extraordinário é que as próprias instituições europeias reconhecem praticamente todo o diagnóstico.

A Comissão admite dificuldades de financiamento, fragmentação do mercado, obstáculos regulamentares, acesso insuficiente a capital de crescimento e dificuldade em transformar startups em empresas globais.

A estratégia europeia para startups e scale-ups criada em 2025 contém 26 medidas precisamente para tentar corrigir estes problemas.

Em Janeiro de 2025, o Competitiveness Compass colocou explicitamente como prioridade fechar o fosso de inovação.

Em Agosto de 2026, a Comissão concluiu mesmo os passos legais para lançar um Scaleup Europe Fund, com uma meta de cinco mil milhões de euros.

Isto é positivo.

Mas contém também uma confissão extraordinária:

chegámos ao ponto de precisar de uma estratégia europeia para recuperar uma capacidade que a Europa já teve naturalmente.

Perdemos escala

Há um número particularmente simbólico.

Segundo dados apresentados pela própria Comissão, as empresas europeias representam actualmente cerca de 12% da capitalização bolsista mundial, quando representavam aproximadamente 25% há duas décadas.

Não significa que a Europa esteja pobre.

Não está.

Não significa que tenha perdido toda a indústria.

Muito longe disso.

Temos Airbus.

ASML.

SAP.

Siemens.

Bosch.

Schneider.

Dassault Systèmes.

Ericsson.

Novo Nordisk.

STMicroelectronics.

ARM nasceu aqui.

Há capacidade extraordinária.

E precisamente por isso o resultado é tão difícil de desculpar.

Não faltou inteligência.

Faltou transformar inteligência em escala.

O caso ASML deveria ensinar-nos alguma coisa

A ASML é talvez a demonstração perfeita de que a Europa ainda consegue fazer aquilo que parece ter esquecido.

Uma empresa europeia tornou-se indispensável à produção dos semicondutores mais avançados do planeta.

Não através de uma aplicação para entregar comida.

Nem através de uma campanha de marketing.

Através de física.

Engenharia.

Óptica.

Materiais.

Software.

Décadas de conhecimento acumulado.

É possível.

A Europa ainda sabe.

O problema é termos poucos casos destes precisamente quando as tecnologias estratégicas se multiplicam.

Ciência sem poder

Há uma crueldade particular nesta história.

A Europa continua a produzir conhecimento fundamental extraordinário.

Mas conhecimento científico não se transforma automaticamente em poder económico.

É preciso capital.

Empresas.

Compradores.

Escala.

Infra-estrutura.

Velocidade.

E tolerância ao risco.

Caso contrário criamos a investigação.

Publicamos o artigo.

Formamos o investigador.

E três anos depois ele está na Califórnia.

O conhecimento europeu tornou-se por vezes uma espécie de matéria-prima exportável.

Formamos gratuitamente uma parte do capital humano utilizado pelos nossos concorrentes.

É uma política industrial curiosa.

Um continente fragmentado que se chama mercado único

Depois existe a nossa obra-prima semântica.

O Mercado Único Europeu.

Que é único.

Excepto quando não é.

Fiscalidade diferente.

Direito societário diferente.

Regras laborais diferentes.

Procurement diferente.

Administrações diferentes.

Reguladores diferentes.

Interpretações diferentes.

Idiomas diferentes.

Mercados de capitais ainda fragmentados.

Criar uma empresa global a partir de Boston oferece acesso imediato a um enorme mercado relativamente homogéneo.

Criá-la na Europa significa descobrir progressivamente que 27 países possuem uma imaginação administrativa admiravelmente diversa.

Não admira que a própria estratégia europeia de startups tenha colocado fragmentação, financiamento e expansão transfronteiriça entre os problemas centrais.

Entretanto apareceu a China

Durante décadas, a Europa podia comparar-se confortavelmente com os Estados Unidos.

Depois apareceu uma terceira realidade.

China.

Primeiro fabricava barato.

Depois fabricava bem.

Depois começou a investigar.

Depois inovou.

Depois criou empresas globais.

Agora compete em veículos eléctricos, baterias, telecomunicações, energia solar, drones, IA, robótica e semicondutores.

Enquanto nós discutíamos se possuíamos uma política industrial, eles construíam uma.

Podemos criticar legitimamente o modelo político chinês.

Devemos.

Mas confundir essa crítica com negação da capacidade industrial chinesa seria uma forma particularmente cara de conforto intelectual.

A Europa moralmente superior

Existe finalmente uma tentação perigosa.

Quando uma civilização começa a perder poder económico, pode refugiar-se na superioridade normativa.

"Nós regulamos melhor."

"Nós protegemos mais."

"Nós temos melhores valores."

Algumas dessas afirmações podem perfeitamente ser verdadeiras.

Mas valores precisam de capacidade material para serem defendidos.

Uma Europa tecnologicamente dependente não será mais soberana por possuir melhores regulamentos.

Será simplesmente:

uma dependência bem regulamentada.

Soberania tecnológica não é uma declaração.

É possuir tecnologia.

O paradoxo final

A Europa é provavelmente um dos melhores lugares do mundo para viver.

Tem democracias consolidadas.

Estados sociais.

Universidades excelentes.

Infra-estruturas.

Investigação.

Cultura.

Direitos.

Conhecimento.

Pessoas altamente qualificadas.

É precisamente isso que torna a situação tão perturbadora.

Não estamos perante um continente incapaz.

Estamos perante um continente subaproveitado.

Possuímos grande parte das peças.

Mas construímos uma estrutura institucional que frequentemente transforma velocidade em procedimento, risco em formulário e ambição em estratégia plurianual.

A Europa não precisa de mais uma estratégia

Talvez seja essa a frase mais herética.

A Europa não precisa principalmente de outro documento a explicar o que deve fazer.

Já sabe.

Precisa de permitir que empresas cresçam.

Precisa de capital europeu disposto a arriscar.

Precisa de procurement que compre tecnologia europeia nova.

Precisa de mercados verdadeiramente integrados.

Precisa de universidades capazes de gerar empresas.

Precisa de premiar engenheiros e fundadores tanto como premia administradores.

Precisa de tolerar fracasso.

Precisa de tomar decisões antes de a tecnologia seguinte aparecer.

E sobretudo precisa de recuperar uma palavra que desapareceu lentamente do vocabulário político europeu:

ambição.

Dos inventores aos administradores

Talvez um historiador do futuro olhe para este período e encontre um paradoxo extraordinário.

Um dos continentes que mais contribuiu para construir a ciência e a tecnologia modernas tornou-se gradualmente dependente de tecnologias criadas noutros lugares.

Não porque tivesse deixado de possuir cientistas.

Nem engenheiros.

Nem capital.

Nem universidades.

Mas porque passou demasiado tempo a gerir cuidadosamente aquilo que possuía e pouco tempo a arriscar aquilo que poderia vir a possuir.

A Europa dos inventores transformou-se lentamente na Europa dos gestores.

E os gestores fizeram aquilo que sabem fazer.

Geriram.

Geriram a indústria.

Geriram a investigação.

Geriram a inovação.

Geriram o declínio relativo.

Criaram indicadores para o medir.

E finalmente criaram estratégias para o inverter.

Ainda podemos inverter essa trajectória.

Mas existe uma condição.

Temos de voltar a construir antes de terminar a próxima reunião sobre a necessidade de construir.

Porque a Europa não perdeu o talento para imaginar o futuro.

Perdeu demasiadas vezes a coragem de o construir.

O QUE OS DADOS MOSTRAM

  • A Comissão Europeia contabilizou mais de 20 000 startups digitais avançadas na UE em 2025, mas reconhece que apenas uma pequena parcela conseguiu transformar-se em grandes scale-ups ou unicórnios.
  • O Banco Europeu de Investimento concluiu que scale-ups da UE levantam, ao fim de dez anos, cerca de 50% menos capital do que pares de São Francisco; o investimento anual de venture capital nos EUA é seis a oito vezes superior ao da UE.
  • Segundo o BEI, mais de quatro em cada cinco operações de scale-up na UE envolvem um investidor líder ou único estrangeiro, evidenciando a dependência de capital externo nas fases de crescimento.
  • A Comissão assinalou que a participação das empresas europeias na capitalização bolsista mundial caiu de cerca de 25% para 12% em duas décadas.
  • A despesa empresarial em I&D na UE ronda 1,3% do PIB, abaixo dos cerca de 2,4% nos Estados Unidos e 1,9% na China, segundo documentação da Comissão.
  • Em 2026, a própria Comissão continuava a reconhecer fragmentação societária: 27 sistemas jurídicos nacionais e mais de 60 formas nacionais de sociedades de responsabilidade limitada.
  • O estudo da OCDE publicado em Agosto de 2026 conclui que as diferenças de escala entre startups inovadoras da UE e dos EUA se relacionam menos com capacidade inventiva do que com comercialização, profundidade do financiamento tardio, capacidades de gestão e aquisições.

Nota Editorial

Esta crónica é deliberadamente dura e utiliza caricatura ao contrapor uma "Europa dos inventores" a uma "Europa dos gestores". Não pretende sugerir que a União Europeia tenha eliminado a capacidade tecnológica do continente nem que a integração europeia seja, por si só, a causa do declínio relativo. A UE criou um mercado comum, programas de investigação, mobilidade científica, normas técnicas e instrumentos de financiamento que também contribuíram para a força económica e tecnológica europeia.

O diagnóstico central é mais específico: a Europa continua a possuir ciência, engenharia, capital humano e empresas industriais de primeira linha, mas tem revelado maior dificuldade do que os Estados Unidos em transformar startups inovadoras em empresas globais de grande escala. O Banco Europeu de Investimento documenta uma diferença especialmente forte no financiamento de crescimento: ao fim de dez anos, scale-ups europeias acumulam aproximadamente metade do capital dos seus pares de São Francisco, enquanto o investimento anual de venture capital nos Estados Unidos é seis a oito vezes superior ao da União Europeia.

A Comissão Europeia reconhece a mesma fragilidade. Um estudo publicado em Junho de 2026 contabilizou mais de 20 000 startups digitais avançadas na UE em 2025, mas concluiu que apenas uma pequena proporção atingiu escala significativa ou estatuto de unicórnio. Outro documento da Comissão aponta para menor investimento privado em investigação e desenvolvimento: a despesa empresarial em I&D representa cerca de 1,3% do PIB europeu, contra aproximadamente 2,4% nos Estados Unidos e 1,9% na China.

A fragmentação continua igualmente longe de ser uma invenção retórica. Na proposta EU Inc., apresentada em Março de 2026, a Comissão reconheceu que empresas e fundadores ainda enfrentam 27 sistemas nacionais de direito societário e mais de 60 formas nacionais de sociedades de responsabilidade limitada. A proposta de um chamado "28.º regime" pretende precisamente criar um conjunto opcional de regras empresariais comuns para facilitar criação, investimento e expansão transfronteiriça.

O problema não se resume a dinheiro. Um estudo da OCDE publicado em Agosto de 2026, comparando startups inovadoras fundadas entre 2000 e 2025 na UE e nos Estados Unidos, conclui que as diferenças de escala estão associadas à capacidade de comercializar inovação, à profundidade do financiamento em fases avançadas, à mobilização de capacidades de gestão e à utilização de aquisições. A conclusão é importante: a Europa não sofre simplesmente de falta de invenção; sofre também na passagem da invenção para a expansão.

As instituições europeias responderam. O relatório Draghi de 2024 colocou produtividade, inovação, energia e dependências estratégicas no centro do debate. O Competitiveness Compass, apresentado em Janeiro de 2025, assumiu como prioridade fechar o fosso de inovação. A Estratégia Europeia para Startups e Scale-ups avançou com 26 acções e, em 4 de Agosto de 2026, a Comissão concluiu os passos legais para o Scaleup Europe Fund, com uma meta de 5 mil milhões de euros.

Essas iniciativas mostram que a Europa não está imóvel e constituem uma objecção legítima ao pessimismo absoluto. Mas também reforçam a tese crítica desta crónica: muitos dos obstáculos hoje objecto de novas estratégias — fragmentação, capital insuficiente, dificuldade de expansão, carga administrativa e atraso na comercialização — são problemas conhecidos há anos. A questão decisiva será menos a qualidade do próximo documento e mais a velocidade e escala da execução.

A Europa não precisa de escolher entre valores, regulação e poder tecnológico. Precisa de provar que consegue ter os três. Direitos, segurança e concorrência justa são activos civilizacionais; tornam-se fragilidades apenas quando são acompanhados por dependência tecnológica persistente. A crítica desta crónica é, em última análise, uma defesa da ambição europeia: um continente com esta história científica, industrial e cultural não deveria conformar-se em administrar o futuro construído por outros.

Referências internacionais

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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