A Escola que passou todos — excepto no exame ao futuro

Portugal melhorou, chegou a aproximar-se dos melhores resultados médios e voltou atrás. O futuro não avalia taxas administrativas de sucesso: avalia aquilo que uma geração realmente consegue ler, compreender, calcular e pensar.

Há países que olham para os resultados educativos e perguntam:

como podemos ensinar melhor?

Portugal parece preferir outra pergunta:

como podemos fazer com que os números pareçam melhores?

É uma diferença subtil.

Mas devastadora.

Durante anos celebrámos taxas de sucesso.

Menos retenções.

Mais alunos a concluir o secundário.

Mais licenciados.

Mais computadores.

Mais plataformas.

Mais projectos.

Mais programas.

Mais reformas.

Mais ministros a anunciar que, desta vez, a escola finalmente entraria no século XXI.

Entretanto, chega o PISA.

E faz uma coisa profundamente inconveniente.

Não pergunta quantos alunos passaram.

Pergunta:

o que sabem realmente fazer?

E aí começa o desconforto.

Portugal voltou a cair.

Matemática.

Leitura.

Ciências.

Não estamos perante um pequeno soluço estatístico.

Estamos perante algo muito mais embaraçoso:

um país que tinha melhorado significativamente e conseguiu perder grande parte dessa melhoria.

É preciso talento político para fazer isto.

O extraordinário sucesso de baixar a fasquia

Durante décadas, o sistema educativo português foi progressivamente transformado num gigantesco exercício de gestão de indicadores.

A retenção é má?

Reduz-se a retenção.

O abandono é elevado?

Cria-se uma estratégia para reduzir o abandono.

As classificações são baixas?

Flexibilizam-se processos.

Os alunos têm dificuldades?

Mudam-se critérios.

O currículo é exigente?

Torna-se flexível.

A avaliação cria pressão?

Reduz-se a pressão.

Os exames incomodam?

Discute-se a utilidade dos exames.

Tudo parece razoável isoladamente.

O problema surge quando juntamos as peças.

Porque existe uma maneira extraordinariamente simples de aumentar o sucesso escolar:

baixar progressivamente aquilo que entendemos por sucesso.

O aluno passa.

A escola melhora a estatística.

O Ministério publica o relatório.

O político anuncia progresso.

E toda a gente fica satisfeita.

Excepto talvez o aluno.

Porque mais tarde alguém lhe pede para interpretar um texto complexo.

Resolver um problema.

Pensar logicamente.

Escrever com clareza.

Distinguir evidência de opinião.

E aí descobre-se que a aprovação administrativa não produz conhecimento por decreto.

A escola tornou-se especialista em não magoar ninguém

Existe hoje uma espécie de pedagogia emocional aplicada à política educativa.

Nada deve ser demasiado difícil.

Nada deve frustrar.

Nada deve excluir.

Nada deve criar desigualdade.

Nada deve produzir ansiedade.

Nada deve reprovar.

A intenção é humanista.

O resultado pode tornar-se profundamente desumano.

Porque a vida adulta não funciona assim.

Uma ponte mal calculada cai.

Um programa mal escrito falha.

Um diagnóstico errado mata.

Uma empresa incompetente fecha.

Um engenheiro não consegue negociar com a gravidade.

Um cirurgião não pode explicar ao coração que estava a desenvolver competências transversais.

Existe conhecimento objectivo.

Existe competência.

Existe erro.

Existe excelência.

E existe incompetência.

Uma escola que não ensina os jovens a enfrentar estas diferenças não os está a proteger.

Está apenas a adiar o confronto.

O país que descobriu as competências e esqueceu o conhecimento

Durante os últimos anos tornou-se elegante falar de:

competências.

Perfil do aluno.

Flexibilidade.

Interdisciplinaridade.

Cidadania.

Aprendizagem autónoma.

Pensamento crítico.

Projectos.

Competências socioemocionais.

Tudo isto pode ser importante.

O problema começa quando alguém sugere que estas coisas podem existir sem uma base sólida de conhecimento.

Não podem.

Não existe pensamento crítico no vazio.

Para pensar criticamente sobre História é necessário conhecer História.

Para interpretar ciência é necessário conhecer ciência.

Para distinguir um argumento económico sério de propaganda é necessário compreender economia.

Para usar Inteligência Artificial de forma competente é necessário possuir conhecimento suficiente para perceber quando a máquina está errada.

O conhecimento não é inimigo do pensamento.

É a matéria-prima do pensamento.

Mas conseguimos criar um discurso educativo onde memorizar passou quase a soar a actividade medieval.

Como se o cérebro fosse apenas uma interface temporária para o Google.

Agora temos IA.

E descobriremos rapidamente a ironia.

Quanto mais inteligência externa possuímos, mais importante se torna a inteligência interna necessária para a avaliar.

O grande milagre burocrático

Portugal também conseguiu transformar a educação numa gigantesca máquina administrativa.

Os professores entram na profissão para ensinar.

Depois descobrem que também são:

administradores.

avaliadores.

preenchedores de grelhas.

produtores de relatórios.

gestores de plataformas.

participantes em reuniões.

membros de equipas.

elaboradores de planos.

registadores de ocorrências.

operadores de sistemas informáticos.

executores de estratégias.

implementadores de projectos.

E, no tempo que sobra,

talvez consigam ensinar alguma coisa.

Criámos uma escola onde um professor pode passar horas a documentar aquilo que fez durante a aula.

Talvez alguém devesse experimentar uma inovação radical:

deixá-lo preparar a aula seguinte.

Faltam professores, mas não faltam estratégias

Este é talvez o símbolo perfeito do sistema.

Portugal tem:

planos.

metas.

programas.

observatórios.

grupos de trabalho.

estratégias nacionais.

estratégias regionais.

estratégias digitais.

estratégias inclusivas.

estratégias de recuperação.

estratégias de promoção do sucesso.

Mas começa a ter falta de uma coisa curiosamente antiquada:

professores.

Os dados PISA 2025 mostram que 44% dos alunos portugueses estavam em escolas onde os directores consideravam que a falta de docentes prejudicava, pelo menos em alguma medida, o ensino; para pessoal auxiliar a proporção atingia 64%.[1]

Há docentes envelhecidos.

Há jovens licenciados que olham para a profissão e concluem racionalmente que conseguem uma vida melhor noutro lugar.

E depois o país surpreende-se.

Durante décadas tratámos professores como custo.

Burocratizámos-lhes a profissão.

Desgastámos a autoridade.

Complicámos carreiras.

Mudámos regras.

Criámos conflitos.

E agora descobrimos que pessoas qualificadas possuem uma característica extremamente inconveniente:

podem escolher não querer fazer aquilo que lhes oferecemos.

A Comissão Europeia também identificava em 2025 escassez crónica de professores qualificados como obstáculo à recuperação da aprendizagem e à equidade no sistema português.[9]

A igualdade tornou-se desculpa para desconfiar da excelência

Existe outro problema mais delicado.

Portugal fala muito de igualdade.

Correctamente.

Uma escola pública deve reduzir o peso da origem social.

Uma criança pobre deve poder chegar tão longe quanto o seu talento e esforço permitirem.

Mas existe uma confusão perigosa entre:

igualdade de oportunidades

e

igualdade de resultados.

A primeira é indispensável.

A segunda pode tornar-se uma guerra contra a excelência.

Se todos têm de chegar aproximadamente ao mesmo sítio, quem avança demasiado depressa começa a tornar-se um problema.

Os melhores alunos deixam de ser uma oportunidade.

Tornam-se uma dificuldade de gestão.

E assim chegamos a um país que produz relativamente poucos alunos de topo em matemática, leitura e ciências.

Em 2025, apenas 6% dos alunos portugueses atingiam os níveis 5 ou 6 em matemática, contra 8% na OCDE; em leitura eram 3%, contra 6%; em ciências, 6%, contra 7%.[1]

É um luxo que Portugal não pode permitir-se.

Uma pequena economia não pode desperdiçar talento.

Precisa de identificá-lo.

Cultivá-lo.

Desafiá-lo.

E permitir que chegue tão longe quanto conseguir.

A escola não deve escolher entre ajudar quem tem dificuldades e estimular quem tem excelência.

Deve fazer as duas coisas.

É para isso que serve uma escola ambiciosa.

PISA 2025 — O QUE OS NÚMEROS DIZEM

  • Portugal obteve 460 pontos em matemática, 462 em leitura e 482 em ciências; os resultados ficaram próximos das médias da OCDE, mas recuaram para níveis próximos de 2006.[2]
  • Em 2015, Portugal tinha alcançado 492 em matemática, 498 em leitura e 501 em ciências.[7][8]
  • Desde 2015, a proporção de alunos abaixo do nível mínimo aumentou 11 pontos percentuais em matemática, 11 em leitura e 7 em ciências.[1]
  • 6% dos alunos portugueses são de topo em matemática; em Singapura são 37%.[1]
  • Os alunos dos 25% socioeconomicamente mais favorecidos superam os 25% mais desfavorecidos em 92 pontos em ciências.[1]
  • 44% dos alunos estão em escolas onde a falta de professores é percepcionada pela direcção como obstáculo ao ensino.[1]
  • 48% dos alunos portugueses dizem usar chatbots de IA para aprender pelo menos uma vez por semana.[1]

O problema não começou ontem

Seria demasiado fácil culpar apenas o Governo actual.

Ou o anterior.

Ou o partido anterior ao anterior.

Os alunos que hoje têm quinze anos atravessaram vários governos, vários ministros, várias reformas e diferentes discursos educativos.

Portanto, a responsabilidade é mais séria.

É sistémica.

Durante décadas, a educação portuguesa tornou-se território de experimentação política permanente.

Cada ministro quer deixar marca.

Cada equipa tem uma nova visão.

Cada ciclo político traz vocabulário novo.

Currículos.

Metas.

Perfil.

Flexibilidade.

Autonomia.

Avaliação.

Digitalização.

Recuperação.

Inclusão.

Tudo muda.

Excepto talvez aquilo que deveria importar mais:

um aluno sair da escola sabendo mais do que sabia quando entrou.

Há reformas que parecem concebidas para demonstrar que o ministro esteve lá.

Seria provavelmente mais útil termos ministros cuja maior contribuição fosse garantir dez anos de estabilidade.

Na educação, ausência de novidade pode ser uma extraordinária inovação.

Portugal aprendeu a melhorar — e depois desaprendeu

Isto é talvez o aspecto mais grave.

Portugal já tinha demonstrado que conseguia melhorar os resultados internacionais.

Durante anos aproximou-se das melhores médias.

Houve professores que elevaram exigência.

Houve escolas que melhoraram.

Houve políticas eficazes.

Houve alunos a aprender mais.

Depois a trajectória inverteu-se.

A própria OCDE resume o percurso de forma brutal: os resultados de 2025 regressaram para perto dos níveis de 2006 nos três domínios, revertendo completamente os ganhos anteriores.[1]

E isto elimina uma desculpa confortável.

Não podemos dizer:

«Somos assim.»

Não.

Já fomos melhores.

Portanto a pergunta passa a ser:

o que fizemos para deixar de o ser?

Essa deveria estar a provocar uma emergência política.

Mas Portugal tem uma habilidade extraordinária para transformar emergências em seminários.

Criaremos provavelmente uma comissão.

Produziremos um relatório.

Haverá uma conferência.

Alguém anunciará um novo plano para 2030.

E em 2031 alguém explicará porque precisamos de outro para 2040.

A mentira estatística do sucesso

Existe uma diferença enorme entre:

sucesso escolar

e

aprendizagem.

Podemos ter 95% de aprovações.

Isso não significa que 95% aprenderam aquilo que deveriam.

Podemos ter mais licenciados.

Isso não significa que tenhamos mais conhecimento.

Podemos reduzir retenções.

Isso não significa que eliminámos as dificuldades que provocavam a retenção.

Podemos abolir o termómetro.

A febre continua lá.

O PISA incomoda porque mede, com todas as limitações que também possui, algo relativamente simples:

consegue o jovem utilizar conhecimentos para resolver problemas que não aparecem exactamente como no manual?

É por isso que incomoda sistemas educativos demasiado habituados a avaliar o próprio sucesso através dos seus próprios indicadores.

É um exame externo à narrativa.

A escola da aprovação encontrou a IA

E agora chega a Inteligência Artificial.

Talvez no pior momento possível.

Porque estamos a colocar ferramentas cognitivas extraordinariamente poderosas nas mãos de jovens cuja capacidade de leitura profunda e raciocínio parece estar a deteriorar-se.

Um aluno pode agora pedir:

«Resume este livro.»

«Escreve este trabalho.»

«Resolve este exercício.»

«Explica esta matéria.»

«Faz esta apresentação.»

Tudo em segundos.

A escola tem duas opções.

Pode tentar proibir.

Perderá.

Ou pode ensinar os alunos a utilizar estas ferramentas num nível intelectualmente superior.

Para isso, contudo, é necessário que o aluno saiba alguma coisa.

Se não possuir conhecimento, a IA transforma-se numa máquina de terceirização do pensamento.

O aluno pergunta.

A máquina responde.

O aluno copia.

O professor avalia.

O sistema certifica.

E podemos produzir a primeira geração da História com acesso praticamente ilimitado ao conhecimento e uma capacidade progressivamente menor para distinguir conhecimento de absurdo.

Seria uma realização extraordinária.

No PISA 2025, 48% dos alunos portugueses disseram usar chatbots de IA para aprender pelo menos semanalmente; 35% para investigação preliminar, 32% para resumir textos e 34% para redigir trabalhos.[1]

Um país incapaz de ler será um país governado por quem escreve melhor propaganda

Há outra dimensão que raramente aparece na discussão.

Educação não serve apenas para produzir trabalhadores.

Serve para produzir cidadãos.

Uma pessoa incapaz de interpretar textos complexos é mais vulnerável à manipulação.

Uma pessoa que não compreende estatística é mais vulnerável a números escolhidos politicamente.

Uma pessoa sem conhecimentos científicos distingue pior evidência de charlatanismo.

Uma pessoa que não conhece História aceita mais facilmente que alguém a reescreva.

Uma pessoa incapaz de argumentar racionalmente substitui argumentos por tribalismo.

E depois surpreendemo-nos com:

polarização.

Populismo.

Teorias da conspiração.

Desinformação.

Discussões políticas transformadas em claques de futebol.

Talvez não sejam fenómenos independentes.

Uma democracia sofisticada exige cidadãos intelectualmente equipados para desconfiar dela.

E também para desconfiar de quem a quer destruir.

Não é falta de computadores

Durante anos ouvimos que a escola precisava de modernização tecnológica.

Vieram computadores.

Quadros interactivos.

Internet.

Tablets.

Plataformas.

Manuais digitais.

Cloud.

Agora vem IA.

Excelente.

Mas há uma coisa que nenhuma destas tecnologias substitui:

um bom professor diante de um aluno intelectualmente desafiado.

Uma criança aprende porque alguém exige.

Corrige.

Explica.

Repete.

Estimula.

Mostra.

Questiona.

E acredita que ela consegue fazer melhor.

Tecnologia pode ampliar um excelente sistema educativo.

Também pode digitalizar um mau sistema.

Portugal tem alguma experiência em confundir estas duas coisas.

Os dados de 2025 mostram que 31% dos alunos portugueses referem colegas frequentemente distraídos por dispositivos digitais nas aulas de ciências; esses alunos apresentam, em média, resultados inferiores.[1]

O professor deixou de poder dizer não

Há ainda um problema cultural.

Durante anos enfraqueceu-se progressivamente a autoridade pedagógica.

O professor corrige?

É demasiado rígido.

Exige?

Está a criar pressão.

Reprova?

A escola não foi inclusiva.

Manda trabalhar?

Talvez falte motivação.

O aluno perturba?

É preciso compreender o contexto.

Naturalmente, o contexto importa.

Há crianças com vidas difíceis.

Famílias problemáticas.

Dificuldades cognitivas.

Problemas emocionais.

Tudo deve ser compreendido.

Mas compreender não significa abolir consequências.

Uma escola onde um adulto não consegue estabelecer limites transforma-se rapidamente num laboratório onde adolescentes descobrem precisamente até onde esses limites não existem.

E depois perguntamos aos professores porque estão exaustos.

Não precisamos de outra revolução educativa

Talvez esta seja a parte mais contra-intuitiva.

Portugal não precisa de mais uma revolução.

Precisa talvez de algumas coisas extraordinariamente aborrecidas.

Professores bem pagos.

Carreiras previsíveis.

Currículos claros.

Matemática.

Ciências.

Leitura.

Escrita.

História.

Filosofia.

Línguas.

Exigência.

Disciplina.

Avaliação séria.

Apoio individual a quem precisa.

Estímulo adicional a quem pode avançar.

Autonomia real para escolas competentes.

Avaliação externa.

Estabilidade durante uma década.

Nada disto caberia particularmente bem numa apresentação chamada:

Educação 5.0 — Ecossistema Transformacional de Competências Holísticas para o Futuro.

Talvez seja por isso que tenha pouca hipótese.

Uma escola não é uma instituição de felicidade permanente

A escola deve ser um lugar humano.

Seguro.

Curioso.

Estimulante.

Mas também deve ser exigente.

Aprender é muitas vezes difícil.

Matemática pode ser frustrante.

Ler um livro complexo exige esforço.

Escrever bem exige reescrever.

Aprender outra língua exige errar.

Resolver problemas exige falhar.

A civilização foi construída por pessoas que aceitaram durante algum tempo não saber fazer aquilo que estavam a tentar aprender.

Eliminar a frustração da aprendizagem é eliminar parte da aprendizagem.

O cérebro também precisa de resistência.

Tal como o músculo.

Singapura não deve ser desculpada por ser Singapura

Sempre que aparecem comparações internacionais surge rapidamente a defesa:

«Não podemos comparar Portugal com Singapura.»

Correcto.

Portugal não é Singapura.

Então comparemos os princípios.

O que acontece quando uma sociedade:

valoriza professores?

valoriza conhecimento?

exige desempenho?

identifica talento?

mantém currículos coerentes?

considera educação uma questão estratégica nacional?

Os resultados tendem a aparecer.

Podemos discutir modelos culturais.

Podemos rejeitar excessos.

Podemos escolher outra filosofia pedagógica.

Mas existe uma realidade desagradável:

quando uns países produzem enormes percentagens de alunos de elevada proficiência e nós produzimos poucos, não basta declarar que o nosso modelo é mais humanista.

É necessário demonstrar que funciona.

No PISA 2025, 37% dos alunos de Singapura atingiram níveis de topo em matemática; em Portugal foram 6%.[1]

A verdadeira inclusão é ensinar

Talvez tenhamos complicado uma ideia muito simples.

Incluir uma criança pobre não é apenas garantir que permanece na escola.

É garantir que aprende.

Incluir uma criança com dificuldades não é apenas fazê-la transitar.

É ajudá-la a superar aquilo que conseguir superar.

Incluir um aluno talentoso não é obrigá-lo a esperar permanentemente pelos restantes.

É permitir-lhe avançar.

Uma escola verdadeiramente inclusiva não distribui diplomas semelhantes.

Distribui oportunidades reais através do conhecimento.

Sem isso, a origem social regressa pela porta de trás.

Porque as famílias ricas compram aquilo que a escola pública deixou de fornecer.

Explicações.

Livros.

Actividades.

Línguas.

Tutoria.

Viagens.

Ambientes intelectualmente estimulantes.

E assim uma política criada em nome da igualdade pode acabar por aumentar desigualdade.

Em Portugal, os alunos dos 25% mais favorecidos socioeconomicamente superaram os 25% mais desfavorecidos por 92 pontos em ciências; apenas 11% dos alunos desfavorecidos conseguiram chegar ao quartil superior do desempenho científico.[1]

O exame ao futuro

Portugal quer salários altos.

Quer produtividade.

Quer inovação.

Quer empresas tecnológicas.

Quer investigadores.

Quer Inteligência Artificial.

Quer indústria avançada.

Quer competir internacionalmente.

Quer deixar de depender de actividades de baixo valor acrescentado.

Excelente.

Então existe uma pequena condição.

Precisamos de pessoas capazes de fazer essas coisas.

Não aparecem aos 25 anos por geração espontânea.

Começam aos seis.

Aprendem a ler.

Aprendem matemática.

Aprendem a concentrar-se.

Aprendem que errar faz parte.

Aprendem que esforço conta.

Aprendem que há coisas difíceis.

Aprendem que nem todas as respostas são igualmente boas.

Aprendem a pensar.

Quando esse processo falha, vinte anos depois aparece um economista a perguntar:

porque temos baixa produtividade?

Talvez devêssemos apresentar-lhe os resultados do quarto ano.

A OCDE, no seu relatório económico de 2026, liga explicitamente produtividade, qualidade da educação e formação e capacidade de responder às necessidades de competências da economia portuguesa.[11]

Passámos quase todos

E chegamos então à ironia final.

Durante décadas aperfeiçoámos uma escola preocupada com:

retenção.

abandono.

taxas de conclusão.

estatísticas de sucesso.

aprovações.

diplomas.

É possível que tenhamos conseguido fazer passar quase toda a gente.

Só existe um problema.

Chegou o futuro.

E decidiu fazer exame.

Matemática.

Leitura.

Ciências.

Pensamento crítico.

Tecnologia.

Inteligência Artificial.

Capacidade de adaptação.

Produtividade.

Competência.

E o futuro possui uma característica particularmente desagradável:

não aceita recurso administrativo da nota.

Não podemos flexibilizar a China.

Não podemos reduzir a exigência da Inteligência Artificial.

Não podemos pedir aos melhores sistemas educativos que esperem por nós.

Não podemos aprovar uma economia por despacho.

Podemos apenas preparar pessoas capazes de competir.

E talvez seja por isso que os resultados do PISA deveriam provocar muito mais do que uma discussão de alguns dias.

Deveriam provocar vergonha política.

Não porque Portugal seja o pior.

Mas porque já demonstrámos que conseguíamos melhorar e permitimos que a escola voltasse atrás.

Décadas de ministros.

Reformas.

Secretários de Estado.

Especialistas.

Programas.

Planos.

Milhões.

Computadores.

Plataformas.

Estratégias.

E chegamos a 2026 a perguntar novamente porque os alunos lêem pior e raciocinam pior.

Talvez seja altura de fazer algo revolucionário.

Parar de reformar a escola.

E começar a exigir que ensine.

Porque um país pode sobreviver algum tempo com maus governos.

Pode sobreviver com maus investimentos.

Pode até sobreviver com uma economia medíocre.

Mas existe uma coisa que nenhum país consegue fazer indefinidamente:

construir o futuro com gerações às quais não ensinou suficientemente bem a pensar.

Nota Editorial

Referências credíveis

  1. OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Portugal — Country Note
  2. OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students
  3. OCDE — PISA 2025: Students' reading and mathematics performance declined sharply across the OECD
  4. OCDE — International launch of PISA 2025: remarks by the Secretary-General
  5. OCDE — PISA 2025 Student Scores dashboard
  6. OCDE — Education GPS: Portugal — Student performance (PISA 2025)
  7. OCDE — PISA 2022 Results: Overview of performance trends in Portugal
  8. OCDE — PISA 2015 Results in Focus
  9. Comissão Europeia — Education and Training Monitor 2025: Portugal
  10. Comissão Europeia — Monitor da Educação e da Formação 2025: Portugal
  11. OCDE — OECD Economic Surveys: Portugal 2026
  12. UNESCO — Global Education Monitoring Report 2024: Monitoring SDG 4

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News

Publicado em 8 de Setembro de 2026 · Educação / Portugal / PISA / Política educativa / Inteligência Artificial

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