Crónica · Cidadania e Civilização

Quando os Ídolos Substituem os Heróis

A civilização que confunde fama com grandeza acaba por ensinar aos jovens que ser visto é mais importante do que servir.

Por Francisco Gonçalves Fragmentos do Caos 17 de Julho de 2026

Uma sociedade também educa através das pessoas que transforma em estátuas, aeroportos, monumentos e memória oficial. Cada homenagem pública é uma lição silenciosa sobre aquilo que a comunidade considera digno de imitação.

Não está em causa negar o talento de um futebolista, a voz de uma cantora ou a emoção produzida por um espectáculo. O talento merece reconhecimento; a arte pode elevar a sensibilidade; o desporto pode criar alegria, disciplina e identidade colectiva. O problema começa quando a admiração popular é convertida, quase automaticamente, em consagração cívica e histórica.

Uma coisa é a multidão aplaudir. Outra é o Estado declarar que determinada vida representa um dos pontos mais altos da comunidade nacional. Entre ambas deveria existir uma distância crítica, moral e histórica. Mas essa distância foi sendo apagada pela cultura da celebridade, pelo mercado da atenção e pela cobardia política de quem prefere homenagear o consenso fácil a defender critérios exigentes.

O Panteão não é um salão da fama

A lei portuguesa determina que as honras do Panteão Nacional se destinam a perpetuar a memória de cidadãos que se distinguiram pelos serviços prestados ao País, pela criação literária, científica e artística, pela defesa dos valores da civilização, da dignidade humana e da liberdade.[1] A formulação é elevada. A prática, porém, revela aquilo que Portugal escolhe tornar visível.

O Panteão acolhe escritores, antigos Presidentes da República, um militar, uma cantora e um futebolista. Amália Rodrigues foi trasladada em 2001 e Eusébio da Silva Ferreira em 2015.[2] Não se trata de diminuir o lugar de ambos na cultura popular portuguesa. Trata-se de perguntar por que razão a República demonstra tamanha facilidade em eternizar quem emocionou multidões e tanta dificuldade em consagrar cientistas, médicos, investigadores, pedagogos, engenheiros ou construtores de instituições.

O símbolo não é neutro. Quando um futebolista entra no Panteão e quase nenhum cientista ocupa as suas salas tumulares, a mensagem não é apenas sobre o passado. É uma instrução para o futuro: a notoriedade pesa mais do que o conhecimento; a emoção colectiva vale mais do que a contribuição silenciosa; o aplauso é uma forma superior de prova.

O Panteão deveria guardar a memória civilizacional de um povo, não reproduzir em pedra a tabela de audiências da televisão.

Dinheiro não é uma unidade moral

O argumento económico surge sempre com a pontualidade de um cobrador: o futebol movimenta milhões, cria empregos, vende direitos televisivos, atrai turismo e projecta o nome do País. Tudo isso pode ser verdadeiro e continuar a ser moralmente insuficiente.

O dinheiro é uma convenção de troca. Mede procura, escassez, poder negocial e capacidade de monetização. Não mede sabedoria, coragem, responsabilidade, serviço público ou grandeza humana. Uma mercadoria inútil pode atingir um preço colossal; uma descoberta que salva vidas pode nascer num laboratório precário e produzir benefícios que nenhum balanço empresarial consegue apropriar integralmente.

A OCDE reconhece que a investigação pública é essencial para produzir conhecimento, sustentar decisões baseadas em evidência e permitir o desenvolvimento tecnológico.[3] A mesma organização descreve as carreiras científicas como hipercompetitivas, frequentemente precárias e mal recompensadas, sobretudo entre investigadores em início de carreira.[4]

Eis a moral económica da época: exige-se ao investigador que passe décadas a estudar, publique, concorra, emigre e sobreviva entre contratos; ao ídolo mediático basta preservar a atenção. Um procura compreender a realidade. O outro ocupa o ecrã. O segundo é incomparavelmente mais fácil de facturar.

Preço não é valor O mercado recompensa aquilo que consegue vender, não necessariamente aquilo que mais beneficia a humanidade.
Fama não é mérito A visibilidade pode resultar de talento, acaso, aparência, promoção ou repetição mediática.
Aplauso não é cidadania Ser admirado por milhões não substitui o dever, a responsabilidade nem o serviço prestado à comunidade.

A infância educada para a fama

O problema não fica confinado às estátuas ou aos túmulos de Estado. A cultura pública forma desejos. Um estudo de psicólogos da Universidade da Califórnia em Los Angeles verificou que, entre os valores dominantes dos programas televisivos populares junto dos mais jovens em 2007, a fama surgia no primeiro lugar, seguida pelo sucesso, popularidade, imagem e êxito financeiro.[5]

Esta inversão é civilizacional. Em vez de perguntar às crianças o que desejam aprender, criar, compreender ou oferecer à comunidade, ensina-se-lhes a desejar visibilidade. A vida deixa de ser uma obra e transforma-se numa montra. A identidade passa a depender da audiência. A virtude, que exige silêncio, persistência e sacrifício, perde a competição para a imagem cuidadosamente iluminada.

A filosofia contemporânea da celebridade tem vindo a estudar precisamente esta separação entre fama, talento, mérito e responsabilidade. Investigadores da Universidade de Tilburg observam que a celebridade pode sustentar notoriedade sem ligação necessária a realizações relevantes, tornando a fama um fenómeno moral e não apenas mediático.[6]

É por isso que ser conhecido por milhões não pode constituir um passe de irresponsabilidade. Pelo contrário, a influência deveria aumentar a exigência. Quem molda comportamentos, vende estilos de vida e se torna modelo para jovens não é apenas um agente privado a explorar a própria imagem. É um actor cultural com efeitos públicos.

Heróis populares e heróis civilizacionais

Uma comunidade madura saberia distinguir sem desprezar. Poderia celebrar o atleta pelo desempenho, o artista pela obra e o cientista pela descoberta. Mas reservaria as honras supremas para vidas cuja contribuição ultrapassasse a fama e tivesse elevado a liberdade, o conhecimento, a justiça ou a dignidade humana.

O herói popular oferece emoção. O herói civilizacional deixa instrumentos para que os outros vivam melhor. Um marca o instante; o outro altera a direcção do tempo.

Há médicos que salvaram milhares de pessoas sem que o País conheça os seus nomes. Há investigadores que construíram áreas inteiras do conhecimento e passaram a carreira a pedir financiamento. Há professores que despertaram gerações e morreram praticamente anónimos. Há engenheiros, diplomatas, resistentes, juristas e servidores públicos cuja obra continua a sustentar a sociedade enquanto as suas biografias acumulam pó.

A UNESCO, ao propor um novo contrato social para a educação, defende que o conhecimento e a aprendizagem devem renovar as relações entre as pessoas, o planeta e a tecnologia.[7] Esse contrato torna-se impossível quando a pedagogia pública ensina exactamente o contrário: não importa compreender o mundo, basta conquistar a atenção dele.

A decadência começa por dentro

As grandes civilizações raramente desabam apenas porque chegaram inimigos às fronteiras. Antes disso, enfraquecem internamente. Perdem critérios, confundem luxo com progresso, espectáculo com cultura, riqueza com virtude e popularidade com autoridade. Quando os chamados bárbaros aparecem, encontram muitas vezes uma sociedade que já deixou de acreditar nos valores que dizia defender.

A velha expressão romana pão e circo não deve ser usada como explicação simplista da queda de Roma. Serve, contudo, como imagem de uma comunidade que troca participação cívica por distracção e responsabilidade por espectáculo. O bárbaro contemporâneo não precisa de atravessar muralhas. Pode entrar diariamente pelo ecrã, patrocinado por uma marca e acompanhado por milhões de seguidores.

Uma civilização não se torna superior por produzir ídolos mais caros. Torna-se superior quando reconhece a diferença entre êxito e grandeza. A grandeza exige que o talento seja acompanhado por carácter, que a influência seja acompanhada por responsabilidade e que a memória pública seja orientada por critérios mais altos do que a popularidade.

Não é necessário destruir estátuas nem expulsar artistas ou atletas da memória colectiva. É necessário retirar à fama o privilégio de se apresentar como virtude e devolver à cidadania o seu significado.

Uma nação pode aplaudir quem marca golos. Mas as suas honras mais altas deveriam pertencer, antes de tudo, a quem alargou o conhecimento, protegeu a liberdade, salvou vidas, defendeu os frágeis ou deixou a comunidade mais justa e mais consciente.

Quando os ídolos substituem os heróis, a sociedade não fica apenas mais superficial. Fica sem bússola. E uma civilização sem bússola pode continuar durante algum tempo a construir estádios, vender camisolas e organizar cerimónias. Só já não sabe para onde caminha.

Fontes e leituras

  1. Diário da República — Lei n.º 28/2000, de 29 de Novembro: honras do Panteão Nacional.
  2. Panteão Nacional — Homenageados e história das trasladações.
  3. OECD — Science, technology and innovation.
  4. OECD — Research careers and mobility; e The state of academic careers in OECD countries.
  5. UCLA — Popular TV shows teach children fame is the most important value.
  6. Tilburg University — The Morality of Fame; e Talent, Skill, and Celebrity, publicados em Ethical Perspectives.
  7. UNESCO — Futures of Education; relatório Reimagining our futures together: a new social contract for education.

Francisco Gonçalves · Fragmentos do Caos · 2026

Ler o livro : A Essência da Humanidade 🧭 Excerto "A humanidade inventou máquinas do futuro, mas continua demasiadas vezes a pensar com reflexos da caverna."
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