Portugal, a Novela Mexicana de Muito Mau Gosto

Portugal, a Novela Mexicana de Muito Mau Gosto
O Governo representa, as instituições fazem figuração e o povo assiste, como se o bilhete não fosse pago com a própria vida.
Nota de abertura:
Portugal deixou de parecer um país governado e passou a comportar-se como uma novela
transmitida em directo. Todos os dias há uma nova personagem, uma revelação inesperada,
uma responsabilidade órfã e um público que conhece o enredo, mas continua sentado.
Portugal deixou de ser propriamente um país.
É agora uma novela mexicana transmitida em directo, vinte e quatro horas por dia, com sucessivos episódios de escândalo, lágrimas institucionais, traições políticas, amnésias selectivas e personagens que juram inocência com a mão pousada sobre um relatório que garantem nunca ter lido.
A diferença é que as novelas mexicanas possuem argumento.
Em Portugal, o guião parece ser escrito todas as manhãs por uma comissão interministerial constituída por pessoas que não se conhecem, não comunicam entre si e só descobrem o episódio do dia quando o vêem no telejornal.
O título da produção poderia ser:
"Paixões, Poder e Procedimentos Administrativos".
No papel principal surge o governante da semana.
Entra em cena com ar grave, fato escuro e uma extraordinária capacidade para pronunciar frases longas sem transmitir qualquer informação. Garante que está tudo esclarecido, embora nada tenha sido explicado. Afirma que desconhecia os factos, mas acrescenta que sempre acompanhou o processo. Manifesta confiança absoluta num secretário de Estado que será afastado dois dias depois por razões que nada têm a ver com o caso.
Na política portuguesa, a confiança absoluta é normalmente a última homenagem prestada antes da demissão.
O episódio começa sempre da mesma maneira
Primeiro surge uma notícia.
Um contrato estranho, uma nomeação improvável, uma incompatibilidade esquecida, uma indemnização criativa, um negócio familiar, um automóvel, uma casa, uma empresa ou uma decisão administrativa que, por extraordinária coincidência, beneficiou alguém próximo do poder.
O Governo reage com indignação.
Não contra os factos, evidentemente, mas contra a existência da notícia.
O ministro considera as suspeitas ofensivas. O partido acusa a oposição de exploração política. O primeiro-ministro garante que não alimentará casos artificiais. Os comentadores explicam que tudo isto prejudica a imagem das instituições, como se o problema não fosse aquilo que aconteceu, mas o incómodo hábito de alguém o ter descoberto.
No segundo episódio, aparece um documento.
O documento contradiz a primeira versão.
O ministro explica então que as suas declarações anteriores devem ser entendidas no respectivo contexto. O contexto, em Portugal, é uma substância elástica que permite transformar uma falsidade numa imprecisão, uma contradição num esclarecimento e um embaraço numa cabala.
No terceiro episódio surge uma testemunha, um correio electrónico ou uma gravação.
A personagem principal deixa de responder.
É nessa altura que entra em cena o advogado, figura indispensável da dramaturgia nacional, para anunciar que o seu cliente está profundamente tranquilo, embora pareça estar a caminho do aeroporto com três malas e um silêncio jurídico cuidadosamente aconselhado.
A grande família institucional
Como em qualquer novela mexicana respeitável, Portugal tem várias famílias poderosas.
Há a família do Governo, a família da oposição, a família das empresas públicas, a família das autarquias, a família dos reguladores e a extensa família dos administradores que conseguem aparecer em todos os sectores sem que alguém saiba exactamente qual é a sua especialidade.
Estas famílias discutem em público, mas encontram-se frequentemente em conselhos de administração, sociedades de advogados, fundações, consultoras e eventos onde se debate o futuro do país durante almoços cujo preço corresponde ao rendimento mensal de muitos portugueses.
Nas novelas tradicionais, as famílias rivais lutam por terras, heranças e amores proibidos.
Na novela portuguesa, lutam por nomeações, concessões, lugares em empresas públicas e contratos de consultoria.
O amor proibido foi substituído pelo conflito de interesses.
É menos romântico, mas factura melhor.
Há ministros que foram consultores de empresas que depois regulam. Há administradores que passam do Estado para empresas privadas que antes contrataram. Há políticos que regressam à política depois de trabalhar em sectores afectados pelas decisões que tomarão.
Nada disto parece causar particular estranheza.
Chama-se experiência.
Quando um cidadão comum faz algo semelhante, chama-se problema.
A personagem misteriosa: ninguém
A personagem central da novela portuguesa é, contudo, invisível.
Chama-se Ninguém.
Ninguém autorizou.
Ninguém sabia.
Ninguém leu.
Ninguém avisou.
Ninguém percebeu.
Ninguém é responsável.
Ninguém está disponível para comentar.
É uma personagem extraordinariamente activa para alguém que nunca aparece.
Ninguém assina documentos, aprova despesas, nomeia dirigentes, contrata consultores e toma decisões que afectam milhares de pessoas. Quando chega o momento de prestar contas, desaparece num corredor administrativo e deixa em seu lugar um procedimento interno.
O procedimento é o mordomo desta novela.
Está sempre presente e, no final, é sempre o culpado.
Se um serviço falha, foi o procedimento.
Se um concurso é suspeito, o procedimento foi cumprido.
Se alguém recebeu uma vantagem, o procedimento permitia.
Se o resultado é absurdo, será necessário rever o procedimento.
O país não é governado por pessoas. É governado por procedimentos que, curiosamente, nunca beneficiam pessoas desconhecidas.
O povo no sofá
E o povo?
O povo assiste.
Assiste ao escândalo de segunda-feira, à indignação de terça-feira, ao desmentido de quarta-feira, à demissão de quinta-feira e à sondagem de sexta-feira.
No sábado discute futebol.
No domingo vota, se não estiver a chover.
O cidadão português transformou-se no espectador perfeito. Conhece o enredo, reconhece as personagens e antecipa os diálogos. Sabe que o inquérito não chegará a conclusão alguma, que a comissão produzirá centenas de páginas, que a justiça demorará anos e que, quando houver decisão, metade dos envolvidos já estará reformada, promovida ou a comentar o caso na televisão.
Ainda assim, continua a assistir.
Indigna-se, mas não participa.
Critica, mas não exige.
Protesta nas redes sociais, onde escreve palavras ferozes entre uma receita de bacalhau e uma fotografia do pôr-do-sol.
A revolta portuguesa tem excelente cobertura de rede e reduzido impacto institucional.
O povo queixa-se de que todos são iguais, mas recompensa frequentemente os mesmos.
Condena o compadrio, mas procura uma cunha.
Despreza os favores, excepto quando o favor lhe resolve um problema.
Exige transparência aos políticos, mas considera esperto quem foge aos impostos.
A novela não é apenas produzida pelo poder.
É também renovada pela audiência.
A democracia não se esgota em assistir ao poder. Precisa de cidadãos que sintam possuir voz e capacidade para influenciar as decisões colectivas. [2]
Os comentadores: o coro grego com gravata
Nenhuma produção estaria completa sem comentadores.
Portugal possui comentadores para tudo.
Há comentadores políticos, judiciais, económicos, militares, diplomáticos e alguns capazes de comentar simultaneamente política internacional, futebol, incêndios e direito constitucional sem demonstrar qualquer hesitação que possa ser confundida com conhecimento.
Sentam-se em estúdios luminosos para explicar o episódio que acabou de acontecer.
Um diz que o caso é gravíssimo.
Outro afirma que não existe caso.
Um terceiro considera que talvez exista um caso, mas não aquele caso.
O quarto lembra que outros partidos também fizeram coisas semelhantes, argumento que em Portugal não inocenta ninguém, mas serve para distribuir democraticamente a vergonha.
No final, o moderador agradece a análise e anuncia publicidade.
O público fica tão esclarecido como antes, mas com maior consciência de que todas as versões são possíveis e nenhuma responsabilidade é inevitável.
O Digital News Report 2026 regista que sete em cada dez pessoas em Portugal acederam a notícias pela televisão na semana anterior, a proporção mais elevada entre os 48 mercados estudados. A novela nacional dispõe, portanto, de uma audiência tecnicamente exemplar. [6]
A justiça entra em cena no episódio 847
A justiça portuguesa é uma personagem lenta, solene e frequentemente atrasada.
Quando entra em cena, o público já esqueceu o início da história.
Os processos começam com buscas espectaculares, câmaras à porta, carros policiais e títulos dramáticos. Depois seguem-se anos de silêncio, recursos, nulidades, prescrições e discussões processuais.
A justiça portuguesa não anda devagar.
Move-se num plano temporal próprio.
Quando finalmente chega uma decisão, o país já mudou de Governo, de procurador, de comentadores e talvez de moeda.
Há arguidos que envelhecem dentro dos processos.
Há testemunhas que esquecem.
Há provas que deixam de ser válidas.
Há factos que prescrevem.
O único elemento que parece nunca prescrever é a desconfiança dos cidadãos.
A Comissão Europeia publicou em 17 de Julho de 2026 o seu relatório anual sobre o Estado de Direito, incluindo um capítulo específico dedicado a Portugal e recomendações sobre justiça, corrupção, pluralismo dos meios de comunicação e equilíbrio institucional. [3]
Cada episódio termina com uma reforma
Quando o escândalo se torna insustentável, anuncia-se uma reforma.
Será criada uma nova entidade.
Será aprovado um novo código.
Será reforçada a fiscalização.
Será nomeado um coordenador.
Será lançado um portal.
Será desenvolvido um plano estratégico com vários eixos, metas e indicadores.
O problema original desaparece sob uma montanha de palavras.
Portugal não resolve crises.
Produz documentos sobre elas.
Cada reforma é apresentada como histórica. Passados alguns anos, outra reforma histórica será necessária para corrigir os efeitos da anterior.
É um país em permanente transformação que consegue, com notável talento, permanecer exactamente no mesmo lugar.
Um país à espera do último episódio
A tragédia desta novela não está apenas na mediocridade do argumento.
Está no facto de não ser ficção.
Os hospitais não são cenários.
As escolas não são adereços.
Os impostos não são dinheiro cenográfico.
Os jovens que emigram não regressam no episódio seguinte.
As famílias que não conseguem habitação não vivem numa pausa dramática.
Os cidadãos que esperam por justiça, tratamento médico ou resposta administrativa não são figurantes. São pessoas reais, com vidas reais, esmagadas por uma produção política que transformou a governação num espectáculo contínuo.
Portugal habituou-se a assistir à própria decadência como quem acompanha uma série longa.
Há sempre um episódio seguinte.
Há sempre um novo caso.
Há sempre uma nova promessa.
E há sempre alguém a garantir que agora será diferente.
Mas nada será diferente enquanto o povo continuar sentado no sofá, a comentar o enredo e a esperar que as personagens resolvam voluntariamente um sistema do qual vivem.
As novelas mexicanas terminam quando o segredo é revelado, o vilão é punido e os protagonistas finalmente encontram a felicidade.
A novela portuguesa não termina porque o público continua a renovar a temporada.
Talvez o país só volte a ser país quando os cidadãos deixarem de ser espectadores.
Quando desligarem a televisão, se levantarem do sofá e perceberem que democracia não é assistir ao poder.
É vigiá-lo.
É interrogá-lo.
É contrariá-lo.
E, quando necessário, mudar o elenco inteiro.
INDICADORES QUE ATRAVESSAM A NOVELA
- Em 2025, 40% dos inquiridos em Portugal manifestavam confiança elevada ou moderadamente elevada no Governo nacional; a confiança nos partidos políticos era de 26%. [1]
- A satisfação com os serviços administrativos aumentou de 43% em 2023 para 52% em 2025, permanecendo as interacções quotidianas com as instituições menos positivas do que a média da OCDE em vários indicadores. [1]
- O Índice de Percepção da Corrupção de 2025 compara 182 países e territórios numa escala de 0, percepção de forte corrupção, a 100, percepção de sector público muito limpo. [4]
- O World Justice Project acompanha Portugal em factores como limites ao poder, ausência de corrupção, transparência governativa, direitos fundamentais e justiça. [5]
- Em Portugal, sete em cada dez pessoas acederam a notícias pela televisão na semana anterior, a taxa mais elevada dos 48 mercados analisados pelo Digital News Report 2026. [6]
Nota Editorial
Esta é uma crónica satírica. As imagens de novela, actores, famílias e espectadores são recursos literários destinados a criticar padrões de governação, comunicação política, irresponsabilidade institucional e passividade cívica. Não constituem imputações criminais contra pessoas concretas.
A sátira exagera para tornar visível aquilo que a linguagem burocrática procura diluir. Contudo, o seu objecto é sério: uma democracia não se sustenta apenas com eleições, instituições formais e transmissões televisivas. Precisa de responsabilidade pública, justiça eficaz, imprensa livre, transparência e cidadãos que participem para além da indignação ocasional.
O povo não é culpado por todos os vícios do poder, mas uma sociedade que se limita a assistir entrega aos protagonistas a renovação automática da temporada. A democracia começa a recuperar quando o cidadão deixa de ser audiência e volta a comportar-se como autor, fiscal e proprietário legítimo do Estado.
Referências credíveis
- OCDE — OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results: Portugal
- OCDE — Political voice, barriers to participation and implications for trust in government
- Comissão Europeia — Relatório de 2026 sobre o Estado de Direito: comunicação e capítulos por país
- Transparency International — Corruption Perceptions Index 2025
- World Justice Project — WJP Rule of Law Index 2025: Portugal
- Reuters Institute for the Study of Journalism — Digital News Report 2026: Portugal
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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