Odessa Ficou Dentro de Mim

O livro que, aos quinze anos (ed.1972), me ensinou a reconhecer a liberdade quando ela está cercada

Nota de abertura:
Há livros que lemos e arrumamos numa estante. Outros ficam abertos dentro de nós durante toda a vida. Contos de Odessa, que li aos quinze anos, pertence a essa rara espécie: ajudou-me a reconhecer, muito antes de compreender inteiramente a História, a coragem de um povo que aprendeu a sobreviver entre impérios, perseguições, guerras e a permanente fome de liberdade.

DADOS ESSENCIAIS

  • Isaac Bábel nasceu em Odessa e construiu parte essencial da sua obra literária a partir da vida judaica, cosmopolita e violenta da cidade.
  • A agressão russa contra a Ucrânia começou em 2014; a invasão em grande escala iniciou-se em 24 de Fevereiro de 2022 e entrou no seu quinto ano em 2026.
  • Em Maio de 2026, as Nações Unidas registaram pelo menos 274 civis mortos e 1763 feridos na Ucrânia, o valor mensal mais elevado desde Abril de 2022.
  • A União Europeia e os seus Estados-Membros declaravam ter mobilizado 216,2 mil milhões de euros de apoio à Ucrânia e ao seu povo até Julho de 2026.
  • Mesmo sob lei marcial, as instituições, a sociedade civil e o processo de reformas democráticas ucranianas continuaram activos, embora as eleições permaneçam suspensas enquanto durar a guerra.

Comecei a construir a minha biblioteca pessoal por volta dos doze anos.

Não era uma colecção organizada por especialistas, nem obedecia a um plano de leitura cuidadosamente desenhado. Era a biblioteca possível de um rapaz curioso, feita livro a livro, descoberta a descoberta, como quem reúne pequenas janelas para poder observar um mundo que ainda não conhecia.

Aos catorze anos chegou-me às mãos Contos de Odessa.

O livro ainda hoje permanece na minha biblioteca. As páginas envelheceram, como envelhecemos todos, mas aquilo que me entregaram continua vivo.

Nessa idade eu não possuía ainda os instrumentos históricos, políticos e filosóficos que fui adquirindo ao longo da vida. Não conhecia suficientemente a complexidade da Ucrânia, a sucessão de impérios que a atravessaram, os conflitos de identidade, as perseguições, os pogroms, as revoluções e as cicatrizes deixadas pelo totalitarismo soviético.

Mas os livros sérios têm uma qualidade extraordinária: conseguem ensinar-nos antes de sabermos explicar aquilo que aprendemos.

A Odessa de Isaac Bábel entrou em mim como uma cidade luminosa e brutal, povoada por seres humanos contraditórios, exuberantes, feridos e resistentes. Era uma cidade onde o humor parecia desafiar a tragédia e onde a vida se recusava a pedir autorização à violência para continuar.

Talvez tenha sido aí que comecei a compreender que a dignidade humana não nasce da ausência de sofrimento. Nasce, muitas vezes, da recusa em permitir que o sofrimento tenha a última palavra.

Alguns livros não nos dão apenas conhecimento. Dão-nos uma espécie de bússola moral, capaz de continuar a apontar o Norte quando o mundo decide perder a direcção.

A formação de uma consciência

A minha formação intelectual não aconteceu apenas nas escolas, nos cursos, nas empresas ou nos sistemas informáticos que fui construindo ao longo da vida.

Aconteceu também em silêncio, diante das estantes.

Cada livro acrescentou uma camada à minha compreensão do ser humano. Uns ensinaram-me ciência. Outros deram-me filosofia. Alguns mostraram-me a História escrita pelos vencedores. Os melhores obrigaram-me a procurar a voz dos vencidos, dos perseguidos, dos que foram empurrados para as margens e, ainda assim, continuaram a existir com uma força que nenhuma estatística consegue medir.

Contos de Odessa fez parte desse crescimento.

Não me ofereceu uma Ucrânia idealizada. Ofereceu-me algo mais valioso: uma humanidade concreta, imperfeita e indomável.

Ao longo das décadas, esse primeiro encontro literário foi-se cruzando com novas leituras, com a experiência política, com o conhecimento dos regimes autoritários e com a convicção crescente de que a liberdade não é um estado natural da sociedade.

A liberdade é uma construção frágil.

Precisa de instituições, leis, educação, memória, imprensa independente e cidadãos que não entreguem a consciência a quem lhes prometa conforto.

E precisa, nos momentos mais terríveis, de pessoas dispostas a defendê-la.

A História voltou a bater à porta

Quando o regime de Vladimir Putin lançou a invasão em grande escala da Ucrânia, em 24 de Fevereiro de 2022, não começou apenas uma guerra territorial.

Começou uma tentativa de negar a um povo o direito de existir politicamente fora da órbita de um império que continua a confundir vizinhança com propriedade.

A Rússia de Putin apresentou a agressão sob camadas de propaganda, falsificações históricas e fantasmas cuidadosamente recuperados do arquivo soviético. O invasor voltou a vestir-se de libertador, essa velha tradição imperial em que os tanques chegam sempre para salvar aqueles que esmagam.

Muitos esperavam que a Ucrânia caísse em poucos dias.

Não caiu.

Resistiu.

Resistiu nas cidades, nas aldeias, nas trincheiras, nos hospitais, nas fábricas, nas redes eléctricas destruídas e nas casas onde famílias inteiras aprenderam a distinguir, pelo som, os mísseis dos drones.

Resistiu com militares, médicos, engenheiros, professores, programadores, agricultores, jornalistas e cidadãos comuns.

Resistiu com uma coragem que não deve ser romantizada, porque foi paga com sangue.

Cada vitória teve mortos. Cada cidade defendida deixou famílias incompletas. Cada avanço tecnológico nasceu da urgência brutal de sobreviver ao dia seguinte.

Em Maio de 2026, segundo as Nações Unidas, pelo menos 274 civis foram mortos e 1763 ficaram feridos num único mês. São números que a linguagem administrativa consegue alinhar numa tabela, mas que a consciência humana deveria recusar transformar em rotina.

Por detrás de cada número há uma cadeira vazia, uma voz que deixou de responder e alguém que continuará a esperar por um regresso impossível.

Um povo que se superou

A resistência ucraniana não foi apenas militar.

Foi também tecnológica, cultural, administrativa e moral.

Um país atacado por uma potência muito maior transformou rapidamente a forma de combater, desenvolveu drones, sistemas de comando, redes de informação, soluções de guerra electrónica e uma indústria capaz de aprender em meses aquilo que os aparelhos militares tradicionais demorariam anos a compreender.

A Ucrânia levou a guerra ao interior da máquina económica russa, atingindo refinarias, redes logísticas e infra-estruturas utilizadas para alimentar a agressão. Não venceu a guerra, nem está livre do perigo, mas demonstrou que a dimensão do inimigo não garante a sua invulnerabilidade.

Há nesta capacidade de adaptação algo que reconheço profundamente.

A tecnologia não é apenas equipamento. É inteligência aplicada à sobrevivência.

É a capacidade de observar um problema aparentemente impossível, afastar-se das soluções convencionais e regressar com uma ideia que altera a relação de forças.

A Ucrânia fez isso perante o olhar espantado de um mundo que, antes da invasão, a via sobretudo como periferia.

Tornou-se um laboratório doloroso do futuro da guerra, mas também uma demonstração daquilo que um povo educado, tecnologicamente criativo e moralmente mobilizado consegue fazer quando percebe que a alternativa é desaparecer.

A democracia debaixo das sirenes

Admiro ainda mais os ucranianos porque, no meio da guerra, não esqueceram completamente a democracia.

A lei marcial impediu a realização de eleições, uma limitação grave que deve terminar quando as condições de segurança o permitirem. Uma democracia não deve transformar a emergência em residência permanente do poder.

Mas a suspensão eleitoral não apagou toda a vida democrática.

O parlamento continuou a funcionar. A sociedade civil permaneceu activa. Os jornalistas continuaram a investigar. Os cidadãos manifestaram-se contra decisões do poder. O Governo foi obrigado a recuar em medidas contestadas, e as reformas ligadas ao Estado de direito e à integração europeia prosseguiram em plena guerra.

Isto não transforma a Ucrânia numa democracia perfeita. Nenhuma democracia o é, sobretudo quando vive sob bombardeamentos, mobilização militar, deslocações em massa e permanente ameaça existencial.

Existem problemas de corrupção, concentração de poder, liberdade dos média, transparência e funcionamento das instituições. Devem ser discutidos sem ingenuidade e sem repetir a propaganda do agressor.

A grandeza democrática não está em não cometer erros.

Está em permitir que a sociedade os denuncie e obrigue o poder a corrigi-los.

Uma democracia que ainda consegue ouvir o seu povo debaixo das sirenes possui mais vida do que muitos regimes tranquilos, onde já ninguém escuta ninguém.

A Europa que ajuda e hesita

A Europa apoiou a Ucrânia.

É importante dizê-lo com honestidade.

A União Europeia e os seus Estados-Membros mobilizaram apoio financeiro, económico, humanitário e militar de enorme dimensão, acolheram milhões de refugiados e ajudaram o Estado ucraniano a continuar a funcionar.

Até Julho de 2026, o apoio declarado ascendia a 216,2 mil milhões de euros.

Não são apenas discursos. São recursos reais, armas, formação, energia, hospitais, ajuda orçamental, protecção temporária e reconstrução.

Mas reconhecer este esforço não obriga a silenciar a crítica.

A Europa ajudou e, simultaneamente, hesitou.

Debatemos cada sistema de armas durante meses, enquanto os ucranianos contavam o tempo em vidas. Criámos linhas vermelhas que o agressor atravessou sem pedir licença. Tivemos medo da escalada, como se a invasão de um país europeu por uma potência nuclear ainda não fosse uma escalada suficientemente clara.

Produzimos declarações magníficas, reuniões solenes e fotografias de família onde todos pareciam decididos, desde que a decisão pudesse ser tomada na reunião seguinte.

A prudência é necessária.

A cobardia disfarçada de prudência é apenas uma forma elegante de deixar que outros paguem o preço da nossa segurança.

A Ucrânia não luta apenas pela Ucrânia.

Luta contra a ideia de que as fronteiras podem ser alteradas pela força, de que os impérios possuem direitos sobre os vizinhos e de que um regime autoritário pode destruir uma democracia europeia enquanto o resto do continente calcula cuidadosamente os riscos de o impedir.

A Ucrânia está também a lutar pela liberdade de uma Europa que, por vezes, parece demasiado confortável para compreender o valor daquilo que recebeu das gerações anteriores.

O rapaz, o livro e o homem

Quando olho hoje para o exemplar de Contos de Odessa que permanece na minha biblioteca, vejo muito mais do que um livro antigo.

Vejo o rapaz que eu era.

Um rapaz que começava a construir, sem o saber, não apenas uma biblioteca, mas uma forma de olhar o mundo.

Vejo o início de uma curiosidade que me levou à ciência, à tecnologia, à filosofia, à História e à permanente tentativa de compreender o ser humano, essa criatura capaz de escrever poesia e construir campos de extermínio com a mesma inteligência.

Vejo também uma linha invisível que atravessa mais de meio século.

Liga a Odessa literária que conheci aos catorze anos à Odessa que hoje volta a ouvir as sirenes, a enterrar os mortos e a recusar a submissão.

O livro envelheceu comigo.

Mas a lição permaneceu jovem.

Os povos podem ser feridos, ocupados, deportados e traídos. Podem perder cidades, casas e gerações inteiras. Mas enquanto conservarem memória, cultura, dignidade e vontade de escolher o próprio destino, nenhum império poderá declarar-se vencedor definitivo.

A minha admiração pelo povo ucraniano não nasceu em 2022.

Nasceu muito antes, num encontro silencioso entre um rapaz de catorze anos e um livro que ainda hoje repousa numa estante da sua biblioteca.

Em 2022, essa admiração apenas encontrou novamente o seu rosto.

Odessa ficou dentro de mim. E, com ela, ficou a certeza de que a liberdade pode ser esmagada durante algum tempo, mas nunca pertence verdadeiramente ao esmagador.

Nota Editorial

Esta crónica é um testemunho autobiográfico, literário e político. Parte da memória pessoal do autor, da leitura de Contos de Odessa durante a adolescência e da influência que essa obra exerceu na formação da sua consciência humanista.

A admiração pela resistência ucraniana não elimina a necessidade de rigor. A Ucrânia enfrenta problemas institucionais, políticos e sociais que devem continuar sujeitos a escrutínio democrático. Do mesmo modo, a crítica à lentidão e hesitação europeias não apaga a dimensão substancial do apoio financeiro, militar, humanitário e social prestado pela União Europeia e pelos seus Estados-Membros.

O texto distingue entre factos documentados, memória pessoal e juízo moral. Não apresenta como certa uma queda iminente do regime russo, nem transforma a esperança numa previsão. Afirma, isso sim, que a invasão russa constitui uma agressão contrária à soberania da Ucrânia e aos princípios fundamentais do direito internacional.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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