Crónica · Humor interplanetário

O Extraterrestre que Quis Investir em Portugal

Uma visita a um país onde o futuro chega primeiro às primeiras páginas

Por Francisco Gonçalves · Fragmentos do Caos · 24 de Julho de 2026

Vim de um planeta situado muito para além do nosso sistema solar, numa região discreta da galáxia conhecida como RK23-Sábio.

A viagem demorara vários anos terrestres, embora para nós, habitantes de RK23, o tempo seja uma questão relativamente administrativa. Não envelhecemos durante as viagens espaciais, não pagamos portagens interplanetárias e, acima de tudo, conseguimos construir aeroportos sem discutir a localização durante cinquenta anos.

Aterrei em Portugal numa manhã luminosa de 2026.

Escolhi um terreno próximo de Lisboa, onde a nave poderia passar despercebida entre várias máquinas paradas, montes de terra e placas anunciando obras futuras. Julguei tratar-se de um estaleiro em plena actividade. Mais tarde explicaram-me que algumas placas pertenciam a projectos anteriores ao nascimento de vários trabalhadores presentes no local.

Saí da nave usando a minha forma humana regulamentar: fato escuro, gravata discreta, sapatos brilhantes e uma expressão séria, indispensável para circular entre pessoas que falam de economia sem levantar suspeitas.

Entrei num café.

Pedi uma bebida quente e uma espécie de pequeno objecto folhado recheado com creme, que os habitantes locais tratavam com um respeito que não concediam às instituições públicas.

Sobre o balcão estavam vários jornais económicos.

Comecei a lê-los.

Foi então que percebi que tinha aterrado no país mais promissor do planeta Terra.

A perspectiva extraterrestre e a sátira cósmica desta crónica pertencem a uma linhagem ilustre: Douglas Adams transformou a burocracia galáctica numa máquina de absurdo, enquanto Stanisław Lem mostrou como congressos dedicados ao futuro podem coexistir alegremente com uma realidade em colapso.[1][2]

O país onde o futuro já chegou aos jornais

As primeiras páginas eram extraordinárias.

Portugal iria ter um novo aeroporto.

Não apenas um aeroporto vulgar, com pistas, aviões e passageiros. Seria uma infra-estrutura estratégica, transformadora, competitiva, sustentável e absolutamente decisiva para o posicionamento do país nas próximas décadas.

Pelas descrições, imaginei uma obra gigantesca já em construção, com milhares de trabalhadores, máquinas automatizadas e terminais a emergirem do solo.

Perguntei ao homem do café onde ficava o aeroporto.

Ele respondeu:

— Qual deles?

Pensei que Portugal tivesse vários aeroportos novos.

Ele explicou-me que havia várias localizações, vários estudos, várias decisões, várias revisões das decisões e uma longa tradição de anunciar aquilo que ainda não existia.

Achei admirável.

No meu planeta, quando não fazemos uma obra, limitamo-nos a não a fazer. Aqui, transformavam a ausência da obra num sector económico próprio, com especialistas, consultores, comissões, mapas, apresentações e debates televisivos.

Era uma inovação institucional notável.

Continuei a leitura.

Portugal iria ter comboios de alta velocidade.

O país seria atravessado por linhas modernas, aproximando Lisboa do Porto, Portugal de Espanha e a realidade das promessas.

Os artigos falavam em TGV, interoperabilidade, corredores europeus, fundos comunitários, competitividade e coesão territorial.

Fiquei impressionado.

Na RK23-Sábio, os nossos comboios atingem metade da velocidade da luz, mas nunca tínhamos pensado em anunciar cada quilómetro durante décadas antes de colocar os carris.

Os portugueses tinham conseguido algo mais avançado: uma ferrovia conceptual.

Era possível viajar nela sem sair da conferência de imprensa.

O ouro que valia menos do que uma apresentação

Voltei à nave e consultei os meus registos.

Trazia comigo uma quantidade considerável de ouro.

No meu planeta, o ouro é usado principalmente para reparar sistemas de navegação, fabricar componentes quânticos e decorar bolos em cerimónias pouco sóbrias. Na Terra, descobri que conservava ainda algum valor.

Depois de ler os jornais, concluí que deveria investir tudo em Portugal.

O país estava a crescer.

As empresas estrangeiras queriam instalar-se.

Os fundos internacionais observavam Portugal com entusiasmo.

As startups nacionais desenvolviam tecnologias revolucionárias.

O Governo preparava reformas estruturais a uma velocidade tão extraordinária que os próprios jornalistas pareciam cansados de as acompanhar.

Fiz as contas.

Se investisse o ouro naquele momento, poderia regressar a RK23-Sábio dois anos depois com uma frota inteira.

Não apenas uma nave.

Dez naves.

Talvez vinte.

Todas carregadas com os lucros produzidos pela economia portuguesa.

Comecei a imaginar a minha chegada triunfal ao planeta natal. Os habitantes receber-me-iam na praça central. As crianças agitariam pequenos modelos de naves. O Conselho Científico pedir-me-ia uma palestra sobre o milagre económico português.

COMO TRANSFORMAR OURO EM MAIS OURO
ATRAVÉS DE ANÚNCIOS GOVERNAMENTAIS

Estava emocionado.

A nação das reformas supersónicas

As notícias sobre o Governo eram especialmente estimulantes.

Os ministros anunciavam reformas profundas.

A Administração Pública seria modernizada.

A Justiça tornar-se-ia mais rápida.

A Saúde seria reorganizada.

A Habitação teria respostas estruturais.

A Educação entraria numa nova era.

A economia seria mais competitiva.

O Estado tornar-se-ia simples, ágil, digital e próximo do cidadão.

Tudo isto seria feito rapidamente.

Muito rapidamente.

À velocidade da luz, segundo algumas declarações.

Fiquei preocupado.

No nosso planeta, sabemos que nenhum corpo com massa pode atingir a velocidade da luz. Talvez os governos portugueses tivessem descoberto uma excepção à física.

Procurei sinais dessa revolução.

Entrei num serviço público para obter uma autorização de investimento.

Disseram-me que precisava de marcar previamente.

Tentei marcar.

O sistema informático estava indisponível.

Telefonei.

Uma gravação informou-me de que a minha chamada era muito importante.

Esperei quarenta e sete minutos.

Depois, a ligação caiu.

Voltei ao serviço no dia seguinte.

Entregaram-me um formulário.

Perguntei se podia preenchê-lo digitalmente.

A funcionária olhou para mim com a compaixão reservada aos seres ingénuos e respondeu:

— Pode descarregá-lo na Internet, imprimir, assinar e trazer presencialmente.

Percebi então que a transformação digital portuguesa tinha atingido um grau de sofisticação filosófica: digitalizava-se o papel para que o cidadão pudesse imprimi-lo novamente.

Era um ciclo perfeito.

O ecossistema dos unicórnios

Decidi estudar as startups portuguesas.

Os jornais descreviam um ecossistema vibrante.

Havia inovação, talento, aceleração, incubação, escalabilidade, disrupção e internacionalização.

Algumas empresas queriam tornar-se unicórnios.

Na RK23-Sábio, o unicórnio é um animal real, embora pouco cooperante e bastante caro de alimentar. Em Portugal, descobri que era uma empresa avaliada em mais de mil milhões, muitas vezes antes de ganhar dinheiro.

Achei o conceito magnífico.

Conheci um jovem fundador num evento tecnológico.

Explicou-me que a empresa iria revolucionar a mobilidade urbana através de uma plataforma inteligente baseada em inteligência artificial, blockchain, sustentabilidade e experiência personalizada.

Perguntei o que fazia exactamente.

Respondeu que estavam ainda a validar o modelo de negócio.

Perguntei se tinham clientes.

Disse que tinham utilizadores potenciais.

Perguntei se tinham receitas.

Explicou que o foco não era a monetização, mas a escala.

Perguntei se tinham lucros.

Sorriu.

Percebi que tinha formulado uma pergunta antiquada.

Mostrou-me uma apresentação com gráficos ascendentes, mapas coloridos e projecções até 2035.

No último diapositivo aparecia um foguetão.

Senti-me em casa.

No entanto, reparei que a empresa geria os contactos numa folha de cálculo chamada:

clientes_FINAL_v8_agora_sim.xlsx

A tecnologia terrestre voltava a surpreender-me pela sua capacidade de combinar o futuro com o Microsoft Excel.

A ficção científica conhece há muito esta proeza. QualityLand transforma a optimização algorítmica num pesadelo hilariante, e The Space Merchants imagina uma sociedade na qual o marketing e as grandes empresas praticamente substituíram a política.[3][4]

Todos querem investir em Portugal

Os jornais garantiam também que investidores de todo o mundo estavam interessados em Portugal.

Americanos, chineses, franceses, alemães, árabes, canadianos, brasileiros e talvez alguns habitantes de sistemas solares ainda não identificados.

Todos queriam investir.

Portugal parecia uma espécie de centro gravitacional do capital mundial.

Fui então a uma conferência.

No palco, vários responsáveis explicaram as vantagens do país:

estabilidade;
localização;
talento;
qualidade de vida;
sol;
mar;
segurança;
fundos europeus;
benefícios fiscais;
e uma gastronomia capaz de resolver conflitos diplomáticos.

Concordei plenamente com a gastronomia.

No final, perguntei a um empresário estrangeiro quando iniciaria o investimento.

Disse-me que estava a analisar.

Perguntei a outro.

Estava a avaliar.

Um terceiro encontrava-se em fase de estudo.

Um quarto aguardava clarificações regulatórias.

Um quinto esperava uma decisão judicial.

Um sexto tinha investido, mas agora tentava obter uma licença.

Comecei a compreender que, em Portugal, o investimento estrangeiro atravessa várias fases espirituais: interesse, entusiasmo, conferência, almoço, estudo, parecer, espera, recurso e, por vezes, desistência.

O dinheiro chega cheio de esperança e envelhece na fila.

O país que vale ouro

Continuei, porém, optimista.

Talvez os obstáculos fossem apenas passageiros.

Voltei aos jornais.

Portugal valia ouro.

A economia era resiliente.

O turismo batia recordes.

As exportações cresciam.

A tecnologia florescia.

Os centros de competência multiplicavam-se.

A transição energética avançava.

O hidrogénio verde surgia em todos os discursos.

O mar seria explorado.

O interior seria revitalizado.

Os jovens qualificados regressariam.

Os salários aproximar-se-iam da Europa.

As reformas chegariam em breve.

O novo aeroporto avançaria.

O TGV avançaria.

A habitação avançaria.

Tudo avançava, pelo menos gramaticalmente.

E foi então que cometi o meu grande erro.

Confundi o futuro verbal com o presente real.

Nos jornais, Portugal era quase sempre conjugado em tempos promissores:

vai fazer;
vai construir;
vai reformar;
vai captar;
vai liderar;
vai transformar-se.

Era um país inteiro instalado no futuro do indicativo.

O presente servia sobretudo para realizar conferências sobre aquilo que aconteceria depois.

A própria história da ficção científica portuguesa contém visões de Lisboa transformada numa potência económica e tecnológica. A Encyclopedia of Science Fiction recorda Lisboa no Ano 2000, de Melo de Matos, como uma visão pioneira de uma capital engrandecida pela ciência, pelos transportes e pelas comunicações.[5]

A primeira tentativa de investir

Decidi avançar.

Apresentei o meu projecto: construir em Portugal um pequeno centro de investigação interplanetária, criar empregos altamente qualificados e desenvolver sistemas de propulsão limpa.

Os responsáveis ficaram entusiasmados.

Disseram que o projecto era estratégico.

Transformador.

Disruptivo.

Estruturante.

Alinhado com as prioridades nacionais.

Perguntei quanto tempo demoraria a aprovação.

Responderam que seria célere.

Perguntei o que significava "célere".

Disseram que dependeria dos pareceres.

Havia parecer ambiental, parecer municipal, parecer energético, parecer urbanístico, parecer da aviação civil, parecer sobre segurança, consulta pública e eventual parecer sobre os pareceres anteriores.

Perguntei se o facto de a nave já ter atravessado trinta anos-luz podia simplificar o processo.

Disseram que não constava do regulamento.

O técnico mostrou-me uma lista de documentos.

Precisava de uma certidão da empresa.

Expliquei que a empresa estava registada noutro planeta.

Pediu-me uma tradução certificada.

Perguntei onde poderia certificar documentos extraterrestres.

Indicou-me um balcão no piso inferior.

O balcão estava encerrado para formação sobre modernização administrativa.

O despertar

Regressei à nave.

Sentei-me diante do cofre onde guardava o ouro.

Ainda estava excitado.

Apesar das pequenas dificuldades, os jornais eram inequívocos. Portugal preparava-se para um futuro extraordinário.

Imaginei novamente as vinte naves carregadas de lucros.

Talvez trinta.

Talvez pudesse comprar uma lua pequena e transformá-la numa estância turística.

Peguei numa barra de ouro.

Brilhava intensamente.

Nesse momento, ouvi um ruído no exterior.

Saí da nave.

Um trabalhador aproximou-se e perguntou se eu tinha licença para estacionar ali.

Respondi que tinha acabado de chegar de outro sistema solar.

Ele encolheu os ombros.

— Isso não dispensa a licença.

Olhei em redor.

As máquinas continuavam paradas.

A placa da obra anunciava uma conclusão para dois anos antes.

Ao longe, um comboio regional seguia lentamente, como se transportasse consigo toda a prudência ferroviária da nação.

No rádio de um automóvel, um ministro anunciava uma reforma histórica.

O jornalista afirmava que o país entrava numa nova fase.

Um comentador explicava que agora seria diferente.

Foi então que despertei completamente.

Não estava no país descrito pelas primeiras páginas económicas.

Não estava numa potência tecnológica em aceleração supersónica.

Não estava num gigantesco laboratório de inovação.

Estava em Portugal.

No ano de 2026.

Um país belíssimo, inteligente, talentoso e cheio de possibilidades, mas com o curioso hábito de confundir possibilidades com realizações, anúncios com obras, estudos com decisões e conferências com progresso.

Guardei novamente o ouro.

Decidi levar apenas uma pequena parte para investir.

O resto ficaria na nave, por precaução.

Em RK23-Sábio temos um velho provérbio:

Quando um planeta fala demasiado do futuro, convém verificar se já conseguiu organizar o presente.

Portugal continuava a valer ouro.

Mas, naquele momento, percebi que grande parte do ouro estava nas palavras.

E palavras, por mais brilhantes que sejam, não compram naves.

Excepto talvez num PowerPoint.

A ficção científica de excepção raramente serve apenas para prever máquinas. Serve para afastar o olhar, observar sociedades como se fossem planetas estrangeiros e devolver-nos, ampliados, os hábitos que já não conseguimos ver. Le Guin chamou a esse exercício uma exploração da natureza humana através de mundos divergentes; a tradição das utopias e distopias faz precisamente do futuro uma hipótese crítica sobre o presente.[6][7]

Nota Editorial

Esta crónica é uma sátira ficcional sobre o contraste entre o Portugal anunciado e o Portugal vivido. RK23-Sábio, o visitante, a nave e o ouro interplanetário pertencem à imaginação; os aeroportos sucessivamente anunciados, os formulários para imprimir, os pareceres sobre pareceres e a extraordinária velocidade verbal das reformas pertencem a uma realidade que, por vezes, demonstra possuir mais imaginação do que a própria ficção científica. O texto não nega o potencial do país. Critica, justamente, o desperdício desse potencial na distância persistente entre proclamação e execução.

Referências e ecos de ficção científica

  1. Douglas Adams, The Hitchhiker's Guide to the Galaxy — Penguin. Uma das grandes aventuras cómicas do século XX, onde viagens espaciais, burocracia galáctica e a pequenez das certezas humanas convivem com admirável falta de compostura.
  2. Stanisław Lem, The Futurological Congress — Penguin. Uma sátira simultaneamente sombria e hilariante sobre especialistas reunidos para discutir o futuro enquanto a realidade, pouco colaborante, se desfaz em redor.
  3. Marc-Uwe Kling, QualityLand — Hachette/Grand Central Publishing. Uma sátira tecnológica sobre algoritmos, consumo, optimização e um futuro demasiado eficiente para continuar humano.
  4. Frederik Pohl e C. M. Kornbluth, The Space Merchants — Library of America. Clássico da sátira social que imagina um futuro dominado por grandes agências de publicidade, consumo e poder empresarial.
  5. The Encyclopedia of Science Fiction — "Portugal". Panorama da tradição portuguesa de ficção especulativa, incluindo Lisboa no Ano 2000, de Melo de Matos, e outras visões utópicas, distópicas e satíricas do país.
  6. Ursula K. Le Guin, Hainish Novels & Stories — Library of America. Mundos divergentes usados como laboratórios literários para estudar política, liberdade, poder, cooperação e aquilo a que chamamos natureza humana.
  7. The Encyclopedia of Science Fiction — "Utopias". Uma síntese sobre a tradição que utiliza sociedades hipotéticas como experiências de sociologia, política e ciência, frequentemente com a sátira escondida entre as promessas de perfeição.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos, 2026

O extraterrestre trouxe ouro. Portugal ofereceu-lhe estudos, promessas, filas, um TGV a 20 km/h e uma startup com avaliação infinita numa folha Excel. É difícil competir com tamanha sofisticação civilizacional.
- Francisco Gonçalves (2026)

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