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Mandar os políticos para as obras

Um estágio obrigatório na realidade

Crónica satírica de Francisco Gonçalves  ·  28 de Julho de 2026

José Pulido Valente lançou uma frase que, por acidente, parece conter mais reforma do Estado do que muitos programas eleitorais: "É preciso mandar todos os políticos trabalhar para as obras".

Caixa de factos, para a sátira não trabalhar sem fiscalização

  • O Tribunal de Contas voltou a identificar deficiências persistentes nas obras públicas, incluindo planeamento insuficiente, responsabilidades pouco claras e falhas no controlo de custos ao longo do ciclo de vida dos projectos.
  • A OCDE assinalou em 2026 que os encargos regulatórios na construção aumentam custos e incerteza, atrasam projectos e afectam sobretudo as empresas mais pequenas.
  • Segundo o Eurostat, a construção concentrou 24% dos acidentes de trabalho mortais na União Europeia em 2023. Portanto, "ir para as obras" não deve ser tratado como uma piada sobre trabalho menor, mas como contacto com trabalho real, exigente e perigoso.

A frase que acertou na parede

À primeira vista, a frase de José Pulido Valente parece apenas uma provocação espirituosa. Mas, observada com atenção, encerra uma proposta pedagógica mais profunda do que muitos programas eleitorais com duzentas páginas, quatro fotografias do candidato e nenhuma indicação sobre quem pagará a factura.

Pulido Valente fala de obras como quem conhece a diferença entre o desenho e a matéria, entre a intenção e aquilo que permanece de pé. Não se refere à obra enquanto cenário de inauguração, com capacetes brancos imaculados, fita colorida e ministros cuidadosamente afastados do pó. Refere-se ao lugar onde existem medidas, prazos, custos, erros, corpos cansados e paredes que, ao contrário das promessas eleitorais, têm de ficar direitas.

Talvez seja precisamente isso que falte a muitos políticos portugueses: uma temporada obrigatória em contacto com a matéria.

Não para os castigar, convém esclarecer. Os trabalhadores da construção civil não merecem ser transformados em carcereiros de deputados, ministros e secretários de Estado. Já têm problemas suficientes com falta de mão-de-obra, materiais caros, alterações aos projectos e prazos escritos por pessoas que nunca seguraram uma colher de pedreiro. Colocar-lhes ainda um governante nas mãos poderia ser considerado risco profissional não previsto no seguro.

A ideia seria pedagógica. Quase revolucionária, portanto.

A política vista do andaime

Imagine-se um ministro a chegar às sete da manhã a uma obra.

Nada de motorista à porta. Nada de assessor a entregar-lhe um resumo executivo. Nada de conferência de imprensa marcada para as onze, convenientemente antes de surgir alguma pergunta desagradável.

Receberia capacete, botas, luvas e uma instrução simples:

Aquela parede tem de ficar pronta hoje.

Nesse momento começaria uma extraordinária experiência de contacto com a realidade.

O ministro poderia explicar que foi criada uma comissão para avaliar a parede. O encarregado responderia que a argamassa está a secar.

Poderia anunciar um grupo de trabalho multidisciplinar para estudar os impactos da verticalidade. O pedreiro lembraria que a parede continua torta.

Poderia garantir que o Governo está profundamente empenhado na conclusão da parede. Mas, ao fim do dia, alguém teria a indelicadeza democrática de medir o trabalho realizado.

Na política portuguesa mede-se sobretudo a intenção. Numa obra mede-se o resultado. É uma diferença civilizacional.

Onde os erros não desaparecem num comunicado

Uma obra possui uma qualidade que deve parecer brutal aos profissionais da política: os erros tornam-se visíveis.

Quando uma parede é construída no lugar errado, não basta afirmar que houve uma falha de comunicação. Quando um tubo fica mal ligado, não é possível culpar o anterior proprietário da chave inglesa. Quando o orçamento derrapa, alguém tem de explicar porquê, corrigir o problema e encontrar dinheiro verdadeiro, aquele curioso recurso que o Estado recolhe aos cidadãos antes de o transformar em "verba pública".

Na política, pelo contrário, o erro pode ser enterrado debaixo de palavras.

Uma decisão desastrosa transforma-se num "desafio inesperado". Um atraso passa a "recalendarização". Uma promessa incumprida converte-se numa "prioridade para a próxima fase". Uma trapalhada administrativa é apresentada como "necessidade de aperfeiçoar procedimentos".

E um fracasso completo, quando bem acompanhado por gráficos coloridos, pode mesmo ser anunciado como o início de um novo ciclo.

Numa obra, porém, o cimento possui uma desagradável resistência à propaganda.

O relatório que confirma a piada

A sátira torna-se quase documental quando se consulta o relatório de auditoria publicado pelo Tribunal de Contas em 2023. O organismo recorda que as obras públicas constituem uma área de risco para a sustentabilidade das finanças públicas e assinala a persistência de problemas antigos: planeamento deficiente, ausência de uma identificação clara dos responsáveis, insuficiência de análises custo-benefício e fragilidades no controlo de custos.

Em auditorias anteriores, citadas no mesmo relatório, tinham sido encontrados desvios financeiros entre 25% e 295% acima dos valores contratualizados e atrasos entre 1,4 e 4,6 anos. A obra pública portuguesa, percebe-se, não precisa de humorista. Dispõe de documentação oficial.

Seria tentador perguntar quem foi responsabilizado. Mas isso já seria confundir a administração pública com uma obra, onde o nome de quem executa cada tarefa costuma ser conhecido. No Estado, a responsabilidade tem frequentemente a delicadeza do nevoeiro: está em todo o lado, mas não se consegue agarrar.

A burocracia a discutir a licença da parede

A OCDE observou, no seu estudo económico sobre Portugal de 2026, que os encargos regulatórios no sector da construção aumentam os custos e a incerteza, atrasam os projectos e pesam particularmente sobre as pequenas empresas. As licenças demoram, os procedimentos variam entre municípios e a realidade aguarda pacientemente que todos os carimbos estejam alinhados.

Portugal já dispõe, desde 2017, de mecanismos de avaliação do impacto regulatório e tem procurado medir os custos administrativos das normas. É um progresso: começámos finalmente a calcular o peso da papelada que produzimos. Falta agora experimentar reduzi-la, uma etapa tecnicamente mais ousada.

Na obra imaginária de formação política, o governante poderia preencher dezassete formulários antes de colocar o primeiro tijolo. Ao fim de três meses, receberia um pedido de esclarecimentos sobre a cor do formulário número oito. Talvez então compreendesse por que razão os cidadãos envelhecem à espera de uma licença e as empresas aprendem a tratar a burocracia como um fenómeno meteorológico inevitável.

O país das inaugurações

Portugal não tem falta de políticos que gostem de obras. Tem falta de políticos que compreendam como elas se fazem.

Gostam particularmente da fase final: a placa, a fita, as câmaras de televisão, os discursos e o momento solene em que alguém corta simbolicamente aquilo que os trabalhadores passaram meses ou anos a construir.

Raramente aparecem quando é preciso carregar materiais, corrigir defeitos ou explicar aos moradores por que razão a intervenção prometida para seis meses já entrou no terceiro aniversário.

A inauguração tornou-se uma das principais artes performativas da democracia portuguesa. O governante visita uma obra paga pelos contribuintes, agradece ao Governo por a ter realizado e recebe aplausos por devolver à população uma pequena parte do dinheiro que previamente lhe retirou.

É uma espécie de ilusionismo fiscal com capacetes brancos.

Talvez o estágio proposto por Pulido Valente devesse começar precisamente antes das fotografias. Cada político só teria autorização para participar numa inauguração depois de cumprir algumas horas de trabalho efectivo no projecto.

Não seria necessário exigir grandes conhecimentos técnicos. Bastaria transportar material, limpar entulho ou permanecer oito horas ao sol, contemplando o resultado físico das decisões tomadas num gabinete climatizado.

A cerimónia ganharia outra solenidade. E talvez menos discursos, o que constituiria uma obra pública de valor incalculável.

O trabalho real não é metáfora

A construção civil não deve ser usada como sinónimo de castigo. É trabalho especializado, fisicamente exigente e perigoso. Em 2023, quase um quarto dos acidentes de trabalho mortais registados na União Europeia ocorreu na construção. Nesse mesmo ano, Portugal apresentou uma das taxas padronizadas mais elevadas de acidentes não mortais comunicados.

Estes números impedem que a frase seja lida como desprezo por quem trabalha nas obras. Pelo contrário: a força da proposta está em obrigar quem governa a conhecer o esforço, o risco e as consequências concretas suportadas por quem executa aquilo que outros anunciam.

Depois de carregar sacos, subir andaimes ou trabalhar sob o sol de Julho, um deputado poderia adquirir uma compreensão inesperadamente sofisticada sobre a diferença entre esperança média de vida e capacidade física para continuar a trabalhar.

Há conceitos que entram melhor pelos músculos do que pelos gabinetes de estudos.

Aprender que o tempo dos outros também conta

Trabalhar numa obra poderia ensinar outra lição importante: os atrasos têm consequências.

Quando um processo administrativo demora dois anos, o funcionário ou o governante responsável pode continuar tranquilamente a sua vida. Mas o cidadão fica sem casa, sem licença, sem investimento, sem rendimento ou sem resposta.

Para o Estado, são processos pendentes. Para quem espera, são fragmentos de vida suspensos numa secretária.

Numa obra, um atraso impede o electricista de começar, o canalizador de terminar, o proprietário de entrar e os trabalhadores de receber. Cada decisão interfere com a vida concreta de outras pessoas.

Talvez fosse útil colocar os políticos perante essa cadeia de consequências. Não através de mais relatórios de impacto, evidentemente. A humanidade já produziu relatórios suficientes para soterrar várias civilizações. Seria necessário vê-la, senti-la e responder por ela.

Um programa nacional de imersão na realidade

Mandar os políticos para as obras não deveria ser entendido como humilhação. Seria uma formação avançada em responsabilidade pública.

Aprenderiam que os projectos devem ser pensados antes de começar. Que alterar constantemente as especificações custa dinheiro. Que a qualidade depende de conhecimento, experiência e fiscalização. Que os recursos são limitados. Que não basta anunciar. E que alguém terá de executar aquilo que eles decidiram.

Sobretudo, aprenderiam que aquilo que se constrói mal pode permanecer durante décadas, exactamente como acontece com as leis, os serviços públicos e as instituições.

Um mau edifício cria infiltrações. Uma má política cria pobreza, desigualdade, desconfiança e atraso. Em ambos os casos, quem paga a reparação raramente é quem cometeu o erro.

Alguns políticos poderiam ser distribuídos por hospitais, escolas, tribunais, repartições públicas, pequenas empresas e transportes colectivos. Seria um Programa Nacional de Imersão na Realidade, matéria aparentemente ausente de muitos cursos de formação partidária.

Durante alguns meses, deixariam de representar o povo para experimentar viver como ele.

No final, poderiam regressar ao Parlamento. Mas só depois de uma avaliação feita por quem trabalhou com eles:

Pontualidade.
Capacidade de ouvir.
Cumprimento de prazos.
Respeito pelo orçamento.
Qualidade do trabalho.
Responsabilidade pelos erros.

Receio que muitos não passassem do período experimental.

Mas o país, pelo menos, ficaria com algumas paredes levantadas. E isso já seria uma melhoria considerável em relação a décadas de construção política feita sobretudo com palavras, promessas e cimento eleitoral de secagem rápida.

Na obra, a parede ou fica de pé ou cai. Na política, pode cair e ainda ser inaugurada.

Referências e leitura complementar

  1. PÚBLICO, "José Pulido Valente: 'É preciso mandar todos os políticos trabalhar para as obras'", 28 de Julho de 2026. Consultar.
  2. Tribunal de Contas, Empreendimento de Obras Públicas — Relatório de Auditoria n.º 6/2023, 2.ª Secção. Consultar o relatório.
  3. OCDE, OECD Economic Surveys: Portugal 2026, secção sobre os obstáculos regulatórios à construção. Consultar.
  4. OCDE, Better Regulation Practices across the European Union 2025 — Portugal. Consultar.
  5. Eurostat, Accidents at Work Statistics, dados de 2023, actualização estatística de Setembro de 2025. Consultar.

Francisco Gonçalves

Fragmentos do Caos · 2026


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