A Profícua Reunião Sobre Coisa Nenhuma

No País do Nada, o vazio almoça em Belém, posa para as fotografias e regressa a casa promovido a acontecimento nacional.

Nota de abertura:
O Presidente da República, António José Seguro, almoçou com o antigo Presidente Aníbal Cavaco Silva. A comunicação oficial classificou o encontro como uma «profícua troca de ideias». As ideias, talvez exaustas pelo esforço, não chegaram a ser apresentadas ao público.

Portugal voltou a viver um momento de elevada densidade política.

António José Seguro almoçou com Cavaco Silva em Belém e, segundo a imprensa, ambos tiveram uma «profícua troca de ideias».

Quais ideias?

Não se sabe.

Sobre quê?

Também não.

O que resultou da conversa?

Fotografias.

Balanço provisório da operação:
Um almoço.
Três cenários fotográficos.
Um adjectivo abundante.
Zero ideias divulgadas.

A notícia informa, com o rigor próprio das grandes investigações jornalísticas, que os dois estiveram lado a lado, falaram na varanda, passaram pela Sala das Bicas e foram vistos no exterior do palácio.

Ou seja: conversaram, caminharam e não desapareceram.

Num país menos sofisticado, isto chamar-se-ia almoço.

Em Portugal, chama-se acontecimento institucional.

Cavaco, depois de vinte anos nos mais altos cargos do Estado, continua a demonstrar a sua arte maior: conferir ao vazio uma gravidade contabilística e pronunciar palavras com a expressão de quem acaba de rever o défice público da sobremesa.

Seguro, por sua vez, conseguiu ouvi-lo com a prudência habitual, talvez receando que uma opinião concreta pudesse perturbar o equilíbrio da República.

A imprensa cumpriu também o seu dever.

Recebeu o comunicado, copiou o adjectivo «profícuo», publicou as fotografias e evitou cuidadosamente a pergunta incómoda:

Profícuo em quê?

Mas perguntar seria estragar tudo.

A política portuguesa não existe para produzir resultados. Existe para produzir imagens de pessoas sérias a fingir que pensam no país.

Assim vai o País do Nada.

O nada reúne-se.

O nada almoça.

O nada é fotografado.

E, no dia seguinte, aparece nos jornais como uma extraordinária demonstração de inteligência governamental.

No fim, não sabemos o que foi pensado. Mas sabemos que a varanda estava disponível.

Nota Editorial

Esta crónica é uma peça satírica. Não afirma que nenhuma ideia tenha sido trocada; limita-se a observar que, sendo a troca anunciada como tão profícua, a comunicação oficial tomou a prudente decisão de proteger todas as ideias do contacto potencialmente perigoso com os cidadãos.

A sátira incide sobre a linguagem institucional e sobre um jornalismo que transforma comunicados protocolares em notícia sem exigir conteúdo, consequência ou sequer uma frase concreta. A solenidade, quando não transporta informação, é apenas o vazio de gravata.

Qualquer semelhança entre o País do Nada e um país real, onde se fotografa muito, se adjectiva abundantemente e se explica pouco, não é coincidência. É protocolo.

Referências

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News

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🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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