Os Lusitanos Desenrascados

Canto I — Da mui nobre nação que descobriu o caminho marítimo para a burocracia

Uma adaptação livre, humorística e cáustica do espírito épico dos Lusíadas, transplantado para o Portugal dos portais, senhas, pareceres, comissões e reformas estruturais que chegam sempre atrasadas à própria inauguração.

As senhas e os balcões assinalados,
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares de papéis nunca dobrados,
Foram além da lógica humana;
E entre recibos verdes mal pagos,
Portais que falham pela manhã ufana,
Mais do que prometia a força humana,
Fundaram a República da Tramóia Urbana.

E também as memórias gloriosas
Daqueles que, com carimbo e parecer,
Construíram reformas nebulosas
Que ninguém conseguiu compreender;
Em pastas, comissões misteriosas,
Foram a Pátria toda adormecer,
Enquanto o povo, em fila resignada,
Pagava a taxa, a coima e a entrada.

Cantem-se os homens de fato escuro,
Com sorriso de plástico importado,
Que prometem futuro seguro
Num PowerPoint mal formatado;
Dizem: "Portugal será maduro",
Mas sai despacho enviesado,
E o cidadão, que já viu demais,
Suspira: "Lá vêm os mesmos animais."

Ó Musa do Portal sem ligação,
Que habitas entre o erro e a senha,
Dá-me agora inspiração
Para cantar esta estranha ordenha;
Que eu diga, com justa indignação,
O que nesta terra se desenha:
Um povo com alma de navegador
Governado por mestre de corredor.

Ali vinha o velho Adamastor,
Já não monstro de espuma e tempestade,
Mas director-geral com mau humor,
Guardião da opacidade;
Pedia certidão, código e favor,
Mais prova de vida e autenticidade,
E ao pobre Vasco, de GPS na mão,
Negava acesso à repartição.

"Quem ousa passar este portal?",
Rugiu o monstro, cheio de zelo.
"Sou cidadão, pago o fiscal,
Venho só tratar de um modelo."
"Falta-lhe aqui o comprovativo digital,
O PIN, o NIF e o carimbo amarelo;
Volte amanhã, das nove às nove e meia,
Ou tente online, se a rede não bloqueia."

E Vasco da Gama, já sem naus,
Com senha B-472,
Olhou para os céus, olhou para os maus,
Olhou para o ecrã, tão feroz;
Disse: "Venci tormentas e caos,
Mas isto é castigo dos avós:
Cheguei à Índia por mar sem Internet,
Mas não consigo entrar no e-Clic.net."

No Olimpo, os deuses reunidos
Viam Portugal com ar cansado;
Júpiter lia pareceres compridos,
Marte queria tudo privatizado;
Vénus, com olhos entristecidos,
Perguntava: "Mas isto está governado?"
Mercúrio, deus dos expedientes,
Vendia consultoria a clientes.

Baco, esse sim, ria contente,
Com copo cheio e ar matreiro:
"Este povo é resistente,
Mas vota sempre no coveiro;
Chama mudança ao mesmo dente,
Troca o cartaz, não troca o roteiro;
E quando a coisa corre mal,
Diz: 'Ao menos não foi tão fatal.'"

Vieram então os partidos em cortejo,
Cada qual com bandeira e sacramento:
Uns traziam cravos de desejo,
Outros calculavam rendimento;
Uns gritavam raiva e despejo,
Outros vendiam bom comportamento;
E todos, com solene compostura,
Juravam salvar a criatura.

O povo, esse Ulisses de tasca,
Que trabalha, paga e não desiste,
Vê a promessa que se lasca
E ainda faz humor triste;
Entre a factura, a senha e a casca,
Aguenta mais do que resiste,
Pois nesta pátria de nevoeiro
Até o absurdo é costumeiro.

Passam ministros, passam planos,
Passam pactos e comissões,
Passam dez lustros de enganos,
Passam impostos e ilusões;
Ficam os mesmos desenganos,
As mesmas belas intenções,
E a Pátria, em pose triunfal,
Inaugura outro portal.

Mas não se diga que tudo é perdido,
Nem que morreu a antiga chama;
Há ainda quem pense erguido,
Quem não se venda nem se inflama;
Há quem não tenha obedecido
Ao coro mole que nos trama;
Há quem, no meio da apagada grei,
Ainda pergunte: "Mas porquê?"

Pois se outrora fomos ao mar largo
Com astrolábio, medo e coragem,
Hoje o destino é mais amargo:
Vencer o pântano da engrenagem;
Não há Adamastor mais pesado
Que a mediocridade em vantagem,
Nem cabo mais difícil de dobrar
Que um país que se habituou a esperar.

E assim termina este canto breve,
Não com trombeta nem clarão,
Mas com ironia que ainda se atreve
A beliscar a resignação;
Portugal pode andar na neve,
Com a bússola caída no chão,
Mas enquanto houver quem diga "não",
Ainda há nau, mar e coração.

Autoria: A Sombra da Dúvida

Nota editorial: Texto satírico e paródico, inspirado livremente na tradição épica portuguesa, aplicado ao Portugal contemporâneo das burocracias, dos partidos, das promessas recorrentes e da esperança teimosa que ainda resiste entre as ruínas do expediente.

Nota Final

Os portugueses já não dobram o Cabo das Tormentas — suportam-no. Não com velas enfunadas, mas com senhas electrónicas, portais em manutenção, impostos em duplicado, promessas em triplicado e políticos em modo "erro 503 — serviço temporariamente indisponível".

O velho Adamastor, se visse isto, talvez dissesse:

"Meus senhores, eu metia medo aos navegadores,
mas estes directores-gerais, estes gabinetes jurídicos
e estes partidos com subsídio público…
francamente, ultrapassaram-me."

Portugal tornou-se uma epopeia de resistência administrativa. Já não se canta:

"Por mares nunca dantes navegados…"

Agora canta-se:

"Por portais nunca dantes carregados,
entre anexos, passwords e declarações,
mais do que prometia a força humana,
sofreu o povo luso as submissões."

E, mesmo assim, cá estamos. Amolgados, exaustos, irónicos — mas ainda com uma centelha na lanterna.

- Francisco Gonçalves
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.