A Dívida, a Criança e o Professor de Paris

Enquanto Portugal apertava o cinto até à última fivela, houve quem descobrisse em Paris que pagar dívidas era uma ideia infantil. Curiosamente, os adultos ficaram cá a pagar a brincadeira.

Há frases que não são frases: são radiografias. Mostram ossos, fracturas, vaidades, luxos mentais e aquela curiosa doença nacional das elites, que consiste em transformar a desgraça dos outros numa tese de café com tradução francesa.

Em 2011, quando Portugal vivia de joelhos perante a Troika, com o FMI a medir a respiração financeira do país como quem mede a febre a um moribundo, José Sócrates foi citado pelo Jornal de Negócios como tendo dito: "Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei."

Magnífico. Sublime. Quase dava vontade de mandar imprimir a frase em azulejo e colocá-la à entrada do Ministério das Finanças, mesmo ao lado de uma caixa de aspirinas para contribuintes.

Porque, evidentemente, o povo português não tinha percebido nada. Andava uma nação inteira preocupada com cortes, impostos, desemprego, empresas fechadas, jovens emigrados, reformas encurtadas e famílias a fazer contas ao supermercado, quando afinal tudo não passava de uma questão de maturidade intelectual. Pagar dívidas era coisa de crianças. Gerir dívidas eternas, isso sim, era matéria de adultos muito estudados.

O problema é que os Estados podem ter dívidas eternas, mas os portugueses têm contas mensais. A electricidade não aceita seminários de Ciência Política. O banco não perdoa prestações com citações académicas. O senhorio não recebe ensaios sobre dívida soberana. E a mercearia, essa instituição reaccionária, continua a exigir pagamento em euros, não em maturidades roladas.

Mais tarde, perante a tempestade, Sócrates explicou à RTP que se referia ao pagamento integral e imediato da dívida. Tecnicamente, a explicação tem pé: nenhum Estado moderno liquida toda a dívida como quem paga a conta do jantar. Mas politicamente, a frase já tinha saltado da gaiola. E quando uma frase destas foge, não volta a casa: fica a circular nas ruas, com cartola, bengala e ar de escárnio.

O burlesco da situação está no contraste. O país real vivia em austeridade; o país discursivo explicava a eternidade da dívida. O cidadão comum era chamado à responsabilidade; a elite falava de gestão. Uns pagavam juros, outros davam lições. Uns perdiam rendimento, outros ganhavam distância. Uns tinham recibos, outros tinham teorias.

E assim Portugal descobriu uma nova ciência económica: a dívida dos Estados é eterna, mas o sacrifício do povo é imediato. A responsabilidade pública pode ser abstracta, mas a factura é sempre concreta. O défice tem gráficos; a pobreza tem cara. A dívida rola; o contribuinte tropeça.

Talvez a frase devesse ser corrigida para uso nacional:

"Pagar a dívida é ideia de criança; pagar os erros dos adultos é destino de contribuinte português."

E pronto. Fechou-se a aula. O professor regressou ao quadro, a Troika ficou com a régua, e o povo, como sempre, foi chamado para limpar a sala depois da lição.

Referências

  1. Jornal de Negócios — "José Sócrates: 'Pagar a dívida é ideia de criança'": ligação
  2. RTP — "José Sócrates explica declarações sobre pagamento da dívida": ligação

Crónica burlesca de opinião
Por Francisco Gonçalves, com co-autoria editorial de Augustus Veritas.

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