A Arte de Escolher os Melhores
E de competir apenas connosco próprios

A verdadeira grandeza não está em vencer os outros. Está em não desistir de nos tornarmos melhores do que fomos ontem.

Há uma forma silenciosa de inteligência que raramente é ensinada nas escolas, pouco aparece nos currículos e quase nunca é celebrada nas empresas: a capacidade de escolher bem quem caminha connosco.

Escolher os melhores não é um acto de vaidade. É um acto de humildade. Só quem reconhece os seus próprios limites procura, com seriedade, gente capaz de os alargar. Só quem não tem medo do talento alheio consegue rodear-se de pessoas mais inteligentes, mais rigorosas, mais criativas ou mais experientes em determinadas áreas.

O medíocre escolhe obedientes. O inseguro escolhe sombras. O vaidoso escolhe plateia. O verdadeiro criador escolhe companheiros que o desafiem.

Porque trabalhar com os melhores não nos diminui. Amplia-nos. Obriga-nos a pensar melhor, a preparar melhor, a estudar mais, a ouvir com mais atenção, a corrigir mais depressa e a abandonar aquela confortável ilusão de que já sabemos o suficiente.

A exigência começa dentro

Mas escolher os melhores à nossa volta só faz sentido se formos também exigentes connosco próprios. Caso contrário, rodear-nos de talento torna-se apenas decoração. Uma espécie de biblioteca que nunca abrimos, cheia de livros bonitos e sabedoria por usar.

A exigência verdadeira não é brutalidade interior. Não é viver em permanente chicote mental. Não é transformar a vida numa sala fria de avaliação contínua. É outra coisa: é recusar a facilidade da auto-desculpa. É não aceitar a mediocridade como destino. É olhar para o que fizemos e perguntar, com serenidade mas sem complacência: podia ter sido melhor?

Muitas vezes podia.

E essa pergunta, quando feita com honestidade, é uma oficina. Dói um pouco, sim. Mas constrói. Afia. Limpa o excesso. Retira a ferrugem. Torna-nos menos dependentes do aplauso e menos vulneráveis à crítica injusta.

A competição errada

Vivemos numa época obcecada pela comparação. Compara-se tudo: carreiras, casas, viagens, salários, seguidores, cargos, prémios, títulos, aparências, fotografias, felicidades encenadas e sucessos cuidadosamente editados para consumo público.

As redes sociais fizeram da comparação uma doença de bolso. Cada ecrã é uma montra. Cada montra é uma provocação. Cada provocação parece dizer-nos que estamos atrasados em relação a alguém.

Mas essa é uma competição pobre. Porque competir com os outros é quase sempre competir com uma imagem incompleta. Vemos o resultado, não vemos o preço. Vemos o palco, não vemos os bastidores. Vemos o brilho, não vemos a fadiga. Vemos a vitória, não vemos as perdas que a acompanharam.

A comparação com os outros é uma bússola avariada. Tanto pode produzir inveja como arrogância. Se achamos que estamos abaixo, ressentimo-nos. Se achamos que estamos acima, adormecemos. Em ambos os casos, perdemos lucidez.

A única comparação realmente fértil é connosco próprios.

A nossa competição não é com os outros.
É com a pessoa que fomos ontem.

Ser melhor do que ontem

Ser melhor do que ontem parece pouco. Mas é quase tudo.

Um pouco mais lúcido. Um pouco mais rigoroso. Um pouco menos impaciente. Um pouco mais capaz de ouvir. Um pouco mais livre do ego. Um pouco mais resistente à mediocridade. Um pouco menos dependente da aprovação. Um pouco mais corajoso perante a verdade.

A vida não muda apenas por grandes rupturas. Muitas vezes muda por pequenas vitórias acumuladas em silêncio. Uma leitura que nos transforma. Uma conversa que nos corrige. Um erro que aceitamos. Uma decisão que tomamos com mais coragem. Uma pessoa melhor que escolhemos ter ao nosso lado. Uma tentação de mediocridade que recusamos.

A verdadeira evolução humana raramente se anuncia com trombetas. Cresce devagar, como uma árvore teimosa no meio do vento.

Os melhores não são os perfeitos

Escolher os melhores não significa escolher pessoas perfeitas. Pessoas perfeitas não existem, e as que se apresentam como tal costumam ser perigosas.

Os melhores são aqueles que acrescentam. Os que têm competência real. Os que dizem a verdade mesmo quando ela incomoda. Os que não precisam de nos bajular para estar connosco. Os que trabalham com seriedade. Os que pensam pela própria cabeça. Os que sabem discordar sem destruir. Os que não confundem humildade com submissão nem firmeza com arrogância.

Os melhores são também aqueles que nos impedem de ficar pequenos.

Às vezes, uma pessoa melhor do que nós numa determinada área é exactamente aquilo de que precisamos para não nos fecharmos na nossa própria pequena soberania. Há quem tema isso. Eu sempre vi nisso uma bênção. Porque cada pessoa excelente que encontramos é uma fronteira que se abre.

A inveja como prisão

Uma sociedade medíocre tem medo dos melhores. Tolera-os enquanto são úteis, ataca-os quando brilham, ignora-os quando incomodam, tenta domesticá-los quando não consegue vencê-los.

A inveja é talvez uma das formas mais tristes de desperdício humano. Em vez de aprender com quem sabe, procura reduzi-lo. Em vez de se elevar, tenta puxar para baixo. Em vez de perguntar "o que posso aprender?", pergunta "como posso diminuir?".

É por isso que tantos ambientes profissionais se tornam pântanos. Não por falta de talento, mas por medo dele. Não por ausência de inteligência, mas por hostilidade à inteligência livre. Não por escassez de capacidade, mas por excesso de ego frágil sentado em cadeiras de chefia.

Onde a inveja manda, os melhores saem. Onde os melhores saem, ficam os obedientes. Onde ficam apenas os obedientes, a mediocridade organiza-se em regulamento.

A liderança que aprende

Liderar não é estar acima de todos. É ser capaz de criar um espaço onde os melhores possam dar o seu melhor sem serem esmagados pela insegurança de quem manda.

Um líder verdadeiro não precisa de ser o mais inteligente da sala em todos os assuntos. Precisa de ser suficientemente inteligente para perceber quem sabe mais, suficientemente humilde para ouvir, suficientemente firme para decidir e suficientemente justo para reconhecer mérito.

A liderança que aprende é rara porque exige uma virtude difícil: segurança interior. Quem se sente ameaçado por pessoas competentes transforma a equipa num espelho do seu medo. Quem se sente ampliado por elas transforma a equipa numa oficina de futuro.

Nas empresas, como na vida, há uma escolha permanente entre cercarmo-nos de ecos ou de consciências. Os ecos confortam. As consciências melhoram-nos.

A lição antiga

A sabedoria popular, quando nasce da observação profunda da vida, consegue dizer em poucas palavras aquilo que muitos tratados complicam durante centenas de páginas.

A frase que tantas vezes ouvi da minha mãe continua a acompanhar-me:

"Junta-te aos bons e serás melhor que eles;
junta-te aos maus e serás pior que eles."

É uma frase simples. Mas a vida confirma-a com uma precisão quase matemática. As companhias elevam ou degradam. Os ambientes libertam ou deformam. As equipas puxam-nos para cima ou para baixo. As pessoas com quem caminhamos tornam-se, de algum modo, parte do caminho que acabamos por seguir.

Talvez por isso escolher os melhores seja também uma forma de escolher o nosso próprio destino.

Conclusão — a vitória silenciosa

A verdadeira vitória não é esmagar os outros. Não é coleccionar títulos. Não é parecer maior numa fotografia social. Não é vencer uma corrida que talvez nem valesse a pena correr.

A verdadeira vitória é chegar ao fim de cada etapa um pouco mais inteiro, mais lúcido, mais capaz, mais livre e mais fiel àquilo que em nós ainda procura altura.

Escolher os melhores é uma forma de humildade activa. Ser exigente connosco próprios é uma forma de respeito pela vida. Competir apenas com a nossa versão anterior é uma forma de liberdade.

Porque quando deixamos de competir com os outros, começamos finalmente a construir-nos.

E talvez seja essa a maior arte: atravessar o mar revolto com gente boa a bordo, olhos atentos no horizonte e a coragem serena de tentar, todos os dias, ser um pouco melhor do que fomos ontem.

Nota editorial

Em Fragmentos do Caos, acreditamos que a excelência não nasce da vaidade, mas da exigência. Não nasce da competição cega, mas da vontade íntima de crescer. Não nasce do medo dos melhores, mas da coragem de caminhar com eles.

Num país onde tantas vezes a mediocridade se protege em grupo, escolher pessoas melhores, mais capazes, mais lúcidas e mais livres é também um acto de resistência.

A inteligência dos outros não deve ser vista como sombra sobre nós, mas como luz disponível no caminho. Quem teme essa luz talvez nunca tenha querido verdadeiramente crescer.

Fragmentos do Caos
Uma reflexão de : Francisco Gonçalves.

Uma reflexão pessoal sobre a exigência, a escolha dos melhores, a recusa da mediocridade e a única competição que realmente importa: a que travamos connosco próprios.

Porque o futuro pertence aos que não têm medo de aprender com quem sabe mais.

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.