Idosos a sair de um lar degradado com um relógio a contar

📷 "O problema não são os velhos. É eles teimarem em não morrer a horas." — Caderno de encargos do SNS, edição 2026 (ficção, infelizmente).

SNS em crise? A culpa é dos velhos que não morrem quando devem

Crónica de uma descoberta genial: a longevidade é uma rebeldia. Os idosos que teimam em viver estão a boicotar o plano de sustentabilidade da Segurança Social.

Vamos dar razão aos nossos iluminados governantes. Afinal, o problema do Serviço Nacional de Saúde nunca foram as más gestões, os hospitais degradados, os salários de miséria dos enfermeiros ou a falta crónica de médicos de família. Não. O grande entrave, a pedra no sapato que emperra o sistema, são os velhos que teimam em não morrer. Sim, leu bem, caro leitor. A culpa do caos nas urgências, das listas de espera que se eternizam, é dessa gente ingrata que, depois de uma vida a descontar, ainda tem o desplante de querer ser tratada e continuar a respirar.

A lógica é de uma simplicidade brilhante, digna dos maiores estrategas da nação. Juntaram o papel e a caneta e concluíram: há cada vez mais velhos no país. Portanto, mais velhos significa mais doenças, mais consultas, mais cirurgias, mais pensões, mais despesa. A conclusão óbvia, a única solução matemática para equilibrar as contas, é portanto diminuir o número de velhos. E como é que se diminui o número de velhos, perguntam vocês? Não, não é a melhorar as condições dos lares (isso até os mantém vivos por mais tempo). A solução, meus caros, é que eles comecem a cumprir o seu destino com um pouco mais de celeridade.

💬 A propósito de "sustentabilidade", vale a pena recordar esta joia de lucidez proferida por uma antiga ministra das Finanças:

"Tem sempre direito [à hemodiálise] se pagar."

— Manuela Ferreira Leite, programa "Contracorrente", SIC Notícias, janeiro de 2012

Na prática, para os maiores de 70 anos sem posses: adeus, rins. O Estado agradece a poupança.

🎬 Pondé: "A farsa do politicamente correcto" aplicada à gestão da velhice — entre a cruz e a espada, o Estado prefere que a cruz chegue mais cedo.

A lógica implacável do "Quanto menos, melhor"

🏚️ Os lares: máquinas de adiar o inevitável (com lucro)

A genialidade do sistema vai mais longe. Construíram lares de idosos que são verdadeiras antecâmaras do céu. Comida duvidosa, horários de medicação que ninguém respeita, camaratas com 6 camas, actividades de "estimulação cognitiva" que se resumem a ver televisão durante 14 horas seguidas. A ideia, julgaríamos, é que os velhos partam desta para melhor o mais rápido possível. E muitos até colaboram, coitados, para alívio das contas públicas.

Mas há sempre os rebeldes. Aqueles que, apesar de tudo, de todas as condições adversas, de todos os desincentivos, continuam ali. A viver. A ocupar camas. A consumir recursos. O desaforo! E o que é que o Estado faz para os convencer a desistir? Nada. Anda distraído, a contar os euros que eles custam.

📊 A contabilidade macabra (com números reais)

• Idosos em Portugal: 2,2 milhões de pessoas com mais de 65 anos.
• Despesa do SNS com >65 anos: 2,7 mil milhões de euros (40% do orçamento).
• Capacidade dos lares: menos de 100 mil lugares.
• Esperança média de vida aos 65 anos: 20 anos. Vinte anos a gastar dinheiro. Um ultraje fiscal (na visão dos gestores públicos).

A solução inevitável: uma "reforma" do sistema (literalmente)

⏳ 1. Reforma aos 60, abate aos 75
Proposta inovadora: toda a gente se reforma aos 60. Mas aos 75, se ainda estiver vivo, é sujeito a uma "revisão de vida". O Estado agradece a compreensão.
🏥 2. SNS: só para quem promete morrer rápido
No acto de inscrição, o utente com mais de 70 anos assina um termo de responsabilidade: "Comprometo-me a não ultrapassar os 80 anos, sob pena de perder o direito a cuidados intensivos."
🏡 3. Lares com "incentivos à partida"
Sorteio mensal de uma viagem só de ida para Fátima (para quem acredita) ou para o Algarve (para quem quer um fim de semana em grande).
📉 4. Plano Nacional de Sustentabilidade (PNS) – "Menos um, mais um"
Cada vez que um idoso morre, o governo oferece um desconto no IUC ao familiar mais novo. Renovação geracional em andamento.
🗣️ "Sr. Idoso, o senhor já devia ter morrido há cinco anos. Poupe-nos o trabalho e a despesa. Assine aqui, por favor." — Rascunho de um panfleto do Ministério da Saúde (encontrado num caixote do lixo do Infarmed, 2026).

O lado trágico da comédia: eles estão a falar a sério

O mais impressionante de tudo, caro leitor, é que esta loucura não é uma sátira. É o discurso real de alguns dos nossos gestores públicos. Ouviram-se, nas últimas semanas, altas individualidades a lamentar-se do "peso dos idosos" nas contas da saúde e da segurança social. Como se as pessoas fossem um passivo, um encargo, uma fatura a pagar. Como se aqueles que construíram o país, que descontaram décadas, que criaram os filhos que agora trabalham, fossem agora um "problema demográfico" a resolver com meias-palavras e cortes orçamentais.

Esta crónica podia ser uma gargalhada. Mas só nos apetece chorar. Porque a comédia é negra, e o riso fica preso na garganta quando percebemos que não há qualquer intenção de melhorar os lares, de dignificar o envelhecimento, de valorizar os nossos avós. Há apenas a contabilidade macabra de um Estado que já não sabe o que fazer com tanta gente viva. E por isso, caro idoso, peça desculpa. E apresse-se. Que o Estado tem contas para fechar.

Sombra de Dúvida
nem todas as certezas merecem descanso

📌 "Estas pessoas continuam cá e isso estraga-nos o Excel."


✍️ Crónica publicada em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.

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