Portugal, o Pântano: quando um emprego já não chega para viver

BOX DE FACTOS
- O número de trabalhadores com dois ou mais empregos em Portugal atingiu em 2025 um máximo anual superior a 267 mil pessoas, segundo notícia do Jornal de Notícias.
- Dados do INE indicavam que, no 3.º trimestre de 2025, 177 mil pessoas mantinham dois ou mais empregos e 80,9 mil tinham passado de um único emprego para dois ou mais.
- A Reuters assinalou que Portugal continua entre os países mais pobres da Europa Ocidental, com mais de metade dos trabalhadores a auferirem menos de 1.000 euros mensais em 2024.
- O jornal francês Le Monde descreveu Portugal como um país onde trabalhar dois ou três empregos se tornou cada vez mais comum, apesar dos bons indicadores macroeconómicos.
- A OCDE identifica em Portugal problemas estruturais persistentes: baixa produtividade, contratos temporários, envelhecimento demográfico, défices de qualificação e dificuldade em criar empregos de maior valor acrescentado.
Portugal, o Pântano: quando um emprego já não chega para viver
Há estatísticas que não são apenas números. São radiografias de uma doença antiga. O crescimento do número de trabalhadores com dois ou mais empregos em Portugal é uma dessas radiografias: fria na forma, brutal no conteúdo. Mostra um país que proclama crescimento, estabilidade orçamental, turismo florescente, investimento estrangeiro e discursos ministeriais com perfume de PowerPoint, mas onde demasiadas pessoas já não conseguem viver com o rendimento de um só trabalho.
Segundo notícia do Jornal de Notícias, o número de trabalhadores com dois ou mais empregos atingiu em 2025 um máximo anual superior a 267 mil pessoas. O próprio INE já sinalizava esta tendência: no terceiro trimestre de 2025, 177 mil pessoas continuavam a ter dois ou mais empregos e 80,9 mil tinham transitado de um único emprego para dois ou mais empregos, segundo dados das estatísticas de fluxos do mercado de trabalho.
Esta realidade não é sinal de dinamismo económico. Não é, na maioria dos casos, uma celebração da liberdade profissional, da criatividade empreendedora ou da "economia flexível". É antes o retrato de um país onde o primeiro salário já não chega para pagar a casa, a alimentação, os transportes, a energia, os medicamentos, a educação dos filhos e a pequena dignidade de existir sem andar todos os meses à beira do abismo.
A grande fraude da economia robusta
Portugal gosta de se apresentar como um caso de sucesso: desemprego relativamente baixo, crescimento económico moderado, contas públicas controladas, dívida a descer, turismo em alta, cidades cheias de estrangeiros encantados com o sol, a sardinha e a pastelaria emocional da "qualidade de vida".
Mas há uma diferença profunda entre uma economia que cresce e uma sociedade que melhora. Uma economia pode crescer sobre trabalho barato, habitação inacessível, precariedade persistente e famílias exaustas. Pode crescer como cresce uma planta em solo contaminado: aparentemente verde, mas envenenada na raiz.
O Le Monde descreveu esta contradição com clareza: apesar dos bons indicadores macroeconómicos, muitos portugueses são esmagados por baixos salários, inflação e rendas elevadas, sendo forçados a acumular dois ou três empregos para conseguir pagar as contas.
A Reuters foi ainda mais directa: Portugal continua a ser um dos países mais pobres da Europa Ocidental, com dados oficiais a mostrarem que mais de metade dos trabalhadores recebia menos de 1.000 euros por mês em 2024. O salário mínimo, então de 870 euros, permanecia entre os mais baixos da União Europeia.
E aqui está o paradoxo português: há emprego, mas não há vida. Há actividade económica, mas não há horizonte. Há recibos, contratos, horários, turnos, horas extraordinárias, biscates, plataformas digitais e prestação de serviços, mas falta aquilo que deveria ser o núcleo civilizacional do trabalho: permitir a uma pessoa viver com decência.
O trabalhador duplicado
Durante décadas falou-se do "trabalhador pobre". Portugal, sempre criativo na arte de inventar tragédias discretas, está agora a produzir uma nova categoria social: o trabalhador duplicado.
É o enfermeiro que faz turnos extra. É o professor que dá explicações. É o técnico qualificado que faz trabalhos por fora. É a empregada de limpeza que aceita mais casas ao fim do dia. É o imigrante que empilha horas em sectores de baixa remuneração. É o jovem licenciado que trabalha numa empresa durante o dia e faz entregas à noite. É o arquitecto que tira fotografias ao fim-de-semana. É o informático que faz suporte extra para compensar um salário nacional que parece ter sido desenhado por monges ascetas com aversão à prosperidade.
Não se trata de ambição. Trata-se de compensação. Não se trata de liberdade. Trata-se de insuficiência.
O duplo emprego é a confissão estatística de que o emprego principal falhou. Quando uma sociedade precisa de segundos empregos em massa, está a dizer, sem coragem para o admitir, que o primeiro emprego já não cumpre a sua função social.
A precariedade como arquitectura nacional
A precariedade em Portugal não é um acidente. É uma arquitectura. Está entranhada no modelo económico, nos sectores de baixo valor acrescentado, na dependência do turismo, na pequena empresa subcapitalizada, na má gestão crónica, na baixa produtividade, na cultura empresarial de sobrevivência e na incapacidade política de pensar o país para lá do próximo ciclo eleitoral.
A OCDE, no seu estudo sobre Portugal, reconhece que o mercado de trabalho português recuperou fortemente após a pandemia, mas alerta para tensões estruturais: envelhecimento, escassez de qualificações, contratos temporários e não convencionais ainda muito disseminados, sobretudo entre jovens e trabalhadores menos qualificados. A mesma análise sublinha que reduzir o peso dos contratos temporários aumentaria os incentivos à formação e à produtividade.
A plataforma académica IZA World of Labor sintetiza o problema com rara precisão: o mercado laboral português tornou-se mais flexível, mas continua preso a problemas profundos de precariedade e baixos salários; a produtividade estagnou durante mais de duas décadas e Portugal permanece como país de baixos salários dentro da União Europeia.
A palavra "flexibilidade" tornou-se, neste país, uma bela cortina semântica. Em teoria, significa adaptação. Na prática, demasiadas vezes significa fragilidade para quem trabalha e margem de manobra para quem contrata. Flexível é o trabalhador que aceita horários partidos, fins-de-semana, contratos curtos, salários baixos e a permanente ameaça de substituição. Rígida, curiosamente, continua a ser a estrutura que concentra rendimento, património e poder.
Imigração: o espelho incómodo
A imigração pesa nesta realidade, mas não deve ser usada como bode expiatório. O problema não são os imigrantes. O problema é o modelo económico que os recebe como mão-de-obra necessária, mas frequentemente os integra nos sectores mais frágeis, mais mal pagos e mais expostos à exploração.
O imigrante não inventou o baixo salário português. Chegou a um edifício que já estava torto. Muitas vezes, apenas ocupa os andares inferiores de uma construção laboral que sempre viveu de gente barata, silenciosa e substituível.
Há, porém, uma consequência evidente: quando uma economia depende de baixos salários para sobreviver, a imigração pode ser instrumentalizada para conter remunerações, preencher sectores pouco atractivos para os nacionais e adiar reformas estruturais. Em vez de subir salários, melhorar condições e automatizar processos, muitos sectores preferem importar urgência humana. É mais barato. E Portugal, quando se trata de confundir barato com inteligente, tem um doutoramento honoris causa.
Habitação: o segundo imposto sobre o trabalho
O problema do duplo emprego não pode ser separado da crise da habitação. Trabalhar mais tornou-se, para muitos, a única forma de tentar acompanhar rendas e prestações que subiram muito mais depressa do que os salários.
O The Guardian escreveu sobre a tentativa do Governo português de travar a emigração jovem através de benefícios fiscais, assinalando que cerca de 850 mil jovens portugueses — aproximadamente 30% dos que tinham entre 15 e 39 anos — tinham deixado o país em algum momento, em grande parte por causa dos baixos salários e das más condições laborais.
A habitação transformou-se num segundo imposto sobre o trabalho. Não aparece no recibo de vencimento, mas devora-o. O salário entra pela porta e sai pela renda como um fugitivo apressado. O jovem trabalha, estuda, qualifica-se, paga impostos, mas não consegue sair de casa dos pais. O adulto trabalha dois empregos e continua a viver em sobressalto. A família corta no lazer, na saúde, na cultura, na poupança, na esperança.
Um país onde a habitação absorve a vida é um país que cobra portagem à existência.
O pântano moral
Portugal não está apenas num problema económico. Está num pântano moral.
Porque há uma indecência profunda em celebrar estatísticas de emprego quando o emprego já não garante autonomia. Há uma violência silenciosa em chamar "resiliência" ao desespero. Há uma obscenidade política em falar de "competitividade" quando essa competitividade continua demasiadas vezes assente em salários baixos, horários longos e expectativas reduzidas.
A economia portuguesa habituou-se a viver numa espécie de anestesia: os pobres trabalham, os jovens emigram, os imigrantes compensam a demografia, os reformados ajudam os filhos, os filhos voltam para casa dos pais, os patrões queixam-se da falta de mão-de-obra, os governos anunciam programas, e tudo continua a boiar no mesmo charco.
Chamam-lhe mercado. Mas por vezes parece apenas uma máquina de moer tempo humano.
O que teria de mudar
A resposta não está em slogans fáceis. Nem basta subir salários por decreto, embora o salário mínimo e a contratação colectiva sejam instrumentos importantes. O problema é mais profundo: Portugal precisa de mudar a matriz produtiva, abandonar a dependência excessiva de sectores de baixo valor, investir em tecnologia, indústria avançada, ciência aplicada, energia, engenharia, inteligência artificial, biotecnologia, defesa tecnológica, software, automação e serviços exportáveis de alta complexidade.
É preciso criar empresas que paguem melhor porque produzem melhor. É preciso formar gestores que não confundam liderança com extracção. É preciso reduzir a burocracia que esmaga quem cria valor real e combater as rendas protegidas que alimentam intermediários improdutivos. É preciso ligar universidades, empresas e Estado numa estratégia nacional de produtividade. É preciso deixar de tratar o turismo como destino civilizacional e começar a tratá-lo como aquilo que deve ser: um sector importante, mas incapaz de sustentar sozinho uma nação moderna.
Portugal não precisa de mais discursos sobre talento. Precisa de condições para que o talento não fuja, não se esgote e não tenha de fazer entregas à noite depois de programar, ensinar, cuidar, desenhar, reparar, investigar ou servir durante o dia.
Epílogo: a vida não devia precisar de segundo turno
O aumento do duplo emprego é uma denúncia. Não grita nas ruas todos os dias, não parte montras, não ocupa telejornais com dramatismo. Mas está lá, silencioso, persistente, humano. Está no cansaço de quem chega a casa tarde. Está no pai que vê menos os filhos. Está na mulher que junta três trabalhos invisíveis. Está no jovem que olha para o futuro como quem olha para uma parede. Está no imigrante que aceita o que pode porque precisa de sobreviver. Está no português que trabalha demais e vive de menos.
Um país decente não deveria exigir dois empregos para garantir uma vida simples. Um país moderno não deveria transformar a sobrevivência em prova de carácter. Um país livre não deveria obrigar os seus cidadãos a escolher entre descansar e pagar contas.
Portugal precisa de sair do pântano. Mas para sair do pântano é preciso, primeiro, deixar de fingir que estamos num jardim.
Referências internacionais e fontes consultadas
- Le Monde — In Portugal, working two or three jobs is increasingly common
- Reuters — Tens of thousands march in Lisbon against planned labour changes
- OCDE — Strengthening labour market resilience in Portugal
- IZA World of Labor — The labour market in Portugal, 2000-2024
- Associated Press — Tens of thousands in Portugal protest proposed labor reforms
- The Guardian — Portugal proposes decade of tax breaks for young people to stem brain drain
- Jornal de Notícias — Duplo emprego atinge máximo num mercado de trabalho instável e de baixos salários
Texto: Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial: Augustus Veritas, ao serviço do pensamento crítico, da lucidez democrática e da insubmissão perante a mediocridade organizada.