Crónica humorística: Portugal e o Serviço Nacional de Apocalipse

BOX DE FACTOS
- Portugal transformou a meteorologia numa dramaturgia nacional permanente.
- No Verão, o calor parece sempre surpreender quem governa; no Inverno, a chuva surge como se fosse invasão estrangeira.
- A televisão converte cada estação do ano numa narrativa de emergência.
- Entre seca, cheias, apoios, subsídios e conferências, o país vai confundindo prevenção com encenação.
- Esta crónica defende uma ideia simples: governar é preparar o território para o previsível, não fingir surpresa quatro vezes por ano.
Portugal e o Serviço Nacional de Apocalipse
Portugal sofre hoje de uma doença moderna, muito espalhada e ainda sem vacina conhecida: a meteorologia dramática com acompanhamento orçamental.
Antigamente, havia Verão.
Era simples.
Chegava Junho, o sol punha o chapéu na cabeça, o Alentejo transformava-se numa frigideira teológica, os carris da linha férrea pareciam amolecer como esparguete industrial, as cigarras gritavam como sindicalistas do reino animal, e ninguém achava aquilo extraordinário.
Chamava-se Verão.
Depois vinha o Inverno.
Chovia, fazia frio, havia nevoeiro, geada, rios cheios, caminhos enlameados, roupa que nunca secava e nevões na Beira Baixa, às vezes com aquela dignidade branca que fazia das aldeias pequenos presépios gelados.
Chamava-se Inverno.
Hoje, não.
Hoje já não há estações do ano.
Há alertas.
O Verão como trailer do fim do mundo
Há dois dias de calor e as televisões entram em modo profeta bíblico.
O país é imediatamente informado de que estamos perante "temperaturas extremas", "episódios severos", "risco elevado", "fenómenos fora do comum" e, por fim, a expressão suprema da liturgia contemporânea: "as alterações climáticas estão aí".
Claro que estão.
O clima existe, muda, agrava-se em muitos aspectos e merece estudo sério.
Mas uma coisa é ciência; outra coisa é transformar cada domingo quente numa espécie de trailer do fim do mundo, com música de violoncelo, jornalista em mangas arregaçadas junto a uma fonte seca e imagens de pessoas a beber água como se estivessem a despedir-se da civilização.
Ao terceiro dia de calor, surge o agricultor televisivo.
Está junto a uma plantação triste, de boné inclinado, olhar grave e voz de quem já viu muitas colheitas e poucos ministros.
Explica que, se não chover, está falido.
A câmara aproxima-se de uma folha ressequida.
O país comove-se.
O Governo reúne.
A Europa suspira.
Os subsídios começam a aquecer em banho-maria administrativa.
Quando chove, também é o fim do mundo
Depois chove.
Chove bem.
Chove a sério.
Chove como antigamente chovia, com aquele entusiasmo atlântico de quem lava telhados, valetas, memórias e promessas eleitorais.
E então o mesmo país, que há três dias morria de sede, passa a morrer afogado.
A televisão muda de cenário.
Sai o campo seco, entra a estrada alagada.
Sai o agricultor da folha queimada, entra o agricultor da batata submersa.
E a conclusão é invariável: também precisa de apoios.
Se faz calor, há prejuízo.
Se faz frio, há prejuízo.
Se chove pouco, há prejuízo.
Se chove muito, há prejuízo.
Se não neva, há prejuízo turístico.
Se neva, há prejuízo rodoviário.
Se há vento, caiu uma estufa.
Se não há vento, as eólicas entristecem.
Se há sol, seca.
Se não há sol, depressão sazonal.
A única constante climática verdadeiramente portuguesa é o requerimento.
O Serviço Nacional de Apocalipse
Temos hoje uma espécie de Serviço Nacional de Apocalipse, permanentemente em funcionamento, com boletins, rodapés televisivos, especialistas em estúdio, mapas coloridos e aquela voz grave dos pivôs quando dizem:
"Portugal continental encontra-se sob aviso amarelo."
O aviso amarelo, convém recordar, é a cor oficial do susto moderado.
Não mata, mas dá audiência.
A meteorologia passou a ter dramaturgia.
Já não se diz "vai chover".
Diz-se "vem aí uma depressão".
O cidadão imagina logo um fenómeno atmosférico sentado no sofá, de roupão, a ouvir fado e a pensar na dívida pública.
Já não se diz "vai fazer calor".
Diz-se "massa de ar quente vinda do Norte de África".
Fica logo mais cinematográfico.
O calor já não vem; invade.
A exaustão de ver o fim do mundo em alta definição
E o português, coitado, assiste.
Vê imagens de incêndios, cheias, campos secos, campos alagados, agricultores desesperados, autarcas de botas, ministros de colete fluorescente, jornalistas molhados até aos ossos e especialistas que explicam tudo com gráficos onde a linha sobe sempre.
A linha nunca desce.
Se desce, é porque vai subir de forma mais preocupante.
No fim do telejornal, o país está exausto.
Não por ter vivido a catástrofe, mas por a ter visto em alta definição.
Há aqui uma mudança cultural profunda.
O português antigo tinha uma relação dura, mas quase filosófica, com as estações.
Sabia que o Verão era quente, o Inverno era frio, a Primavera era traiçoeira e o Outono trazia uma melancolia húmida que entrava pelos ossos.
Não precisava de uma conferência de imprensa para saber que em Agosto convinha não andar a cavar ao meio-dia, nem de uma aplicação no telemóvel para perceber que em Janeiro a serra podia trazer neve.
Hoje, o país parece surpreendido por tudo.
O calor em Julho é recebido como uma quebra de contrato.
A chuva em Novembro surge como abuso de confiança.
O frio em Janeiro é tratado como sabotagem russa.
E a trovoada, essa antiga senhora de mau feitio, já só aparece acompanhada de directos televisivos e conselhos de Protecção Civil.
O território abandonado e a surpresa encenada
Entretanto, as estruturas continuam frágeis.
As ribeiras foram entubadas.
As linhas de água foram ocupadas.
As florestas foram abandonadas.
Os campos perderam gente.
As aldeias envelheceram.
A agricultura vive entre a burocracia, o gasóleo, a seca, a chuva, o banco e Bruxelas.
O território foi mal tratado durante décadas.
Mas, quando acontece o previsível, fazemos todos cara de espanto nacional.
O subsídio como guarda-chuva nacional
E no meio disto tudo há o espectáculo dos apoios.
A palavra "subsídio" nunca aparece sozinha.
Vem sempre vestida de urgência, solidariedade, calamidade, resiliência, mitigação, transição, recuperação, coesão ou, quando a coisa é europeia, com siglas suficientes para parecer engenharia aeroespacial.
Não se pede dinheiro.
Solicita-se enquadramento financeiro no âmbito de instrumento extraordinário de compensação.
Fica logo mais digno.
E atenção: há prejuízos reais, agricultores verdadeiramente afectados, famílias em dificuldade, territórios esquecidos e alterações climáticas que devem ser levadas a sério.
O problema não está na ajuda justa.
Está no teatro repetido, no reflexo automático, na transformação de cada nuvem num orçamento, de cada onda de calor numa conferência, de cada tragédia previsível numa oportunidade de aparecer com botas novas junto a uma vala.
Portugal não precisa de negar o clima.
Precisa de deixar de o usar como telenovela.
Menos drama, mais governo
Precisamos de planeamento, gestão da água, limpeza séria das matas, agricultura adaptada, ordenamento do território, barragens bem pensadas, ferrovia decente, protecção civil preparada, autarquias competentes e menos jornalistas a perguntar a um turista inglês se está calor em Lisboa.
Sim, está calor.
É Lisboa.
É Julho.
O homem veio de Manchester.
Para ele isto é uma experiência religiosa com protector solar.
A verdadeira tragédia portuguesa talvez seja esta: conseguimos transformar a natureza, que já era exigente, numa repartição emocional.
O Verão já não é Verão: é crise térmica.
O Inverno já não é Inverno: é emergência hídrica.
A chuva já não cai: ameaça.
O sol já não brilha: agride.
O vento já não sopra: provoca ocorrências.
E o povo, sentado no sofá, vê o Apocalipse em episódios diários, entre anúncios de supermercados e debates sobre quem devia ter feito o quê antes de ninguém ter feito nada.
Conclusão: quando chove molha, quando não chove seca
No fim, Portugal continua.
Com calor, com chuva, com frio, com vento, com subsídios, com indignações e com uma admirável capacidade de sobreviver ao drama que ele próprio encena.
Talvez devêssemos recuperar uma antiga sabedoria rural, simples e robusta:
Mas isso talvez fosse demasiado revolucionário.
E, além disso, dava menos directos.
Fragmentos do Caos
Artigo da autoria de A Sombra da Dúvida.
Porque o humor é, às vezes, a última capa de chuva antes da enxurrada da estupidez organizada.