A Presumível Vítima José Sócrates

Quando se fala em "assassínio de carácter", talvez convenha perguntar primeiro se ainda havia carácter político por assassinar.

Quando, a propósito de um ex-primeiro-ministro acusado de crimes graves, se fala em "assassínio de carácter", convém talvez fazer uma pausa e perguntar: de que carácter estamos exactamente a falar?

Mesmo respeitando o princípio essencial da presunção de inocência — porque sem ele não há Estado de Direito — há uma dimensão política, moral e histórica que não pode ser apagada por uma expressão bem colocada.

José Sócrates governou Portugal num período que terminou com o país à beira do colapso financeiro, com pedido de assistência externa, austeridade, empobrecimento, degradação da confiança pública e uma sucessão de decisões políticas que os portugueses viram acontecer diante dos seus olhos.

Viram manipulação, arrogância de poder, captura do Estado, empresas públicas instrumentalizadas e uma governação que deixou marcas profundas no país real.

Os tribunais julgarão os crimes. E aqui bao resisto a ser irónico. Julgarão se ainda forem a tempo, antes dos crimes prescreverem!
No entanto a cidadania tem todo o direito de julgar o percurso político.

Por isso, quando agora se fala em "assassínio de carácter", a pergunta impõe-se com naturalidade:

Como se assassina aquilo que, politicamente, já parecia ter prescrito antes mesmo da acusação formal?

Talvez o problema de Portugal não seja apenas viajar pouco ou muito. Talvez seja ler pouco, recordar pouco e esquecer depressa demais.

Francisco Gonçalves
2026

🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
👁️ Esta página foi visitada ... vezes.