A Hipocrisia do Ocidente Perante o Mal Extremo

BOX DE FACTOS
- O Ocidente continua a oscilar entre discursos morais elevados e acções estratégicas incompletas.
- Os EUA e o Irão têm sido noticiados como estando envolvidos em negociações para conter a escalada e resolver pontos críticos como o estreito de Ormuz, sanções e o programa nuclear iraniano.
- A NATO classificou a China como "facilitador decisivo" da guerra da Rússia contra a Ucrânia, devido ao apoio à base industrial de defesa russa.
- A União Europeia mantém sanções relacionadas com o apoio militar do Irão, da Coreia do Norte e da Bielorrússia à agressão russa contra a Ucrânia.
- O Irão continua oficialmente designado pelos EUA como Estado patrocinador do terrorismo.
- O mundo livre enfrenta hoje uma convergência autoritária entre Rússia, China, Irão, Coreia do Norte e outros actores que exploram as hesitações das democracias.
A Hipocrisia do Ocidente
Perante o Mal Extremo
A grande hipocrisia do Ocidente contemporâneo está em proclamar valores universais enquanto hesita, recua, negoceia mal e tolera, por conveniência ou medo, a expansão organizada de regimes que desprezam esses mesmos valores.
Falamos de democracia, direitos humanos, liberdade, dignidade, soberania dos povos, Estado de direito e ordem internacional baseada em regras. Fazemos declarações solenes. Aprovamos resoluções. Sancionamos entidades. Reunimos em cimeiras. Emitimos comunicados de preocupação profunda, moderada, renovada, estratégica, integrada e, se necessário, multilateral.
Mas, perante o mal extremo, demasiadas vezes o Ocidente comporta-se como um gigante com consciência pesada e nervos frágeis.
O mal extremo não deve ser entendido aqui como metáfora religiosa nem como simplificação infantil do mundo. É uma designação política e moral para regimes que assassinam opositores, exportam terrorismo, esmagam mulheres, reprimem povos, invadem vizinhos, armam milícias, manipulam informação, ameaçam rotas marítimas, alimentam guerras por procuração e tratam vidas humanas como matéria descartável da sua ambição imperial ou ideológica.
Rússia, Irão, Coreia do Norte e China não são iguais entre si. Têm histórias, regimes, interesses e métodos diferentes. Mas existe entre eles uma convergência prática: enfraquecer o Ocidente, corroer a ordem internacional liberal, apoiar-se mutuamente quando lhes convém, contornar sanções, explorar dependências económicas e testar a paciência estratégica das democracias.
É uma arquitectura de pressão. Uma arquitectura do mal político organizado.
Atacar sem objectivo final: a receita da derrota política
Uma das maiores imprudências estratégicas é iniciar uma acção militar sem saber exactamente qual é o objectivo político final. Atacar para mostrar força e depois negociar em condições ambíguas pode produzir o pior dos dois mundos: destrói-se parte da capacidade do adversário, mas permite-se que ele sobreviva politicamente e proclame vitória moral.
Em geopolítica, a aparência conta. Um regime autoritário não precisa de vencer militarmente no sentido clássico. Precisa apenas de sobreviver, manter o aparelho repressivo, controlar a narrativa interna e mostrar aos seus aliados que resistiu ao "imperialismo ocidental".
Se os EUA atacam o Irão e depois procuram rapidamente uma saída negocial que deixa o regime de pé, o sinal enviado às ditaduras é perigosíssimo: o Ocidente ainda tem força para ferir, mas talvez já não tenha vontade para concluir.
E um adversário que percebe isso deixa de temer apenas a força. Passa a estudar os nervos de quem a possui.
A questão não é defender aventuras militares irresponsáveis. A questão é ainda mais séria: uma democracia madura não deve iniciar uma escalada militar se não souber que arquitectura política pretende construir depois. A força sem estratégia é ruído. A força sem objectivo é fogo-de-artifício com cadáveres. A força sem continuidade é propaganda oferecida ao inimigo.
O Irão e a arte de sobreviver à própria culpa
O regime iraniano construiu, durante décadas, uma rede de influência, intimidação e violência que atravessa o Médio Oriente. Através de milícias, grupos armados, financiamento ideológico, drones, mísseis, chantagem regional e repressão interna, Teerão transformou-se num dos centros mais activos da instabilidade global.
Ao mesmo tempo, aperfeiçoou uma técnica clássica dos regimes autoritários: provocar, negar, resistir, sofrer sanções, negociar alívios, ganhar tempo, reorganizar capacidades e apresentar qualquer sobrevivência como vitória.
O mundo livre olha para isto e chama-lhe diplomacia difícil. O regime chama-lhe método.
Quando se negoceia com um regime destes, não se está perante um interlocutor normal. Está-se perante uma estrutura de poder que usa a negociação como instrumento de tempo, a repressão como instrumento interno, as milícias como instrumento externo e a ambiguidade nuclear como instrumento de chantagem estratégica.
É por isso que o Ocidente falha quando separa artificialmente as peças do problema: programa nuclear para um lado, drones para outro, milícias para outro, terrorismo para outro, repressão interna para outro, estreito de Ormuz para outro. O regime é um sistema. A resposta também teria de ser sistémica.
A China: neutralidade de palco, cumplicidade de bastidor
A China apresenta-se como actor racional, moderado, defensor da estabilidade e do comércio global. Mas a realidade estratégica é menos perfumada.
A NATO afirmou, na Declaração da Cimeira de Washington de 2024, que a República Popular da China se tornou um facilitador decisivo da guerra russa contra a Ucrânia, através da sua parceria com Moscovo e do apoio em larga escala à base industrial de defesa russa. A declaração refere materiais de dupla utilização, componentes de armas, equipamento e matérias-primas que alimentam o sector de defesa russo.
Isto é central. A China não precisa de entrar formalmente numa guerra para alterar o seu curso. Basta fornecer retaguarda económica, industrial, tecnológica, diplomática e logística. Basta permitir que a Rússia continue a respirar, fabricar, comprar, vender, contornar e resistir.
Enquanto isso, a Europa continua dependente de cadeias industriais chinesas, importa produtos estratégicos, hesita perante sanções mais duras e fala de autonomia estratégica como quem recita poesia numa fábrica alugada.
A hipocrisia europeia está aqui em corpo inteiro: condena a agressão, mas teme cortar dependências; denuncia o autoritarismo, mas protege interesses comerciais; fala de soberania, mas terceiriza a sua base industrial; promete firmeza, mas calcula sempre até onde a firmeza pode incomodar o crescimento económico.
Rússia, Coreia do Norte e Irão: a oficina brutal da nova desordem
A guerra da Rússia contra a Ucrânia revelou uma verdade que o Ocidente demorou demasiado tempo a aceitar: os regimes autoritários aprendem depressa uns com os outros.
A Rússia recebe apoio industrial, tecnológico, militar ou diplomático de várias geografias. A Coreia do Norte fornece munições, mísseis e apoio militar. O Irão tem sido associado ao fornecimento de drones e mísseis. A Bielorrússia serve de plataforma subordinada. Outros países funcionam como corredores, lavandarias comerciais ou zonas cinzentas de evasão.
Não se trata de uma aliança nobre. É uma associação de conveniência entre regimes que se reconhecem na mesma hostilidade ao mundo liberal. Não precisam de amar-se. Basta-lhes partilhar inimigos.
E o inimigo comum é claro: a ideia de que os povos podem escolher o seu destino, que as fronteiras não devem ser alteradas pela força, que o poder deve ser limitado, que as mulheres não são propriedade do Estado, que os cidadãos não pertencem ao partido, que a imprensa não deve ajoelhar, que a justiça não deve servir o ditador e que a tecnologia deve libertar em vez de vigiar, matar e subjugar.
Este é o verdadeiro conflito do nosso tempo. Não é apenas Ocidente contra Oriente. Não é civilização contra civilização. É liberdade imperfeita contra tirania organizada.
A Europa: a hesitação como política externa
A Europa tem uma vocação quase artística para a hesitação. Hesita com elegância. Hesita com documentos. Hesita com grupos de trabalho. Hesita com linguagem jurídica. Hesita com notas diplomáticas. Hesita com prudência histórica. Hesita, por vezes, até que a realidade lhe entre pela porta com botas militares.
A União Europeia tem virtudes importantes: capacidade normativa, mercado interno, Estado social, direitos, diplomacia, cooperação, ciência, cultura, instituições. Mas falta-lhe frequentemente aquilo que os tempos duros exigem: poder coerente, rapidez estratégica, indústria de defesa suficiente, cultura de segurança e vontade de pagar o preço da sua própria liberdade.
A Europa quer ser potência moral sem ser potência estratégica. Quer defender a liberdade sem incomodar demasiado as cadeias de fornecimento. Quer enfrentar ditaduras sem perturbar mercados. Quer apoiar a Ucrânia sem admitir plenamente que a guerra da Ucrânia é também uma guerra pela segurança europeia.
Esta contradição é mortal. Porque os regimes autoritários não respeitam a virtude que não se consegue defender.
A Europa fala muitas vezes como Atenas, mas prepara-se como uma repartição municipal em greve de zelo.
Os EUA: força imensa, vontade intermitente
Os Estados Unidos continuam a ser a principal potência militar, financeira e tecnológica do mundo livre. Mas a sua política externa sofre, há anos, de uma doença perigosa: oscilação estratégica.
Ora intervêm, ora retiram. Ora ameaçam, ora negoceiam. Ora falam de liderança mundial, ora se cansam da própria liderança. Ora prometem defender aliados, ora tratam alianças como contratos comerciais. Ora fazem demonstrações de força, ora procuram acordos apressados que permitem ao adversário salvar a face.
Esta inconsistência é lida com atenção por Moscovo, Pequim, Teerão e Pyongyang.
Os regimes autoritários não analisam apenas porta-aviões, mísseis, bases e satélites. Analisam eleições, divisões internas, fadiga pública, ciclos mediáticos, polarização, líderes imprevisíveis, parlamentos hesitantes e opinião pública cansada.
Quando percebem que o Ocidente tem poder, mas não tem paciência; tem meios, mas não tem continuidade; tem tecnologia, mas não tem visão política duradoura — avançam. Talvez não sempre de frente. Muitas vezes por erosão, por provocação gradual, por guerra híbrida, por influência, por chantagem energética, por ataques informacionais, por intermediação comercial e por conflitos locais cuidadosamente alimentados.
A força americana continua imensa. Mas a sua credibilidade depende menos da força que possui e mais da coerência com que a usa.
A hipocrisia das sanções com buracos
As sanções tornaram-se o instrumento favorito das democracias quando querem parecer firmes sem entrar directamente em confronto. São necessárias, sem dúvida. Mas quando não são acompanhadas de fiscalização eficaz, sanções secundárias, rastreabilidade tecnológica, controlo financeiro, auditorias a intermediários e coragem para atingir redes de evasão, tornam-se muitas vezes um teatro de firmeza.
Sanciona-se no papel. Contorna-se na prática.
A Rússia continua a obter componentes. O Irão continua a procurar tecnologia. A Coreia do Norte fornece munições. A China fornece retaguarda industrial. Empresas de fachada aparecem e desaparecem. Países terceiros funcionam como estações de transbordo. Bancos, portos, distribuidores, transportadoras e jurisdições permissivas fazem o resto.
E depois os dirigentes ocidentais aparecem indignados quando descobrem que chips, sensores, módulos ou equipamentos ocidentais foram parar a sistemas militares inimigos.
A indignação tardia é a forma mais cómoda da irresponsabilidade.
O medo de escalar e a escalada dos outros
O Ocidente vive assombrado pelo medo de escalar. Esse medo não é ilegítimo. A guerra é coisa demasiado séria para ser tratada com entusiasmo infantil. A prudência é necessária. A contenção pode salvar vidas. A diplomacia é indispensável.
Mas há uma diferença entre prudência e paralisia.
Quando uma parte receia sempre escalar e a outra escala todos os dias, a moderação deixa de ser equilíbrio e passa a ser convite. A Rússia escala na Ucrânia. O Irão escala por procuração. A Coreia do Norte escala fornecendo munições e tecnologia militar. A China escala apoiando a capacidade industrial russa e pressionando a ordem internacional no Indo-Pacífico.
O Ocidente responde demasiadas vezes com linguagem calibrada, medidas graduais e preocupação profunda.
Os ditadores não ficam impressionados com preocupação profunda. Ficam impressionados com custos reais, previsíveis, inevitáveis e crescentes.
A paz não se defende apenas evitando a guerra. Defende-se tornando a agressão demasiado cara.
A capitulação começa antes da rendição
As civilizações raramente capitulam de uma só vez. Capitular não é apenas assinar uma derrota. Muitas vezes começa antes: quando se deixa de nomear o perigo; quando se prefere o conforto económico à clareza moral; quando se aceita a chantagem como realismo; quando se chama "complexidade" à cobardia; quando se confunde negociação com fuga; quando se permite que o agressor determine o ritmo da crise.
A capitulação começa quando uma sociedade livre passa a acreditar que defender a liberdade dá demasiado trabalho.
Começa quando a democracia tem mais medo de ser julgada pelas suas respostas do que os tiranos têm de ser julgados pelos seus crimes.
Começa quando o mundo livre se habitua a viver com zonas de mal extremo como se fossem apenas actores difíceis da política internacional.
E começa, sobretudo, quando as elites democráticas perdem a coragem de dizer uma palavra simples: inimigo.
Defender valores exige poder
Uma das ilusões mais perigosas das democracias ocidentais é acreditar que os valores se defendem por si mesmos. Não defendem.
A liberdade precisa de instituições, sim. Mas também precisa de energia, indústria, defesa, tecnologia, inteligência, fronteiras funcionais, controlo de cadeias críticas, alianças robustas, diplomacia firme, cultura histórica e cidadãos preparados para compreender que o mundo não é uma assembleia escolar moderada por boas intenções.
Os valores sem poder tornam-se literatura moral. O poder sem valores torna-se tirania. A grande tarefa do Ocidente seria unir ambos: valores fortes sustentados por poder coerente.
Mas isso exige abandonar a hipocrisia confortável. Exige reconhecer que o comércio não pacifica todos os regimes. Que a interdependência pode ser arma. Que a tecnologia civil pode alimentar guerra. Que a diplomacia pode ser usada pelo inimigo como anestesia. Que as democracias só sobreviverão se recuperarem a capacidade de impor custos, proteger cadeias estratégicas e agir antes de a ameaça se tornar irreversível.
Conclusão: o mal extremo não se gere com ilusões moderadas
O Ocidente não precisa de abandonar os seus valores para enfrentar o mal extremo. Pelo contrário: precisa de os levar finalmente a sério.
Levar a liberdade a sério significa defendê-la. Levar a democracia a sério significa protegê-la de quem a quer destruir. Levar os direitos humanos a sério significa não tratar regimes assassinos como parceiros comerciais ligeiramente excêntricos. Levar a paz a sério significa compreender que a paz sem dissuasão é apenas intervalo entre agressões.
A hipocrisia ocidental está em querer ser virtuoso sem pagar o preço da virtude. Está em condenar ditaduras enquanto mantém dependências cómodas. Está em atacar sem estratégia final. Está em sancionar sem fechar rotas de evasão. Está em negociar sem compreender que certos regimes usam a negociação como instrumento de guerra por outros meios.
O mundo livre continua a ter meios para resistir. Mas terá de recuperar uma coisa mais rara do que tecnologia, dinheiro ou armamento: carácter estratégico.
Porque as ditaduras já perceberam que podem avançar pela sombra, pela chantagem, pela guerra híbrida, pela mentira, pela dependência económica e pela paciência brutal.
E, se o Ocidente continuar a confundir prudência com medo, moderação com impotência e diplomacia com recuo, então talvez a liberdade não caia derrotada por falta de força.
Cairá por falta de vontade.
Nota Final
Esta crónica não é uma apologia da guerra. É uma denúncia da cobardia estratégica disfarçada de prudência moral.
A paz deve ser defendida com inteligência, diplomacia, dissuasão, poder económico, capacidade militar, controlo tecnológico e clareza política. Mas não se defende a paz fingindo que regimes agressivos se tornam moderados apenas porque o Ocidente deseja acreditar nisso.
O mal extremo não se derrota com ilusões moderadas. Derrota-se com lucidez, firmeza, unidade e a coragem de reconhecer que a liberdade, para continuar viva, precisa de ser defendida antes de ser cercada.
Referências e publicações consultadas
- Reuters — Proposed US-Iran deal involves reopening the Strait of Hormuz during ceasefire extension
- Reuters — Trump says no rush for Iran deal, US blockade stays
- Reuters — Iran's Supreme Leader says enriched uranium must stay in Iran, Iranian sources say
- NATO — Washington Summit Declaration, 2024
- Conselho da União Europeia — EU sanctions against Russia: questions and answers
- Conselho da União Europeia — Sanções ao Irão por violações de direitos humanos e apoio à guerra russa
- Conselho da União Europeia — Medidas restritivas sobre apoio militar iraniano à Rússia e a grupos armados
- U.S. Department of State — State Sponsors of Terrorism
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
Com co-autoria e investigação a cargo de Augustus Veritas, ao serviço da lucidez, da memória crítica e da inquietação criadora.
Ao Ocidente, não lhe basta ter razão moral; é preciso ter força estratégica para impedir que o mal organizado avance. E talvez a frase essencial do artigo seja esta: O mal extremo não se derrota com ilusões moderadas. Porque as ditaduras não estão em modo contemplativo. Estão a testar limites, alianças, cadeias tecnológicas, medo, dependências e hesitações.
E se o mundo livre continuar a confundir prudência com recuo, acabará a negociar a própria liberdade em suaves prestações diplomáticas.
- Francisco Gonçalves (2026)