BOX DE FACTOS

  • Em 26 de Fevereiro de 2022, Zelensky afirmou que Kyiv continuava sob controlo ucraniano, recusando abandonar a capital.
  • No quarto aniversário da invasão em grande escala, reafirmou que a Ucrânia defendera a sua independência e continuaria a lutar.
  • Nos últimos dias, revelou que aliados transmitiram sinais para reduzir ataques ucranianos a infra-estruturas energéticas russas, por causa da crise energética global.
  • Também assinalou que alguns sistemas de defesa aérea estavam a ser desviados para o Médio Oriente.
  • A Rússia continua a usar a sombra do seu arsenal nuclear como instrumento de intimidação estratégica, com exercícios recentes das forças de mísseis estratégicos.

Zelensky, o Homem que Ficou de Pé

Enquanto muitos líderes europeus discursam sobre coragem em salas aquecidas, Zelensky pratica-a há anos diante de uma potência nuclear.

Há homens que entram na história por ambição. Outros são empurrados para ela pela violência do tempo. Volodymyr Zelensky pertence à segunda categoria. Não foi a sua vontade que escolheu a moldura épica; foi a brutalidade da invasão russa que o obrigou a transformar-se, quase de um dia para o outro, de actor político improvável em símbolo vivo de resistência nacional.

E o primeiro acto dessa transformação continua a ser o mais importante: ele ficou. Em Fevereiro de 2022, quando as forças russas avançavam sobre Kyiv e muitos esperavam o colapso rápido do Estado ucraniano, Zelensky declarou que a capital continuava sob controlo ucraniano. Não fugiu, não procurou refúgio externo, não se dissolveu na névoa confortável do exílio. Ficou em Kyiv, e esse gesto, por si só, alterou a psicologia da guerra. Um país que perde o seu centro político nas primeiras horas começa a morrer antes de cair militarmente. A Ucrânia não morreu nesse momento porque o seu presidente recusou sair de cena. 1

É por isso que Zelensky merece mais do que aplausos ocasionais ou homenagens de protocolo. Merece um lugar sério na memória europeia. Porque enfrentou não apenas uma agressão militar, mas uma potência nuclear, imperial na nostalgia e devastadora nos métodos. E enfrentou-a sem a tranquilidade de apoios totais, lineares e sempre à altura da dimensão do perigo.

No quarto aniversário da guerra em grande escala, Zelensky declarou que a Ucrânia tinha defendido a sua independência e que não trairia os sacrifícios feitos pelo seu povo enquanto procurava a paz. A frase é importante porque contém a tensão inteira da sua presidência: resistir sem capitular, negociar sem se vender, pedir ajuda sem se ajoelhar. E esse equilíbrio é talvez mais difícil do que muitos imaginam nos corredores de Bruxelas ou nas redacções confortáveis do Ocidente. 2

Há, aliás, uma ironia amarga neste drama. A Europa gosta de elogiar a bravura ucraniana, mas muitas vezes ajuda-a com a lentidão cerimoniosa de quem quer parecer moralmente irrepreensível sem pagar integralmente o preço da História. Zelensky recebeu apoio, sim. Recebeu armas, dinheiro, solidariedade, cimeiras, bandeiras e palavras sonoras. Mas recebeu tudo isso frequentemente em prestações, com hesitações, bloqueios internos, prudências excessivas e linhas vermelhas que se deslocam ao ritmo do medo europeu e do calendário político americano. Reuters assinalou precisamente, no quarto aniversário da guerra, que as promessas de apoio continuavam marcadas por divisões entre aliados. 3

Nos últimos dias, o próprio Zelensky voltou a mostrar quão imperfeito é esse apoio. Disse que alguns aliados enviaram sinais no sentido de reduzir os ataques ucranianos contra infra-estruturas petrolíferas russas, por receio do agravamento da crise energética global ligada à guerra com o Irão. E observou também que muitos sistemas de defesa aérea estavam a ser desviados para o Médio Oriente. Eis a verdade despida de ornamentos: a Ucrânia continua a lutar, mas nem sempre continua a ser prioridade. 4

Ora, resistir com apoio incompleto é uma coisa. Resistir sabendo que os amigos podem vacilar quando a temperatura geopolítica sobe é outra, mais dura, mais solitária e mais reveladora de carácter. Zelensky sabe, como poucos, que a retórica ocidental costuma ser muito mais estável do que a sua determinação estratégica. E, apesar disso, continua. Continua a exigir, a negociar, a alertar, a pedir rapidez a quem vive devagar e a recordar a uma Europa sonolenta que o fogo que consome a Ucrânia não ficará para sempre do outro lado do mapa.

Essa coragem não é apenas física. É também moral e política. Porque é fácil parecer heróico quando se tem a certeza de que o amparo virá, robusto e incondicional. O verdadeiro teste começa quando se percebe que o amparo existe, mas é oscilante; quando se compreende que os aliados ajudam, mas calculam; quando se descobre que o discurso da liberdade tem orçamento, comissões, calendários, fadiga mediática e limites de conveniência. Zelensky resiste dentro desse labirinto. E isso torna a sua firmeza mais notável.

A coragem sob a sombra nuclear

Importa ainda sublinhar a natureza singular do inimigo que enfrenta. A Rússia não combate apenas com infantaria, drones, artilharia e mísseis. Combate com a sombra permanente do seu arsenal nuclear. Ainda em 2 de Abril de 2026, o Ministério da Defesa russo anunciou exercícios das forças de mísseis estratégicos na Sibéria com sistemas Yars, capazes de transportar ogivas nucleares. Mesmo sendo apresentados como exercícios de rotina, o seu significado político é evidente: recordar ao Ocidente e à Ucrânia que a chantagem atómica continua sentada à mesa. 5

Zelensky governa e combate com essa nuvem sobre a cabeça. Não enfrenta apenas um agressor militar; enfrenta um regime que gosta de transformar a ameaça existencial em instrumento diplomático. Poucos líderes europeus modernos foram obrigados a provar a sua fibra num cenário assim. Muitos fazem discursos sobre valores. Zelensky tem de defender esses valores com cidades bombardeadas, civis exaustos e uma ameaça nuclear suspensa sobre cada cálculo estratégico.

Mais do que um presidente em guerra

Zelensky tornou-se, por isso, algo maior do que um presidente em guerra. Tornou-se uma acusação viva à mediocridade estratégica europeia. Cada vez que pede mais rapidez, mais firmeza, mais meios, ele obriga os confortáveis a olhar para o espelho. Obriga-os a perguntar se ainda acreditam realmente na soberania dos povos ou se essa expressão já é apenas mobília verbal para cimeiras e comunicados finais.

É claro que não é santo. Nenhum líder em guerra o é. A pressão prolongada, a centralização de decisões e o estilo de comando em circunstâncias extremas são matérias legítimas de debate. Mas nenhuma dessas reservas apaga o essencial: Zelensky foi, até agora, o mais claro exemplo europeu de coragem política e pessoal perante uma potência nuclear. Não por um dia. Não por um gesto simbólico isolado. Mas durante anos.

Num continente que muitas vezes confunde prudência com paralisia e diplomacia com adiamento, ele recorda uma verdade antiga e dura: há momentos em que recuar não compra paz — apenas adia uma derrota maior. Zelensky merece um artigo porque merece memória. E merece memória porque, quando muitos hesitaram, ele fez a coisa mais simples e mais rara: ficou de pé.

REFERÊNCIAS

1. Reuters, Ukraine's Zelenskiy says Ukraine still in control of Kyiv, 26 de Fevereiro de 2022.

https://www.reuters.com/world/europe/ukraines-zelenskiy-says-ukraine-still-control-kyiv-2022-02-26/

2. Reuters, European leaders vow support for Ukraine as war grinds into fourth year, 24 de Fevereiro de 2026.

https://www.reuters.com/world/europe/zelenskiy-says-ukraine-has-defended-its-independence-fourth-anniversary-war-2026-02-24/

3. Reuters, Allies sent Ukraine 'signals' on reducing strikes on Russian oil, Zelenskiy says, 30 de Março de 2026.

https://www.reuters.com/business/energy/zelenskiy-says-allies-sent-ukraine-signals-reducing-strikes-russian-oil-2026-03-30/

4. Reuters, Zelenskiy says he will ask US to relay Easter energy truce offer to Russia, 31 de Março de 2026.

https://www.reuters.com/world/kremlin-responds-coolly-zelenskiy-idea-easter-energy-attack-truce-2026-03-31/

5. Reuters, Russian nuclear missile forces hold drills in Siberia, 2 de Abril de 2026.

https://www.reuters.com/business/aerospace-defense/russian-nuclear-missile-forces-hold-drills-siberia-2026-04-02/

Francisco Gonçalves
Co-autoria de Augustus Veritas
Fragmentos do Caos

A história talvez recorde este tempo com uma nota simples e feroz: enquanto muitos calcularam o risco, houve um homem que ficou de pé diante do império e não baixou os olhos.

E é justo afirmar ainda que Zelensky não defende apenas a Ucrânia; defende também uma das portas da Europa, travando na sua fronteira oriental um poder imperial que, se ali não fosse contido, testaria amanhã a firmeza do próprio continente.
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