BOX DE FACTOS
  • Em Portugal, a confiança nas notícias caiu para o ponto mais baixo da última década, segundo o Reuters Institute.
  • As expectativas de preços influenciam salários, contratos e decisões de consumo, podendo reforçar a própria inflação.
  • A incerteza económica e inflacionista altera o comportamento das famílias e pode retrair despesa.
  • Num contexto frágil, o jornalismo de alarme pode amplificar medo sem esclarecer causas, margens e responsabilidades.

Quando a imprensa troca a lucidez pelo alarme, falha a democracia e prejudica a economia

Há momentos em que o jornalismo devia ser bússola. Em vez disso, demasiadas vezes escolhe ser sirene.

A comunicação social em Portugal atravessa uma crise dupla: de relevância e de missão. Não apenas porque perdeu parte da confiança pública, mas porque, em demasiados momentos decisivos, parece ter desistido da função mais nobre do jornalismo: esclarecer, contextualizar, investigar e defender o espaço racional da democracia. Quando o debate público precisa de luz, oferece-se ruído; quando a sociedade precisa de análise, oferece-se ansiedade; quando o país precisa de escrutínio sério, oferece-se teatro de rua com microfone em riste.

O Reuters Institute assinalou em 2025 que a confiança nas notícias em Portugal caiu para o valor mais baixo da última década, com 54% a dizerem confiar nas notícias, bem abaixo dos 66% registados em 2015. No plano mais geral, o mesmo instituto concluiu que os meios tradicionais continuam a perder ligação com parte importante do público, com menor envolvimento e baixos níveis de confiança. Isto não prova, por si só, falência editorial total. Mas mostra um problema estrutural: a imprensa já não está a convencer suficientemente de que ajuda a compreender o mundo em vez de apenas o dramatizar.

Esse défice torna-se especialmente perigoso em tempos de crise económica, inflação ou incerteza nos mercados. Em vez de desmontar mecanismos de formação de preços, comparar margens, identificar abusos, distinguir choques reais de oportunismos especulativos e perguntar quem ganha com cada escalada, uma parte do jornalismo prefere o formato mais fácil e mais ruidoso: visitar lojas, mercados, peixarias, explorações agrícolas ou pequenas empresas para recolher lamentos avulsos e imagens emocionalmente carregadas. O resultado é uma narrativa permanente de aflição difusa, sem arquitectura explicativa.

Ora, o medo económico não é uma emoção neutra. Tem efeitos materiais. O IMF recorda que as expectativas também desempenham um papel central na inflação: quando pessoas e empresas antecipam preços mais altos, incorporam essas expectativas em salários, contratos e ajustamentos de preços, e esse comportamento ajuda a tornar a inflação mais persistente e, em parte, auto-realizável.

A OECD assinalou, no seu relatório intercalar de Março de 2026, que choques em energia e alimentos podem elevar expectativas de inflação e alargar pressões de preços, precisamente porque esses bens são especialmente salientes para consumidores e empresas. Num ambiente destes, o excesso de dramatização pública não substitui a causalidade económica, mas pode somar-se a um clima de insegurança e expectativa inflacionista já bastante delicado.

A investigação económica recente vai no mesmo sentido: um estudo de 2025 sobre incerteza inflacionista e comportamento das famílias concluiu que expectativas mais elevadas e maior incerteza reduzem a despesa dos agregados, enquanto comunicação mais precisa sobre inflação pode ajudar a ancorar expectativas e melhorar decisões de consumo. Isto não significa que o jornalismo seja o único motor do comportamento económico. Significa, isso sim, que a forma como se comunica a incerteza pode agravar ou suavizar reacções colectivas.

Do jornalismo de explicação ao jornalismo de sobressalto

O problema de fundo é que muito do jornalismo televisivo e imediato parece ter trocado explicação por encenação. O repórter vai ao terreno, recolhe indignações, amplifica a sensação de urgência, junta meia dúzia de frases de efeito e regressa ao estúdio como se tivesse iluminado a economia nacional. Mas não explicou a cadeia de abastecimento, não comparou custos reais, não isolou margens abusivas, não confrontou grandes distribuidores, não identificou a parte de especulação nem distinguiu causas externas de manipulações internas. Mostrou nervos. Não mostrou estrutura.

E numa economia frágil como a portuguesa, essa diferença é tudo. Países com baixa literacia económica, tecido empresarial vulnerável e grande sensibilidade ao humor colectivo não podem dar-se ao luxo de ter uma imprensa que funcione como multiplicador de ansiedade. Quando a informação pública se converte em difusão contínua de receio, ajuda-se a construir precisamente o ambiente que favorece ajustamentos preventivos de preços, retracção do consumo, oportunismo comercial e desorientação social.

Uma comunicação social responsável não esconderia os problemas. Faria melhor: desmontá-los-ia. Em vez de perguntar apenas "quanto subiu o cabaz?", perguntaria também onde aumentaram margens, qual o peso dos custos energéticos, que parte decorre de transporte, armazenamento, intermediação ou estratégia comercial, e que papel estão a desempenhar reguladores e Estado. Em vez de coleccionar queixas, produziria inteligibilidade pública.

É precisamente aqui que a missão democrática do jornalismo reencontra a sua missão económica. Uma imprensa séria não serve para espalhar medo, mas para reduzir a opacidade onde o medo se alimenta. Não serve para agravar reflexos de manada, mas para dar ao cidadão critérios, proporções e contexto. Não serve para converter o mercado em teatro emocional, mas para impedir que a emoção substitua a razão.

A democracia também adoece quando a imprensa se rende ao ruído

Uma democracia degrada-se não só quando o poder político falha, mas também quando os seus mediadores públicos deixam de cumprir a sua obrigação intelectual. Se a comunicação social abdica do escrutínio profundo, se troca a investigação por superficialidade itinerante, se confunde proximidade com folclore e informação com alarme, passa a prestar um péssimo serviço à economia, à cidadania e à própria democracia.

Num tempo de incerteza, o país precisa menos de histeria ilustrada e mais de jornalismo com espinha dorsal analítica. Porque uma sociedade assustada compra pior, decide pior, vota pior e pensa pior. E uma imprensa que vive de semear sobressalto arrisca-se a tornar-se não observadora da crise, mas parte activa do seu mecanismo de propagação.

FRASE A RETER
Uma imprensa que deixa de esclarecer e passa a semear alarme deixa de servir a democracia e começa a servir os mecanismos mais perversos do mercado.
Notas Finais
O jornalismo não existe para aumentar o volume emocional da realidade, mas para a tornar inteligível. Quando abdica dessa função e passa a operar como amplificador de medo, ajuda a empobrecer o debate público, a deformar comportamentos económicos e a deixar a sociedade ainda mais vulnerável a oportunistas, especuladores e vendedores de pânico.

Referências internacionais

Francisco Gonçalves
Artigo de reflexão crítica sobre o papel da comunicação social em contextos de fragilidade democrática e incerteza económica.
Nota editorial
Quando a informação perde rigor, contexto e sentido de responsabilidade, deixa de ser jornalismo e aproxima-se de um produto de agitação, consumo rápido e ansiedade pública. Não esclarece: excita. Não investiga: encena. Não serve o cidadão: explora-o emocionalmente.

Isto já não é jornalismo: é ruído embalado como notícia e medo vendido como serviço público.

Quando a imprensa troca a verdade pelo sobressalto, deixa de ser jornalismo e torna-se apenas jornalixo com microfone. - Francisco Gonçalves (2026)
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