Portugal, o Povo Acrítico e a República Capturada

- Portugal continua abaixo da média da OCDE em competências fundamentais como literacia e numeracia.
- A confiança dos portugueses nos partidos políticos permanece muito baixa, sinal de desgaste democrático profundo.
- A percepção de corrupção mantém-se elevada e o país perdeu terreno no ranking internacional.
- A Comissão Europeia continua a recomendar reformas na justiça e no combate à corrupção.
- Sem cultura cívica forte, os partidos deixam de servir o país e passam a servir-se dele.
Portugal, o Povo Acrítico e a República Capturada
Portugal tornou-se, em demasiados momentos da sua vida pública, uma democracia de superfície brilhante e substância cansada. Votam-se governos, alternam-se siglas, recitam-se princípios constitucionais, invocam-se Abril, Europa, direitos, modernização, transparência e progresso. Mas por baixo da tinta, da liturgia e da coreografia institucional, o país revela uma maquinaria velha: clientelas, compadrios, carreiras partidárias, protecção recíproca, administração capturada e uma cidadania demasiadas vezes fatigada, mal informada ou resignada.
A expressão pode ser dura, mas traduz uma percepção real: Portugal parece muitas vezes um país de povo acrílico. Não de povo inexistente, não de povo sem alma, mas de povo moldável, transparente ao poder, pouco resistente à manipulação, frágil na memória e curto na exigência. Um povo que sofre, resmunga, comenta e desconfia — mas que raramente se organiza com consistência para impor padrões éticos, institucionais e políticos superiores.
É precisamente aí que prosperam os sistemas de rapina da coisa pública. Não precisam de génio. Não precisam de grandeza. Não precisam sequer de uma conspiração perfeita. Basta-lhes uma sociedade com fraca musculatura cívica, baixa literacia funcional, partidos transformados em aparelhos de sobrevivência e uma cultura em que o oportunismo aprendeu a falar a língua da respeitabilidade.
Baixa literacia, baixa exigência
Uma democracia não vive apenas de urnas. Vive de cidadãos capazes de compreender, comparar, desconfiar, verificar, fiscalizar e exigir. Quando a literacia é fraca, não apenas no sentido escolar, mas no sentido profundo de leitura do mundo, o espaço público degrada-se. A propaganda passa por análise. A retórica passa por programa. A habilidade verbal passa por competência. E o hábito de obedecer disfarça-se de moderação.
Portugal tem aqui uma ferida antiga. O país melhorou muito no acesso formal à escola, mas isso não se traduziu automaticamente em densidade crítica, em pensamento autónomo ou em cultura institucional exigente. Uma sociedade pode ter mais diplomas e continuar vulnerável à linguagem oca, à manipulação emocional, ao partidarismo tribal e à eterna figura do salvador de turno.
Quando a cidadania não domina as ferramentas mínimas da análise, da memória histórica e da responsabilidade colectiva, o regime tende a ser ocupado por minorias mais disciplinadas do que virtuosas. O vazio de exigência é sempre preenchido por alguém. E, em Portugal, foi demasiadas vezes preenchido por redes partidárias, carreiristas profissionais e pequenos impérios de influência.
Partidos como máquinas de ocupação
Os partidos são indispensáveis em democracia. Mas em Portugal, demasiadas vezes, deixaram de ser escolas de pensamento, mediação e serviço público para se tornarem mecanismos de colocação, fidelização, controlo e reprodução interna. Entram jovens quadros para servir a causa; saem especialistas em sobrevivência orgânica. O país pede estadistas; os aparelhos fabricam funcionários da táctica.
É por isso que tantas reformas ficam a meio, tantos escândalos acabam em nevoeiro e tantas promessas se dissolvem na rotina. Os partidos aprenderam a coexistir com a decadência desde que a decadência não perturbe demasiado a distribuição interna de poder. A ideologia, essa, muitas vezes já só serve como papel de embrulho para interesses concretos.
Ao longo de décadas, o Estado foi sendo tratado não como arquitectura do bem comum, mas como território de ocupação progressiva. Nomeações, influências, fidelidades, zonas cinzentas, organismos usados como abrigo, administração convertida em extensão do jogo partidário. Nada necessariamente espectacular. Quase sempre banal. E é justamente essa banalidade que torna o fenómeno mais perigoso: a pilhagem perde a máscara de escândalo e ganha o rosto da normalidade.
Corrupção, impunidade e fadiga moral
A corrupção não vive apenas de malas de dinheiro ou de grandes casos mediáticos. Vive também de favorecimentos, opacidades, cunhas, contratos desenhados à medida, portas giratórias, indulgências recíprocas e atrasos judiciais que corroem a confiança até ao tutano. Uma sociedade pode não ver todos os factos, mas sente o cheiro. E Portugal, neste capítulo, cheira há muito tempo a ferrugem institucional.
O mais devastador não é apenas a corrupção em si. É a habituação. É a pedagogia da impotência. É o cidadão comum aprender, ano após ano, que há sempre uma explicação formal, uma comissão, um recurso, uma nuance, um entrave, uma prescrição, uma reinterpretação ou uma amnésia conveniente para proteger os de cima. A democracia deixa então de ser sentida como governo do povo e passa a ser percebida como administração do desencanto.
É neste ambiente que o cinismo se alastra. Uns deixam de acreditar. Outros deixam de participar. Outros ainda abraçam demagogos, convencidos de que a podridão só pode ser limpa por um grito brutal. Mas o grito, sem cultura cívica e sem instituições regeneradas, pode apenas mudar os figurantes e manter o lamaçal.
O povo acrítico não nasce: fabrica-se
Importa dizer isto com clareza: este estado de coisas não resulta de defeito genético nem de maldição metafísica. É produzido historicamente. Durante séculos, o poder em Portugal ensinou mais a obedecer do que a pensar, mais a adaptar-se do que a confrontar, mais a pedir favor do que a exigir direito. A escola, a burocracia, as hierarquias, as dependências económicas e o medo social fizeram o resto.
O resultado é uma cultura em que muita gente se move entre a desconfiança e a submissão, entre a crítica privada e o conformismo público, entre o desdém pelos políticos e a incapacidade de construir cidadania consequente. Esse povo aparentemente passivo não é vazio; foi treinado para a passividade. E essa é talvez a forma mais eficaz de domínio: a que dispensa repressão aberta porque instala resignação interior.
Recomendações: sair da decadência exige músculo cívico
Se Portugal quiser deixar de ser uma república vulnerável à captura, não bastam discursos morais. São necessárias mudanças concretas, persistentes e quase austeras na sua exigência.
Primeiro: reforçar seriamente a literacia funcional, mediática, histórica e institucional desde a escola até à formação de adultos. Não chega ensinar a ler palavras; é preciso ensinar a ler o poder, os interesses, os números, os discursos e as manipulações.
Segundo: tornar a educação cívica algo real e não decorativo. Os cidadãos devem compreender o funcionamento do Parlamento, do Governo, dos tribunais, das autarquias, dos reguladores, dos contratos públicos e dos mecanismos de escrutínio. Uma democracia não pode sobreviver com eleitores que entram no boletim de voto como quem entra numa missa vaga.
Terceiro: reduzir drasticamente a opacidade do Estado. Toda a contratação pública relevante, nomeações, interesses declarados, agendas institucionais e fluxos de decisão devem ser radicalmente mais transparentes, legíveis e fiscalizáveis.
Quarto: acelerar a justiça nos grandes processos e dar-lhe meios reais, humanos e tecnológicos. Justiça lenta é protecção encapotada dos fortes e castigo administrativo dos fracos.
Quinto: criar uma cultura de intolerância social à mediocridade pública. O país tem de deixar de premiar a esperteza partidária, o palavreado sem obra, o carreirismo com pose e o chico-espertismo elevado a método nacional.
Sexto: abrir mais o sistema político a independentes competentes, escrutínio público sério, primárias internas robustas, limites mais exigentes a conflitos de interesses e mecanismos de responsabilização efectiva.
Sem isto, continuaremos a assistir ao mesmo teatro: cidadãos cansados, partidos autocentrados, justiça arrastada, corrupção difusa e a eterna promessa de regeneração adiada para a próxima legislatura, a próxima comissão, o próximo escândalo ou o próximo milagre.
Epílogo
Portugal não é um país condenado. Mas é um país perigosamente habituado a descer a fasquia. E quando um povo se habitua a viver abaixo da sua dignidade cívica, os predadores deixam de precisar de força. Basta-lhes persistência.
Referências de publicações internacionais
- OCDE: Inquérito às Competências dos Adultos 2023 — Portugal.
- OCDE: Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2024.
- Transparency International / Transparência Internacional Portugal: Índice de Percepção da Corrupção 2025.
- Comissão Europeia: 2025 Rule of Law Report — Country Chapter on Portugal.
- GRECO / Conselho da Europa: Compliance Report on Portugal, Fifth Evaluation Round.
Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial de Augustus Veritas
para o Fragmentos do Caos