BOX DE FACTOS
  • Em Portugal, os deputados à Assembleia da República são eleitos por listas plurinominais em cada círculo eleitoral.
  • O eleitor dispõe de um único voto de lista e não escolhe individualmente os candidatos que entram em posições elegíveis.
  • A ordem dos nomes é definida previamente pelos partidos, o que confere às máquinas partidárias um poder decisivo antes da votação popular.
  • Os mandatos são distribuídos segundo o método de Hondt, reforçando o peso da estrutura partidária no processo de representação.
  • A distância entre a teoria da representação popular e a selecção real dos nomes é uma das fissuras mais sérias da democracia portuguesa.

Os Deputados do Povo Que o Povo Não Escolhe

Um dos truques mais refinados da democracia portuguesa é chamar "representação do povo" a um processo em que o povo escolhe o símbolo, mas raramente escolhe os nomes.

Um dos truques mais elegantes da nossa democracia representativa é a fórmula que todos repetem com voz grave e compostura institucional: os deputados são os representantes do povo.

Dito assim, parece belo. Parece limpo. Parece quase sagrado.

Mas basta aproximarmo-nos um pouco do mecanismo real para percebermos a zona de sombra que esta frase esconde. Em Portugal, o povo não escolhe os deputados em sentido directo e individual. O povo escolhe um símbolo partidário, uma lista fechada, uma embalagem política previamente montada. Os nomes, a ordem, a ascensão e a queda dentro dessa lista foram decididos antes, quase sempre longe do olhar do eleitor, por direcções partidárias, equilíbrios internos, fidelidades, obediências, recompensas, castigos e aritméticas de aparelho.

É aqui que começa a grande ficção respeitável.

O povo escolhe a montra; o aparelho escolhe os nomes

Se o eleitor não pode riscar nomes, reordenar candidatos, premiar directamente os mais capazes ou punir directamente os mais medíocres dentro da lista, então chamar a esse processo uma escolha plena dos representantes é, no mínimo, uma meia-verdade elegantemente engomada. O povo escolhe a montra. Quem escolhe grande parte da mercadoria são as máquinas partidárias.

A lei é clara: os deputados são eleitos por listas plurinominais e o eleitor tem apenas um voto de lista. A anotação da Comissão Nacional de Eleições explica ainda mais claramente que uma lista plurinominal é uma relação ordenada de vários candidatos e que a sua composição é decidida pelos partidos políticos, isoladamente ou em coligação. O voto do eleitor incide sobre a lista na sua globalidade, não sobre cada candidato.

Traduzido para português corrente: quando um cidadão vota, já chega tarde à primeira escolha decisiva.

Essa primeira escolha foi feita antes, em reuniões partidárias, corredores internos, negociações, fidelidades, quotas, geometrias de facção e pequenas guerras de influência que raramente aparecem nos cartazes de campanha. O eleitor participa, sim — mas participa num processo já fortemente pré-formatado. Vota num produto acabado. Não desenha o produto. Não escolhe livremente os seus componentes. Não mexe na ordem de entrada para o Parlamento.

A ficção da representação directa

E aqui entra a ironia maior. Depois de todo este filtro, de toda esta pré-selecção, de toda esta engenharia interna, o deputado chega à Assembleia envolto na majestade da representação popular. Fala em nome do povo. Invoca o povo. Gesticula em nome da vontade popular. Mas, em muitos casos, a sua primeira e mais decisiva legitimação concreta não veio do povo em estado puro — veio da máquina que o colocou em posição elegível.

É por isso que tantos cidadãos olham para o Parlamento e sentem uma distância funda entre a ficção teórica e a experiência real. Não porque o sistema seja formalmente ilegal ou ilegítimo; não é isso. Mas porque há uma diferença entre representação constitucional e selecção efectiva. A primeira é proclamada em público. A segunda ocorre muitas vezes em zonas opacas do aparelho.

O resultado está à vista: em vez de deputados fortemente enraizados numa relação directa com o eleitor, temos demasiadas vezes deputados fortemente dependentes da disciplina do partido, da hierarquia interna, da fidelidade às direcções e da prudência de carreira. O mandato é dito nacional; a dependência é muitas vezes partidária. A retórica aponta para o povo; a sobrevivência política aponta para cima.

Quando a lealdade sobe em vez de descer

Daí nascer uma patologia silenciosa da democracia portuguesa: a substituição gradual da representação viva pela delegação administrada. O deputado não se sente tanto devedor ao eleitor concreto, que não o escolheu nominalmente, mas ao aparelho que o colocou num lugar útil da lista. E quando isso acontece em larga escala, a democracia parlamentar começa a parecer menos um espaço de representação nacional e mais um tabuleiro de delegados das máquinas.

Não admira, por isso, que a reforma do sistema eleitoral volte ciclicamente ao debate institucional. Há petições públicas e propostas parlamentares a pedir alterações à lei eleitoral e a discutir mecanismos como círculos de compensação, precisamente por se considerar que o sistema actual deixa problemas de proporcionalidade e de representação por resolver. O simples facto de estas iniciativas regressarem mostra que a crítica não é fantasia panfletária: é uma ferida reconhecida dentro do próprio regime.

Mas mesmo quando se fala de reforma, há uma prudência quase litúrgica. Mexe-se em detalhes, afina-se o perímetro, propõem-se compensações, ajustam-se mecanismos. Raramente se vai ao nervo da questão: a apropriação prévia da escolha política por estruturas partidárias fechadas, opacas e autorreferenciais.

A camada aristocrática do aparelho

Talvez seja esse o ponto mais desconfortável de todos. Chamamos a isto democracia representativa, e formalmente é. Mas, na prática, ela contém uma camada aristocrática de aparelho que raramente é assumida com frontalidade. O voto popular existe — e conta. Mas entra num funil já moldado por selecções anteriores que o eleitor não controla.

No fundo, o sistema diz ao cidadão: "Escolhe."
Mas antes disso já lhe disse: "Escolhe apenas dentro do que nós escolhemos primeiro."

E assim se vai montando esta curiosa arquitectura portuguesa: partidos que se apresentam como canais da soberania popular, quando muitas vezes funcionam antes como filtros da soberania popular. O povo ratifica. O aparelho selecciona. O povo legitima. O aparelho ordena. O povo vota. O aparelho compõe a lista, define a hierarquia, decide quem sobe e quem desaparece.

Depois, claro, ouvimos a velha música oficial: os deputados são representantes do povo.

São, talvez.
Mas muitos são primeiro representantes da filtragem partidária que os fabricou.

Epílogo

A democracia não se destrói apenas quando se proíbe votar. Também se empobrece quando se reduz o voto a ratificação de escolhas feitas antes, em salas fechadas, por mecanismos que o cidadão não vê, não controla e raramente consegue punir directamente. A distância entre o povo e os seus supostos representantes começa precisamente aí: no instante em que a representação deixa de nascer da escolha viva dos cidadãos e passa a nascer da triagem silenciosa dos aparelhos.

FRASE A RETER
Nesta democracia, o povo vota nas listas; mas quem escolhe os nomes que mandam no povo são, antes de tudo, as máquinas partidárias.

Referências

1. Comissão Nacional de Eleições, Lei Eleitoral da Assembleia da República, artigo 14.º, sobre listas plurinominais e voto singular de lista:
https://www.cne.pt/sites/default/files/dl/legis_lear_2012_0.pdf

2. Comissão Nacional de Eleições, Lei Eleitoral da Assembleia da República Anotada, com explicação da composição e ordenação das listas por partidos:
https://www.cne.pt/sites/default/files/dl/learanotada2015-cne-web.pdf

3. Comissão Nacional de Eleições, informação consolidada sobre a eleição da Assembleia da República e distribuição de mandatos:
https://www.cne.pt/sites/default/files/dl/legis_lear_consolidada_2020-11.pdf

4. Assembleia da República, iniciativas e debates sobre alteração do sistema eleitoral e círculos de compensação:
https://participacao.parlamento.pt/initiatives/2997

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial com Augustus Veritas, no projecto Fragmentos do Caos.
Uma crónica sobre a ficção respeitável da representação parlamentar e o poder discreto das máquinas partidárias.
🌌 Fragmentos do Caos: Blogue Ebooks Carrossel
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