Portugal : A Superioridade Moral dos Culpados Disto Tudo

- Desde 1976, Portugal teve longos ciclos de governação liderados pelo Partido Socialista, incluindo os períodos de Mário Soares, António Guterres, José Sócrates e António Costa.
- Segundo o Eurostat, o PIB per capita português em PPS ficou em 81% da média da União Europeia em 2025, continuando abaixo do padrão europeu.
- A OCDE considera a produtividade uma das fragilidades estruturais da economia portuguesa e insiste na necessidade de reformas para sustentar o crescimento.
- A Comissão Europeia continua a sinalizar problemas em Portugal nos domínios da corrupção, da justiça e da percepção da independência judicial.
- A Transparency International atribui a Portugal 56 pontos no índice de percepção da corrupção, com posição mediana e pouco honrosa no contexto europeu.
A Superioridade Moral dos Culpados
Há sobrancerias que irritam. E depois há esta, que já nem irrita apenas: enoja. Refiro-me à presunção moral de certos sectores que se dizem de esquerda e que continuam, passados mais de cinquenta anos sobre o Estado Novo, a comportar-se como se fossem os proprietários espirituais da democracia portuguesa. Falam como guardiães da virtude cívica. Arvoram-se em juízes da legitimidade democrática alheia. Distribuem certificados de pureza ideológica. E fazem-no com um ar de superioridade tão gasto quanto grotesco.
O problema não é serem de esquerda. O problema é comportarem-se como se a sua posição ideológica lhes concedesse um privilégio moral automático, uma espécie de indulgência histórica permanente. Como se o simples facto de invocarem Abril, a Constituição, os direitos sociais ou a palavra "povo" bastasse para apagar o seu próprio legado de governação, os seus erros acumulados, as suas cumplicidades práticas e o estado deplorável em que deixaram o país em demasiadas áreas decisivas.
Não são donos da democracia
Há muito tempo que certos aparelhos da esquerda portuguesa se habituaram a esta ficção conveniente: a de que a democracia lhes pertence mais do que aos outros. Não como espaço comum, plural, contraditório e imperfeito — mas como património de família, como herança simbólica exclusiva, quase como coutada ideológica. A partir daí, tudo se torna mais fácil. Quem discorda deles não é apenas adversário: é suspeito. Quem os critica não é apenas crítico: é quase herege cívico. Quem lhes aponta o desastre de cinquenta anos é tratado como ingrato, reaccionário ou desmemoriado.
Mas há uma memória que importa restaurar: esta gente governou, e governou muito. O arquivo oficial dos Governos constitucionais mostra, sem truques nem metáforas, longos períodos de poder de matriz socialista desde 1976. Mário Soares, António Guterres, José Sócrates e António Costa não foram acidentes marginais do regime; foram alguns dos seus administradores centrais, durante anos decisivos da vida nacional. Quem fala hoje como se estivesse de fora do problema devia começar por olhar para dentro da sua própria cronologia.
Governaram muito. Falharam muito.
É precisamente aqui que a sobranceria se torna obscena. Porque ela não chega acompanhada de confissão, de arrependimento ou sequer de inventário sério. Chega, pelo contrário, embrulhada em frases feitas, em superioridade moral de salão e em auto-imunidade histórica. Como se o país não pudesse pedir contas a quem participou longamente na sua gestão. Como se a pobreza relativa, a fragilidade produtiva, o clientelismo, a burocracia asfixiante, a corrupção tolerada e o esvaziamento moral das instituições fossem fenómenos meteorológicos caídos do céu.
Mas os números estão aí para quem os quiser encarar sem catecismo. Segundo o Eurostat, Portugal atingiu em 2025 um PIB per capita de 81% da média da União Europeia, medido em paridade de poder de compra. Melhor do que noutros tempos? Sim. Suficiente para sustentar a fanfarronice civilizacional de quem se apresenta como farol democrático e social? De maneira nenhuma. Um país que, cinquenta anos depois, continua claramente abaixo da média europeia em rendimento relativo não pode ser apresentado como triunfo histórico da gestão dos seus oficiantes habituais.
Mais pobres, mais frágeis, mais dependentes
O drama português não está apenas no rendimento. Está na estrutura. A OCDE continua a apontar a produtividade como uma fragilidade estrutural da economia portuguesa e insiste em reformas que reforcem a competitividade, a inovação e o valor gerado. Isto quer dizer, em linguagem menos diplomática, que o país continua a trabalhar com uma base económica insuficientemente robusta, demasiado presa a sectores de baixo valor, a empresas pouco dinâmicas e a um padrão de crescimento que não permite grandeza nem autonomia.
Ora, quando um país permanece mais pobre do que devia, mais frágil do que prometeu e mais vulnerável do que a sua retórica admite, a última coisa que se espera de quem o governou durante largos ciclos é um ar de proprietários da virtude. Esperava-se outra coisa: humildade, balanço, seriedade, talvez até vergonha. Mas não. O que vemos demasiadas vezes é a velha esquerda de aparelho a assobiar para o ar, como se nada disto tivesse que ver consigo.
A degradação institucional também tem autores
E não se trata apenas de economia. O desgaste do país é também institucional e moral. A Comissão Europeia, no seu relatório de 2025 sobre o Estado de direito em Portugal, continua a apontar fragilidades no combate à corrupção, no funcionamento da justiça e na percepção da independência judicial. Isto não é panfleto de café. É diagnóstico europeu. E a Transparency International mantém Portugal com 56 pontos no índice de percepção da corrupção, numa posição mediana e nada honrosa.
Quando se junta a isto o histórico de falências bancárias, assaltos à coisa pública, redes de influência, promiscuidade entre política e negócios, justiça de dois pesos e sobrevivência de clientelas partidárias, a fotografia torna-se ainda mais nítida: a democracia portuguesa foi sendo corroída também sob governações que se apresentavam como moralmente superiores. Não por inimigos externos do regime, mas muitas vezes por administradores internos da sua degradação.
A superioridade insignificante
Chamo-lhe insignificante porque vive sobretudo de pose. É uma superioridade que fala muito, mas confessa pouco. Reivindica legitimidade histórica, mas evita a prestação de contas histórica. Denuncia os perigos do futuro, mas quase nunca admite que foi fonte central do problema no passado. Quer ser solução sem reconhecer a sua quota-parte de ruína.
É este o traço mais repulsivo: a recusa em assumir responsabilidade. O país empobreceu relativamente. A economia ficou fragilizada. A produtividade não deu o salto. A corrupção e a captura do poder não foram vencidas. A justiça não ganhou a confiança que devia. E, apesar de tudo isso, continuam alguns a falar como se estivessem acima do juízo histórico, como se a sua mera identidade ideológica os absolvesse antecipadamente.
Não foram a cura. Foram parte da doença.
Há uma diferença entre ter responsabilidade parcial e ser responsável por tudo. Não seria sério dizer que um só sector explica, sozinho, todos os males portugueses. Mas também não é sério permitir que sectores que governaram muito e marcaram decisivamente o regime se apresentem hoje como simples espectadores indignados ou médicos de urgência chamados a reparar um desastre que lhes é alheio.
Não é alheio. Em demasiados casos, ajudaram a cavá-lo. Contra erros, contra avisos, contra sinais de esgotamento, contra a evidência dos resultados, persistiram em modelos gastos, em fidelidades partidárias, em burocracias inúteis, em complacências clientelares, em promiscuidade ideológica com o Estado como distribuidor de dependências e em discursos morais cada vez mais separados da realidade concreta do país.
E talvez seja isso que mais dói a quem olha para Portugal com um mínimo de lucidez: ver os autores de parte do problema continuarem a posar como sacerdotes da solução.
Epílogo
A democracia não pertence à esquerda, nem à direita, nem a nenhum clero ideológico. Pertence ao país inteiro — e precisamente por isso ninguém deveria poder esconder-se atrás dela para evitar o julgamento do seu legado. Quem governou muito deve explicar muito. Quem falhou muito deve admitir muito. E quem ajudou a empobrecer, a fragilizar e a desmoralizar Portugal não devia ter a arrogância suplementar de se apresentar como consciência superior da Nação.
Há alturas em que a pior forma de hipocrisia não é mentir frontalmente. É falar de democracia com ar de proprietário quando se passou décadas a desiludir o povo em seu nome.
Referências e factos
1. Governo da República Portuguesa, Governos Anteriores:
https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/governo/governos-anteriores
2. Governo da República Portuguesa, Chefes do Governo desde 1821, incluindo os ciclos após 1976:
https://www.portugal.gov.pt/pt/gc21/governo/governos-anteriores/chefes-do-governo-desde-1821.aspx
3. Eurostat, PPPs for GDP per capita in 2025: preliminary estimates:
https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20260325-1
4. OCDE, OECD Economic Surveys: Portugal 2026:
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en.html
5. OCDE, Portugal: Insights on productivity based on microdata:
https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2026/02/oecd-insights-on-productivity-country-notes_e66278d6/portugal_b70d8b12/dda72c49-en.pdf
6. Comissão Europeia, 2025 Rule of Law Report – Country Chapter on Portugal:
https://commission.europa.eu/document/download/5a482f87-1f24-47bd-8595-d25f1ca29c6a_en?filename=2025+Rule+of+Law+Report+-+Country+Chapter+Portugal.pdf
7. Transparency International, ficha de Portugal no Corruption Perceptions Index:
https://www.transparency.org/en/countries/portugal
8. Transparência Internacional Portugal, Índice de Perceção da Corrupção 2025:
https://transparencia.pt/indice-de-percecao-da-corrupcao-2025/
Co-autoria editorial com Augustus Veritas, no projecto Fragmentos do Caos.
Crónica sobre a arrogância moral dos culpados e a recusa em prestar contas pelo país que ajudaram a fragilizar.
A história é implacável para com os povos que confundem propaganda com verdade, liturgia com democracia e arrogância ideológica com legitimidade moral. Mais cedo ou mais tarde, chega sempre o tempo em que os culpados tentam reescrever o seu papel no desastre, apresentando-se como salvadores daquilo que ajudaram a arruinar. Mas a história, quando finalmente fala sem medo, acaba por repor cada um no seu lugar: não no pedestal da retórica, mas no tribunal severo dos factos.