BOX DE FACTOS

  • Portugal investiu anos a promover imagem de ecossistema inovador, mas continua a revelar fragilidades na escala e no crescimento das empresas sobreviventes.
  • Dados recentes da OCDE mostram que as start-ups portuguesas apresentam menor capacidade de scale-up entre as sobreviventes.
  • A própria OCDE identifica obstáculos persistentes no acesso a financiamento, competências de liderança, enquadramento regulatório e crescimento das scale-ups.
  • A produtividade continua a ser um problema estrutural em Portugal e no conjunto da OCDE o crescimento permanece modesto.
  • Um país não enriquece com folclore tecnológico: enriquece com empresas que sobrevivem, crescem, exportam, inovam e criam valor persistente.

Portugal Quis Parecer Inovador Antes de se Tornar Produtivo

Houve web summits, unicórnios, startups, incubadoras e oratória sem fim. Mas um país não enriquece com ecossistemas de palco — enriquece com empresas reais, produtividade séria e valor acrescentado persistente.

Portugal passou demasiado tempo a encenar modernidade em vez de a construir. Houve cimeiras, slogans, painéis, evangelistas da inovação, concursos de startups, culto do empreendedorismo instantâneo e até a zoologia económica dos "unicórnios", como se o desenvolvimento nacional pudesse ser resumido a meia dúzia de mascotes tecnológicas para consumo mediático. O problema não é ter eventos, redes ou promoção internacional. O problema começa quando o país confunde vitrina com estrutura, palco com tecido produtivo, e reputação momentânea com riqueza duradoura.

A economia portuguesa precisava de construir empresas que sobrevivem, crescem, exportam, integram conhecimento, consolidam emprego qualificado e geram valor ao longo do tempo. Em vez disso, investiu demasiado em folclore tecnológico e demasiado pouco em condições silenciosas, mas decisivas: capital paciente, escala industrial, liderança empresarial madura, simplificação regulatória, produtividade, ligação séria entre ciência e produção e um Estado que não trate o crescimento como uma infracção administrativa em preparação.

O problema não é começar. É crescer.

É precisamente aqui que a realidade desmancha a narrativa. A OCDE, no seu Country Note on Productivity and Business Dynamics – Portugal, foi bastante clara: as start-ups portuguesas apresentam menor capacidade de scale-up entre as sobreviventes. Isto é decisivo. Porque o verdadeiro teste de um ecossistema não está em quantas ideias nascem, nem em quantas apresentações se fazem em inglês de palco. Está em quantas empresas sobrevivem, escalam, ganham músculo e se tornam relevantes para a estrutura produtiva do país. 0

A mesma linha de raciocínio aparece noutros trabalhos da OCDE sobre Portugal. Um relatório sobre incubação e aceleração observa que, no país, persistem barreiras no acesso a financiamento, nas competências de liderança, no enquadramento regulatório e no crescimento das scale-ups. Ou seja: o problema não é ausência de retórica empresarial; é fragilidade dos mecanismos que transformam uma empresa nascente em actor económico robusto. 1

Ecossistemas de palco não produzem, por si, riqueza estrutural

Nada disto significa que startups e scale-ups sejam irrelevantes. Pelo contrário, organismos europeus lembram que elas podem ser motores importantes de produtividade, investimento e emprego qualificado. Mas isso exige ecossistemas capazes de sustentar crescimento real, e não apenas visibilidade. A Enterprise Europe Network resume isso de forma simples: um ecossistema florescente de startups e scale-ups contribui para o desenvolvimento económico precisamente porque aumenta produtividade, investimento e emprego de qualidade. O ponto é esse: sem esse efeito material, o resto é branding. 2

Portugal quis durante demasiado tempo parecer inserido no futuro apenas porque organizava bem o seu showroom. Mas um showroom não substitui indústria, nem produtividade, nem densidade empresarial, nem tração económica. Pode até gerar reputação útil, contactos e circulação internacional. O problema é quando essa reputação se torna substituto da obra. Aí nasce a ilusão nacional: muita conferência, pouca transformação; muito networking, pouca escala; muita conversa sobre disrupção, pouca riqueza que faça realmente a diferença.

A produtividade continua a ser a prova mais dura

No fim, é a produtividade que desmonta a fantasia. O OECD Compendium of Productivity Indicators 2025 indicou que o crescimento da produtividade do trabalho permaneceu modesto, em torno de 0,4% em 2024, em média na OCDE. A própria OCDE observa que a IA poderá vir a influenciar positivamente a produtividade, mas esse impacto ainda não aparece claramente nas estatísticas agregadas. Em português simples: a economia real continua mais lenta do que a imaginação dos conferencistas. 3

Portugal, evidentemente, não está sozinho neste problema. Mas isso não o desculpa. Porque um país pequeno, periférico e com limitações estruturais não se pode dar ao luxo de desperdiçar energia em teatro tecnológico prolongado. Precisa ainda mais do que outros de distinguir aparência de resultado. Precisa de medir a inovação pelo efeito na estrutura produtiva, nas exportações, no valor acrescentado, na sobrevivência e crescimento das empresas, e não pela temperatura mediática de um evento anual.

A linguagem da inovação sem a disciplina da transformação

A inovação tornou-se, em Portugal e noutros lugares, uma palavra excessivamente confortável. Serve para quase tudo: justificar despesa, colorir discursos, abrir eventos, lançar agendas, dar brilho institucional e vender uma imagem de país avançado. Mas a verdadeira inovação económica é menos fotogénica. Exige persistência, falhas, reinvestimento, gestão competente, escala, talento técnico, mercados, financiamento apropriado e enquadramento regulatório inteligente.

Até a Comissão Europeia, ao abrir em 2025 um novo diálogo reforçado com Portugal sobre ERA, startups e ciências da vida, fê-lo precisamente porque o tema exige alinhamento estratégico e reformas, não apenas celebração. O simples facto de este diálogo existir mostra que o ecossistema português ainda é encarado como algo a consolidar, alinhar e reforçar, e não como milagre plenamente consumado. 4

O país quis parecer moderno antes de resolver o básico

Talvez o erro português tenha sido este: querer parecer inovador antes de se tornar produtivo. Antes de ter simplificado o Estado. Antes de ter reduzido o peso da burocracia. Antes de ter criado canais de capital robustos. Antes de ter consolidado gestão intermédia competente. Antes de ter tratado produtividade, qualificação técnica e crescimento empresarial como problemas nacionais centrais.

É por isso que a imagem da "fábrica de unicórnios" acaba por soar tão caricatural. Não porque o país não deva ambicionar empresas de grande valor, mas porque a ambição foi, demasiadas vezes, expressa como slogan de marketing, e não como consequência de um programa sério de transformação económica. Nenhuma nação se desenvolve por decreto zoológico.

Conclusão

Portugal não precisa de menos inovação. Precisa de menos folclore em torno da inovação. Precisa de abandonar o culto do palco e regressar ao trabalho mais difícil: produtividade, escala, sobrevivência empresarial, gestão, capitalização, exportação, ciência aplicada e ambiente regulatório capaz de acompanhar o crescimento em vez de o travar.

Web summits, startups, incubadoras e retórica futurista podem ter utilidade. Mas só se forem meios. Quando passam a ser fim, o país começa a viver numa espécie de parque temático da modernidade: bonito, internacional, fotografável — e economicamente insuficiente. O problema português nunca foi falta de conversa sobre inovação. Foi ter tido demasiada conversa e poucas empresas a transformar essa conversa em riqueza estrutural para o país.

Frase para reflexão

Portugal quis parecer inovador antes de se tornar produtivo — e acabou com muito espectáculo tecnológico e pouca riqueza que faça verdadeiramente a diferença.

Francisco Gonçalves
Texto editorial para o Fragmentos do Caos.
Co-criação editorial com Augustus Veritas.

Nota editorial

Portugal tem de refundar o Estado, torná-lo mais leve, mais inteligente, mais rápido e verdadeiramente orientado para a criação de valor. Sem essa transformação, continuará a desperdiçar talento, a travar investimento e a confundir modernização com simples encenação tecnológica.

Mas essa refundação não basta por si só. O país precisa também de investir a sério nas universidades, na investigação aplicada, na formação científica e tecnológica e, sobretudo, na ligação efectiva entre conhecimento e economia real. É precisamente aí que Portugal tem vindo a falhar: produz discurso sobre inovação, mas não constrói com a consistência necessária as pontes entre academia, empresas, indústria e criação de riqueza duradoura. Uma cultura de inovação não nasce do nada. Constrói-se lentamente sobre educação séria, instituições saudáveis, universidades fortes, empresas capazes e um Estado que não atrapalhe o futuro.

Sem um Estado reformado, universidades fortes e ligação orgânica às empresas, Portugal continuará a falar de futuro enquanto permanece preso à sua velha insuficiência produtiva. Nenhum país fabrica inovação duradoura sobre burocracia, improviso, retórica e fragilidade institucional.

- Francisco Gonçalves
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