BOX DE FACTOS
  • A Comissão Europeia enquadra as AI Gigafactories como grandes infra-estruturas para desenvolver e treinar modelos de IA de nova geração.
  • O programa InvestAI foi anunciado com uma capacidade de mobilização de 20 mil milhões de euros para apoiar até cinco AI Gigafactories.
  • Portugal já participa, com Espanha e Turquia, no consórcio ligado ao MareNostrum 5 e ao ecossistema de AI Factory em Barcelona.
  • As próprias fontes europeias dizem que estas fábricas só funcionam como ecossistemas se ligarem computação, dados, talento, PME, start-ups, universidades e indústria.
  • Infra-estrutura sem empresas de produto, energia competitiva, talento e capital paciente pode gerar fotografia institucional — mas não transformação económica duradoura.

Gigafábricas de IA ou gigafábricas de retórica?

Em Portugal, basta aparecer uma infra-estrutura com nome futurista para logo se montar a procissão dos consultores, dos entusiastas profissionais e dos vendedores de destino. O problema é que, demasiadas vezes, o país fica com o palco — e outros ficam com o valor.

De tempos a tempos, o país é visitado por uma nova promessa redentora. Umas vezes chama-se "transição digital", outras "economia verde", outras ainda "reindustrialização inteligente", e agora surge de braço dado com as chamadas AI Gigafactories. O ritual é conhecido: uma consultora internacional publica ou comenta um estudo, um responsável local recita o vocabulário da transformação, uns quantos decisores fingem ver no horizonte a nova Autoeuropa, e o país volta a embalar-se na ilusão de que o progresso se instala por decreto, por conferência ou por comunicado.

O mais notável neste teatro não é a imaginação lexical. É a persistência com que se tenta vender a ideia de que grandes infra-estruturas tecnológicas, só por si, produzirão milagre económico quase automático. Como se bastasse acolher uma máquina, um centro de dados ou uma designação europeia pomposa para o país saltar de economia periférica para potência digital. E é precisamente aqui que convém separar o que é real do que é retórica.

Primeiro: a iniciativa existe mesmo

Ao contrário do que muitos discursos de circunstância fariam supor, não estamos perante uma invenção de PowerPoint. A iniciativa europeia é real. A Comissão Europeia e o Banco Europeu de Investimento assinaram, em Dezembro de 2025, um memorando para acelerar o financiamento e o desenvolvimento das AI Gigafactories, no quadro do programa InvestAI, anunciado em Fevereiro de 2025, com a ambição de mobilizar 20 mil milhões de euros para apoiar até cinco destas grandes infra-estruturas dedicadas ao treino e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial de nova geração. 0

Do mesmo modo, as fontes oficiais europeias descrevem as AI Factories como ecossistemas ligados à rede EuroHPC, destinados a juntar poder computacional, dados, talento, universidades, PME, start-ups e indústria. Não se trata, portanto, de ficção pura, nem de uma anedota criada por uma firma de consultoria para vender workshops sobre soberania tecnológica. A União Europeia quer, de facto, construir capacidade própria para reduzir dependências externas e apoiar uma base industrial e científica mais robusta em IA. 1

Segundo: Portugal já está dentro — mas isso não basta

Portugal não está inteiramente fora deste processo. O ecossistema ibérico ligado ao MareNostrum 5, em Barcelona, inclui Portugal no consórcio, e a expansão recente da capacidade da BSC AI Factory foi cofinanciada pela EuroHPC e por Espanha, Portugal e Turquia. Além disso, o próprio MareNostrum 5 já tinha sido cofinanciado por esse mesmo consórcio. Há, portanto, participação portuguesa concreta em parte desta arquitectura europeia. 2

Mas é precisamente aqui que começa a fraude retórica habitual. Participar num consórcio ou acolher um elo de uma cadeia infra-estrutural não é a mesma coisa que capturar valor económico transformacional. Uma coisa é estar na fotografia. Outra, muito diferente, é ficar com o negócio, o conhecimento, a propriedade intelectual, as empresas exportadoras, os empregos de maior valor e a capacidade de arrastar o resto da economia para cima. Confundir presença institucional com transformação estrutural é um dos passatempos favoritos de quem vive de marketing estratégico com verniz tecnocrático.

A próxima Autoeuropa? Talvez. Mas só num país a sério

A frase segundo a qual uma gigafábrica de IA poderia ser "a próxima Autoeuropa" tem brilho jornalístico, mas exige muito mais cautela do que entusiasmo. Uma infra-estrutura deste género só pode ser comparada a um motor transformacional se for acompanhada por um ecossistema produtivo e científico denso: energia abundante e competitiva, rede eléctrica robusta, talento técnico de topo, universidades orientadas para transferência real, financiamento paciente, empresas capazes de construir produtos sobre essa computação, procurement público inteligente e uma cultura de execução que não morra à primeira mudança de governo.

As próprias fontes oficiais da Comissão Europeia ajudam, sem querer, a desmontar o exagero. Quando descrevem as AI Factories, insistem que o valor depende de articular poder computacional, dados e talento, e de fomentar colaboração entre start-ups, PME, universidades e indústria. Ou seja: a máquina, por si só, não salva ninguém. É uma peça. Importante, sim. Milagrosa, não. 3

Num país realmente preparado, uma infra-estrutura destas pode ser alavanca. Num país viciado em dependência externa, excesso de intermediação, fraca capitalização empresarial e culto do anúncio, pode transformar-se apenas em símbolo. E Portugal, infelizmente, tem longa experiência em converter oportunidades estruturais em cerimónias de inauguração com pouco lastro produtivo.

O papel das consultoras: sacerdotes do futuro alugado

É aqui que entram as grandes consultoras internacionais, com a elegância predatória de quem nunca chega de mãos vazias: trazem relatórios, "insights", métricas de maturidade, mapas de prontidão, fóruns sobre soberania digital e um vocabulário suficientemente polido para parecer indispensável. O seu negócio consiste em apresentar-se como tradutor do amanhã. Quase nunca fabricam chips. Quase nunca treinam os grandes modelos que mudam o jogo. Quase nunca criam a base industrial dura. Mas sabem perfeitamente vender a narrativa da transformação.

O relatório da Deloitte citado neste debate é real e assenta num inquérito a 3.235 líderes empresariais e tecnológicos em 24 países, realizado entre Agosto e Setembro de 2025. Entre os dados mais citados, surge a conclusão de que 77% das empresas factoram o país de origem das soluções de IA na selecção de fornecedores, e que a chamada "soberania de IA" ganha peso estratégico. Isso mostra que existe preocupação real com dependências tecnológicas. Mas uma coisa é captar um sentimento de mercado; outra é provar que um país periférico, por acolher uma peça da infraestrutura europeia, criou subitamente um novo eixo de prosperidade nacional. 4

Os estudos de percepção podem ser úteis. O problema começa quando são usados como incenso intelectual para abençoar promessas desmesuradas. Entre "as empresas consideram importante a origem da tecnologia" e "Portugal encontrou a sua nova Autoeuropa" existe uma distância colossal. É nessa distância que prospera boa parte da indústria da consultoria: vendendo como iminente aquilo que, no máximo, é condicional.

O que Portugal realmente precisaria de fazer

Se Portugal quiser mesmo tirar partido desta vaga, não basta posar ao lado da sigla certa. Precisará de políticas industriais e tecnológicas sérias, coisa rara num país onde a visão estratégica costuma durar menos do que uma legislatura. Precisará de energia fiável e competitiva, de acelerar licenças sem cair na anarquia, de formar e atrair talento avançado, de apoiar empresas de produto tecnológico, de financiar investigação aplicada com ligação real ao mercado e de usar o Estado como comprador inteligente, e não como repartição lenta que mata inovação por asfixia administrativa.

Precisará também de coragem para escolher um caminho: quer ser apenas anfitrião subalterno de infra-estruturas desenhadas fora, ou quer capturar uma fatia séria da cadeia de valor? Porque hospedar computação não é o mesmo que criar empresas vencedoras. Ter acesso a supercomputação não é o mesmo que gerar modelos próprios, software exportável, patentes relevantes e massa crítica empresarial. A diferença entre uma economia que utiliza tecnologia e uma economia que cria valor tecnológico mede-se exactamente aí.

Epílogo

As AI Gigafactories podem ser úteis. Podem até vir a ser importantes. Mas o seu valor para Portugal dependerá menos do brilho da designação e mais da capacidade do país para construir em redor delas uma verdadeira arquitectura produtiva. Sem isso, restará apenas o espectáculo habitual: governantes a sorrir para as câmaras, consultores a vender a tradução do futuro, relatórios a prever impactos no PIB e uma nação inteira a confundir infra-estrutura com redenção.

Portugal não precisa de mais sacerdotes do PowerPoint. Precisa de engenheiros, cientistas, empreendedores, capital paciente, energia competitiva e uma elite pública que perceba, finalmente, que soberania tecnológica não se improvisa em conferências. Constrói-se. E constrói-se com trabalho duro, continuidade e capacidade de capturar valor, não com metáforas industriais de aluguer.

Frase de destaque
As consultoras vendem-nos o mapa do tesouro; o problema é que, em Portugal, demasiadas vezes ficam elas com o ouro e deixam-nos a cartolina.

Referências

1. Comissão Europeia / Banco Europeu de Investimento — Memorando de entendimento sobre AI Gigafactories e enquadramento do programa InvestAI, incluindo a meta de mobilizar 20 mil milhões de euros para até cinco gigafábricas. 5

2. Comissão Europeia — descrição oficial das AI Factories como ecossistemas que articulam computação, dados, talento, start-ups, PME, universidades e indústria. 6

3. EuroHPC JU — reforço da capacidade de IA do MareNostrum 5 e composição do consórcio da BSC AI Factory, com financiamento partilhado por Espanha, Portugal e Turquia. 7

4. Deloitte — The State of AI in the Enterprise: The Untapped Edge, com base em 3.235 líderes inquiridos em 24 países, incluindo o dado de que 77% ponderam o país de origem das soluções de IA na escolha de fornecedores. 8

Francisco Gonçalves
com Augustus Veritas

Texto para Fragmentos do Caos — um ensaio sobre a distância entre a infra-estrutura real e a liturgia do marketing consultivo, num país demasiado habituado a confundir anúncio com transformação.
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