Europa perante o Irão: entre a ingenuidade estratégica e o despertar forçado

- O Irão mantém o maior arsenal de mísseis balísticos do Médio Oriente, apoiado por uma vasta rede subterrânea de túneis e "cidades de mísseis".
- Segundo a Reuters, no final de Março de 2026 os EUA só conseguiam confirmar com segurança a destruição de cerca de um terço do arsenal iraniano; outro terço poderia estar danificado ou soterrado, e o restante continuava potencialmente activo.
- Negociações internacionais concentraram-se durante anos sobretudo no nuclear, deixando o programa de mísseis como dossier insuficientemente travado.
- O Departamento de Estado dos EUA continua a classificar o Irão como Estado patrocinador do terrorismo, e o relatório de 2023 afirma que o país continuou a ser o principal patrocinador estatal.
- A combinação de hesitação diplomática, divisão internacional, estratégia subterrânea e produção resiliente permitiu ao regime ganhar profundidade militar.
Como deixou o mundo civilizado que o Irão se tivesse armado até aos dentes?
A pergunta é tão legítima quanto inquietante: como foi possível o mundo permitir que o Irão construísse uma capacidade militar tão vasta, tão resiliente e tão difícil de neutralizar? A resposta curta é cruel: porque durante demasiado tempo as potências preferiram administrar o problema em vez de o resolver. E regimes ideológicos, pacientes e paranoicos sabem tirar partido dessa fraqueza como poucos.
Antes de mais, convém fixar um ponto de rigor. A afirmação de que "segundo a CIA o Irão ainda tem intactos 70% dos mísseis e lançadores" não é algo que, até à data de hoje, 19 de Abril de 2026, se consiga confirmar em fontes sólidas. O que a Reuters reportou foi diferente: fontes norte-americanas disseram que os EUA só conseguiam confirmar com segurança a destruição de cerca de um terço do grande arsenal iraniano; outro terço poderia estar danificado ou enterrado em bunkers subterrâneos; e o restante continuava potencialmente operacional. A mesma peça referia ainda que responsáveis israelitas avaliavam ter neutralizado 70% da capacidade de lançamento, o que não é o mesmo que 70% do arsenal intacto. Essa distinção importa, porque em guerra a propaganda adora números redondos, mas a realidade vive de ambiguidades, túneis e fragmentos de informação. Ver Reuters, 27 de Março de 2026.
Primeira razão: o Irão não armou à superfície, armou em profundidade
O Irão não construiu a sua dissuasão como um exército convencional exposto ao céu. Fê-lo como um regime que aprendeu com décadas de ameaças, sanções, sabotagens e guerra irregular. A sua capacidade foi dispersa, enterrada, redundante e integrada numa geografia subterrânea concebida precisamente para sobreviver a bombardeamentos. A Reuters descreveu a existência de vastas infra-estruturas subterrâneas e recordou que o Irão possui o maior stock de mísseis balísticos do Médio Oriente, incluindo várias famílias de mísseis com alcance suficiente para atingir Israel. Ver Reuters, 26 de Fevereiro de 2026.
Quando um país monta "cidades de mísseis" sob montanhas, esconde lançadores, fragmenta a produção e trabalha com redundância, a superioridade aérea do adversário deixa de garantir destruição total. Garante dano. Garante erosão. Garante atraso. Mas não garante extinção da ameaça. E foi isso que o mundo se recusou, durante anos, a levar plenamente a sério.
Segunda razão: o foco internacional esteve demasiado tempo no nuclear e insuficientemente nos mísseis
Durante anos, as negociações com Teerão gravitaram em torno do enriquecimento de urânio, da fiscalização da AIEA, dos limites de stock e das sanções associadas ao programa nuclear. Tudo isso era, naturalmente, crucial. Mas o efeito colateral foi claro: o programa de mísseis não foi travado com a mesma eficácia. Mesmo hoje, segundo a Reuters, aliados europeus, países do Golfo e Israel continuam a pressionar para que qualquer novo entendimento com o Irão inclua limites mais amplos, nomeadamente sobre os mísseis, precisamente porque esse flanco ficou insuficientemente resolvido. Ver Reuters, 19 de Abril de 2026.
Em linguagem simples: enquanto o mundo discutia centrifugadoras, o regime afinava lançadores. Enquanto diplomatas debatíam percentagens de enriquecimento, engenheiros enterravam vectores, consolidavam linhas de produção e refinavam arquitectura de sobrevivência. A história é velha: a comunidade internacional olha para o perigo mais visível e o adversário fortalece o perigo mais persistente.
Terceira razão: sanções não são uma varinha mágica
Há uma ilusão muito ocidental segundo a qual sanções económicas, por si só, acabam por estrangular um programa militar estratégico. Nem sempre. Quando um regime considera uma capacidade essencial à sua sobrevivência, corta noutras áreas, recorre a redes paralelas, adapta materiais, reorganiza produção e continua. O programa iraniano de mísseis e drones tornou-se precisamente isso: um pilar central da sobrevivência do regime e da sua projecção regional. A recente notícia da Reuters, publicada hoje, segundo a qual um comandante da Guarda Revolucionária afirmou que o Irão está já a reabastecer e modernizar lançadores a ritmo superior ao pré-guerra, mostra a profundidade dessa resiliência industrial e subterrânea — ainda que a própria Reuters sublinhe não ter conseguido verificar de forma independente o vídeo divulgado. Ver Reuters, 19 de Abril de 2026.
É esta a lição amarga: um regime pobre pode continuar perigoso se for disciplinado, clandestino e obstinado. A miséria económica não impede necessariamente a continuidade de programas militares estratégicos; por vezes até os fortalece, porque o regime passa a justificá-los como garantia existencial.
Quarta razão: o mundo livre esteve dividido, cansado e reactivo
Não houve, ao longo de muitos anos, uma frente internacional suficientemente coesa e persistente para conter o Irão de forma ampla. Uns queriam negociar a qualquer preço. Outros queriam endurecer. Outros temiam uma guerra regional. Outros receavam o colapso do regime e a implosão de todo o Médio Oriente. Outros ainda usavam o dossier iraniano como peça de xadrez em rivalidades maiores com Rússia, China ou mesmo entre aliados ocidentais. O resultado foi previsível: mensagens contraditórias, janelas de oportunidade e tempo — e tempo, para um regime revolucionário com estratégia de longo prazo, vale mais do que petróleo.
A própria Reuters descreve agora o receio de aliados europeus face a um entendimento apressado entre Washington e Teerão, não por amarem o conflito, mas porque sabem que acordos demasiado rápidos podem servir mais a fotografia política do momento do que a resolução técnica do problema. Ver Reuters, 19 de Abril de 2026.
Em suma: o Irão ganhou espaço porque os seus adversários raramente conseguiram alinhar estratégia, vontade, tempo e custos. A democracia hesita; o regime ideológico aproveita. E a história, infelizmente, costuma premiar quem tem mais paciência estratégica.
Quinta razão: mísseis e drones são a arma ideal da guerra assimétrica
O Irão não precisava de construir uma marinha comparável à americana nem uma força aérea comparável à israelita. Bastava-lhe erguer uma capacidade de saturação, intimidação e imposição de custo. Mísseis e drones servem exactamente para isso: não exigem paridade total, exigem quantidade, alcance, dispersão e capacidade de sobrevivência. Permitem ameaçar cidades, infra-estruturas, tráfego marítimo, bases regionais e cadeias energéticas. Servem para dissuadir, retaliar e projectar medo.
A Reuters recordou que o Irão desenvolveu um vasto leque de mísseis balísticos e de cruzeiro, apoiado numa doutrina de dissuasão regional. Mesmo após ataques maciços, a avaliação publicada em Março indicava que o Irão continuava capaz de disparar e de manter uma porção significativa da capacidade de lançamento. Ver Reuters, 26 de Fevereiro de 2026 e Reuters, 27 de Março de 2026.
É por isso que a ameaça continua tão séria. Mesmo degradado, um arsenal deste tipo continua a ser aterrador. Não precisa de estar intacto para ser medonho. Basta que sobreviva em número suficiente para manter a capacidade de infligir dano severo.
O terrorismo como prolongamento da estratégia
Quanto ao carácter do regime, também aí convém falar com base documental. O Departamento de Estado dos Estados Unidos mantém o Irão na lista de State Sponsors of Terrorism, e o relatório oficial de 2023 afirma que o país continuou a ser o principal patrocinador estatal do terrorismo. Ver State Department, State Sponsors of Terrorism e Country Reports on Terrorism 2023.
Isto não significa que toda a geopolítica da região possa ser reduzida a um slogan, mas significa que a acusação de patrocínio a actores armados e proxies não é mera retórica partidária ou espuma mediática. Trata-se de uma classificação oficial, reiterada e enquadrada em documentação pública norte-americana.
Conclusão: o preço da gestão tímida
No fim, o mundo deixou o Irão armar-se até aos dentes porque preferiu durante demasiado tempo uma mistura de contenção imperfeita, diplomacia parcial, sanções insuficientes e medo do confronto decisivo. Não se quis pagar cedo o preço político, estratégico e económico de uma contenção mais firme; paga-se agora o preço maior de enfrentar um regime enterrado em betão, blindado em túneis e armado com instrumentos de terror regional.
A imagem certa não é a de um monstro que nasceu de repente. É a de um incêndio tolerado durante anos atrás da montanha. Quando finalmente se olha com seriedade para ele, já não ilumina apenas o horizonte — ameaça toda a paisagem.
Reuters, "What are Iran's ballistic missile capabilities?", 26 de Fevereiro de 2026 — ligação
Reuters, "U.S. can only confirm about a third of Iran's missile arsenal destroyed, sources say", 27 de Março de 2026 — ligação
Reuters, "Allies fear a rushed US-Iran framework deal could backfire, leaving technical deadlock", 19 de Abril de 2026 — ligação
Reuters, "Iran replenishes launchers at higher rate than pre-war, guards commander says", 19 de Abril de 2026 — ligação
U.S. Department of State, "State Sponsors of Terrorism" — ligação
U.S. Department of State, "Country Reports on Terrorism 2023" — ligação
Francisco Gonçalves & Augustus Veritas
Para o Fragmentos do Caos — onde a geopolítica é lida sem ingenuidade, sem perfumes diplomáticos e sem medo de chamar perigo ao perigo.
Nota Editorial
Perante um Irão altamente armado e há muito associado ao patrocínio de violência regional e terrorismo por procuração, a Europa não pode dar-se ao luxo de esquecer nem as proclamações fanáticas do regime, nem a longa sombra das suas operações clandestinas. Expressões como "morte ao Ocidente", "morte à América" ou o apelo ao desaparecimento de Israel não são mero teatro verbal: fazem parte de uma cultura política de hostilidade persistente, alimentada durante décadas.
Mas a Europa também não deveria esquecer outra realidade mais concreta e mais incómoda: ao longo dos anos, o espaço europeu foi palco de conspirações, tentativas de assassinato, intimidação de dissidentes e operações opacas atribuídas ao aparelho iraniano ou a redes ligadas aos seus interesses. Quando um regime combina fanatismo ideológico com estruturas clandestinas, proxies violentos e capacidade militar crescente, a prudência deixa de poder confundir-se com passividade.
O erro europeu tem sido, demasiadas vezes, o de tratar ameaças persistentes como se fossem ruído distante, gerível, periférico. Mas há momentos em que a História cobra a factura da ingenuidade. E perante um regime que alia retórica de destruição, capacidade de armamento e operações encobertas, a lucidez estratégica deixa de ser opção: passa a ser dever de sobrevivência.