BOX DE FACTOS

  • A União Europeia afirma que o Hamas não deve ter qualquer papel no futuro de Gaza e que as armas dos grupos armados devem ser desmanteladas.
  • O Conselho Europeu condenou os ataques do Hezbollah contra Israel e apoia a implementação da Resolução 1701 no Líbano.
  • A missão UNIFIL não foi desenhada para desarmar o Hezbollah à força, mas para apoiar a estabilização e a autoridade do Estado libanês.
  • A Europa continua, no entanto, sem instrumentos coercivos suficientes para neutralizar efectivamente estes grupos armados.
  • Assim, multiplica condenações diplomáticas sem conseguir transformar exigências políticas em segurança real para Israel.

Europa, Israel e a cobardia estratégica: condenar é fácil, desarmar terroristas é que não

A Europa tornou-se especialista em exigir contenção a quem está sob ataque, ao mesmo tempo que revela uma impotência quase ritual perante aqueles que continuam armados, entrincheirados e ideologicamente dedicados à destruição de Israel.
Há uma hipocrisia diplomática que se foi instalando no discurso europeu sobre o Médio Oriente, e que hoje já mal consegue disfarçar-se sob o verniz do equilíbrio. Sempre que Israel reage militarmente ao Hamas ou ao Hezbollah, a Europa apressa-se a lembrar proporcionalidade, contenção, direito humanitário, civis, soberania e risco de escalada. Tudo isso pode ser legítimo em abstracto. O problema começa quando se pergunta a seguir: e quem obriga os grupos terroristas a deixarem de disparar? Quem os desarma? Quem lhes corta efectivamente a capacidade operacional? Quem garante, no terreno, que Israel deixa de estar sob ameaça permanente? É aqui que o edifício moral da diplomacia europeia começa a ranger. Porque condenar operações israelitas ou advertir para os excessos da guerra é fácil. Muito mais difícil é transformar em realidade a exigência elementar de que o Hamas e o Hezbollah deixem de existir como ameaça armada. A Europa sabe escrever comunicados. Sabe convocar reuniões. Sabe redigir apelos. Sabe exprimir preocupação. O que não sabe — ou não quer — é assumir o custo político, militar e estratégico de impor consequências sérias aos actores armados que continuam a bombardear Israel ou a manter a região em estado de tensão crónica.

O teatro da condenação simétrica

O grande vício europeu nesta matéria é a crença quase religiosa na simetria verbal. Para parecer equilibrada, a diplomacia europeia sente necessidade de distribuir censura em várias direcções, como se a elegância moral do texto compensasse a assimetria brutal dos factos. De um lado, Estados reconhecidos, sujeitos a escrutínio global, pressionados mediaticamente e chamados a responder por cada operação. Do outro, grupos armados que se alimentam precisamente da instabilidade, do escudo humano, da guerrilha urbana e da perpetuação estratégica do conflito. E, no entanto, o discurso europeu insiste frequentemente em colocar tudo dentro da mesma moldura abstracta de "desescalada". Esta linguagem pode funcionar em seminários diplomáticos, mas falha redondamente quando confrontada com a realidade. O Hamas não se desarma com apelos. O Hezbollah não abdica dos seus arsenais porque Bruxelas pede contenção. O fanatismo político-religioso, a lógica miliciana e a instrumentalização da guerra não recuam perante fórmulas bem redigidas. Recuam perante força, dissuasão, neutralização efectiva e pressão política sustentada com custo real. E é precisamente isso que a Europa, apesar de toda a sua superioridade retórica, raramente demonstra estar disposta a fazer.

O Hamas não deve existir politicamente — mas continua militarmente presente

A própria União Europeia reconhece que o Hamas não deve ter qualquer papel no futuro de Gaza. Reconhece também, em linguagem diplomática, que o desarmamento permanente dos grupos armados é condição para qualquer solução estável. Ora, se isso é reconhecido, então a conclusão lógica deveria ser simples: não basta pedir moderação a Israel; é preciso garantir que o poder militar do Hamas é realmente desmontado. Mas aí instala-se a cobardia prática. A Europa quer os resultados do desarmamento sem assumir os meios do desarmamento. Quer um Hamas neutralizado, mas sem o custo político de uma linguagem clara sobre o que isso exige. Quer paz, mas sem admitir que certos actores armados vivem precisamente da impossibilidade da paz. Quer estabilidade, mas sem aceitar que há organizações cuja própria identidade estratégica depende da guerra permanente contra Israel. Assim, o discurso europeu flutua numa abstração confortável: o Hamas não deve ter futuro. Muito bem. Mas enquanto esse "não deve" não se traduzir em mecanismos reais de eliminação da sua capacidade militar e do seu domínio territorial, a frase permanece apenas isso: uma decoração diplomática sobre um campo de batalha ainda activo.

O Hezbollah: o elefante armado que a Europa prefere contornar

No caso do Hezbollah, a contradição torna-se ainda mais evidente. A Europa reconhece o perigo, condena os ataques contra Israel e invoca a Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que prevê que não existam armas fora do controlo do Estado libanês no sul do Líbano. Parece claro. Parece firme. Parece até juridicamente suficiente. Só que não é. Na prática, o Hezbollah continua a ser uma força militar paralela, profundamente armada, entranhada no tecido político e territorial libanês, alimentada pelo Irão e integrada numa arquitectura regional de confrontação com Israel. E a missão UNIFIL, tantas vezes invocada como sinal de presença internacional, não tem mandato para o desarmar coercivamente. Ou seja: a comunidade internacional reconhece o problema, estaciona uma missão no terreno, recita resoluções, mas deixa intacta a estrutura armada que tornou a resolução necessária. É um modelo quase perfeito de impotência administrada. Todos sabem. Todos dizem. Ninguém resolve.

Israel é criticado por fazer o que os outros não conseguem garantir

É aqui que a irritação israelita — e a de muitos observadores — se torna perfeitamente compreensível. Porque Israel é repetidamente confrontado com a seguinte exigência implícita: deve conter-se, limitar-se, aceitar pressão externa e gerir a ameaça com parcimónia, mesmo quando os mecanismos internacionais falham sistematicamente em garantir a neutralização dos grupos que o atacam. Em bom português: pede-se a Israel que suporte estrategicamente aquilo que os outros são incapazes de remover politicamente. Ora, nenhum Estado aceitaria de bom grado viver sob foguetes, milícias fronteiriças, túneis, guerrilha ou arsenais apontados às suas cidades, enquanto a comunidade internacional lhe responde com notas de preocupação e conferências multilaterais. E, no entanto, é mais ou menos isso que a Europa tem oferecido: crítica elevada, coerção insuficiente e uma moralidade verbal que raramente se converte em arquitectura séria de segurança. O que torna tudo isto ainda mais amargo é que a Europa, ao condenar sem conseguir desarmar, acaba por produzir um duplo fracasso. Falha perante Israel, porque não lhe garante segurança real. E falha também perante os civis palestinianos e libaneses, porque não remove do seu destino histórico os grupos armados que transformaram as suas sociedades em plataformas permanentes de guerra.

A diplomacia sem dentes

O drama europeu, no fundo, é este: a União quer desempenhar o papel de árbitro moral sem dispor, ou sem querer usar, os instrumentos de poder compatíveis com esse papel. Não é uma potência militar coerente. Não é uma federação estratégica. Não fala sempre a uma só voz. Não controla o terreno. Não comanda forças decisivas. Não determina a arquitectura regional. E, apesar disso, insiste em intervir discursivamente como se a sua autoridade normativa bastasse para moldar o comportamento de actores que só compreendem custo, força e sobrevivência. Há uma forma de vaidade nisso. Uma vaidade cansada, burocrática e muito europeia. A convicção de que a gramática do direito e da condenação formal pode, sozinha, travar milícias, fanatismos armados e estratégias regionais construídas sobre a lógica da destruição do adversário. Não pode. E a prova está à vista: continuam armados, continuam activos, continuam a disparar, continuam a fazer do conflito uma condição de existência. Enquanto isso, a Europa continua a falar como se o problema principal fosse a falta de equilíbrio no tom, e não a falta de capacidade para impor paz a quem vive da guerra.

Epílogo

Não, a Europa não absolve formalmente o Hamas nem o Hezbollah. Pelo contrário: reconhece que o Hamas não deve ter futuro político em Gaza, condena os ataques do Hezbollah e apoia o princípio de que o Estado libanês deve ser o único detentor legítimo da força. Mas entre reconhecer isto e fazê-lo acontecer vai a distância toda entre a diplomacia e a realidade. E essa distância é, hoje, uma forma de falência estratégica. Porque enquanto os grupos armados continuam operacionais, enquanto Israel continua sob ameaça e enquanto a comunidade internacional continua sem impor o desarmamento efectivo desses actores, cada nova condenação a Israel soa inevitavelmente incompleta, assimétrica e, para muitos, moralmente oca. A Europa sabe redigir condenações elegantes contra todos; o que não sabe é impedir que os inimigos de Israel continuem armados enquanto exige a Israel uma contenção que ela própria é incapaz de garantir.

Fonte de inspiração

Este artigo foi inspirado pela contradição visível entre a severidade com que muitos actores europeus avaliam as operações israelitas e a incapacidade persistente da comunidade internacional para garantir o desarmamento efectivo do Hamas e do Hezbollah.

Referências

Francisco Gonçalves, com coautoria editorial de Augustus Veritas para Fragmentos do Caos

A impotência estratégica veste-se muitas vezes de equilíbrio moral; mas quando os terroristas continuam armados, a retórica deixa de soar nobre e começa a soar vazia.

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