Democracias de Retórica, Cegueira de Critério

BOX DE FACTOS
- Freedom House classifica Israel como Free com 73/100 em 2025. 0
- O Irão surge como Not Free, com 11/100 em 2025 e 10/100 no perfil actualizado de 2026. 1
- A Cisjordânia surge classificada como Not Free, com 22/100. 2
- O V-Dem assinala que Israel perdeu em 2023 o estatuto de liberal democracy e é hoje classificado como electoral democracy, enquanto o Irão permanece autocracia. 3
- A própria Freedom House sublinha que a liberdade global continua em declínio, com repressão profunda em autocracias e erosão em várias democracias. 4
Quando a Liberdade se Torna uma Nuance e o Terror uma Causa Perfumada
Uma das confusões mais graves do nosso tempo consiste em apagar diferenças essenciais em nome de uma falsa sofisticação moral. Há quem julgue refinado colocar tudo no mesmo plano, como se a comparação indistinta fosse sinal de inteligência e a incapacidade de hierarquizar realidades políticas fosse prova de consciência superior. Mas não é. Há uma distância civilizacional entre uma democracia imperfeita, sujeita a crítica severa, e regimes ou estruturas de poder assentes no terror, na repressão e na negação sistemática da liberdade.
Israel pode e deve ser criticado. Como qualquer democracia, e talvez até com maior intensidade precisamente porque se reclama democrática. Mas uma coisa é a crítica exigente a uma democracia com eleições, pluralismo, imprensa, tribunais e conflito político aberto. Outra, muito diferente, é dissolver a distinção fundamental entre isso e um regime como o iraniano, que a Freedom House classifica como Not Free, com 11/100 em 2025 e 10/100 no perfil actualizado de 2026. 5
A crítica legítima e a equivalência abusiva
Convém ser intelectualmente rigoroso. Israel não é apresentado pelas métricas internacionais como democracia perfeita. O V-Dem assinala que perdeu em 2023 o seu estatuto de liberal democracy e passou a ser classificado como electoral democracy. Isso significa erosão, não absolvição. Significa imperfeição, conflito interno e deterioração de qualidade democrática. 6
Mas essa mesma fonte continua a distingui-lo claramente do universo das autocracias, no qual o Irão permanece. E a Freedom House, que mede direitos políticos e liberdades civis, mantém Israel como Free, com 73/100, ao passo que o Irão fica em 11/100 e os territórios palestinianos avaliados separadamente, como a Cisjordânia, aparecem como Not Free com 22/100. 7
Isto não resolve o conflito. Não desculpa abusos. Não santifica ninguém. Mas obriga a preservar uma linha de distinção: liberdade defeituosa não é a mesma coisa que repressão estrutural. Democracia ferida não é a mesma coisa que teocracia coerciva. E uma sociedade onde ainda existem voto, pluralismo e conflito institucional não pode ser moralmente fundida sem mais com estruturas políticas construídas sobre o medo, a violência e a supressão sistemática da dissidência.
O perfume das causas da moda
O que se passa hoje em muitos sectores da opinião pública ocidental é menos pensamento crítico do que estética moral. As causas são embaladas, perfumadas, editadas para consumo emocional. A complexidade histórica some-se. A natureza dos regimes esbate-se. A liberdade passa a ser tratada como detalhe burguês e o terror, desde que revestido da linguagem certa, adquire estatuto de causa "anti-sistémica", "resistente" ou "autêntica".
É aqui que se perde o Norte. Quando a liberdade deixa de ser reconhecida na sua forma concreta, imperfeita, laboriosa e contraditória, e passa a ser relativizada por modas de opinião, o juízo moral desorganiza-se. A crítica deixa de distinguir entre quem reprime com método e quem ainda mantém mecanismos internos de autocorrecção, mesmo debilitados. O resultado não é maior lucidez. É relativismo moral com perfume progressista.
O problema do Ocidente não é só político. É conceptual.
A Freedom House alerta que a liberdade global continua em declínio, pressionada tanto por conflitos armados como por repressão em autocracias e erosão em democracias. O problema, portanto, não é imaginar que tudo está bem do lado das democracias. Não está. O problema é outro: perder a capacidade de distinguir gradações, naturezas de regime e fundamentos morais. 8
Uma democracia imperfeita pode ser injusta, brutal em certos momentos, errática ou politicamente degradada. Mas continua a ser lugar onde a contestação interna ainda pode existir, onde há imprensa, eleições, tribunais, oposição e dissenso público. Isso não é detalhe secundário. É precisamente a diferença entre uma ordem aberta, ainda que falível, e uma ordem fundada na sujeição.
Quando essa distinção desaparece do vocabulário moral, o Ocidente não está a tornar-se mais exigente. Está a tornar-se mais confuso. E um mundo que já não sabe distinguir entre liberdade defeituosa e tirania organizada começa a perder não apenas critério político, mas instinto civilizacional.
Entre a crítica e a cegueira
Não se trata de pedir alinhamentos automáticos, nem de exigir imunidade crítica a democracias sob tensão. Trata-se de recusar a equivalência grosseira. Uma opinião pública madura deve conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo: criticar duramente os erros, excessos e falhas de uma democracia imperfeita; e, ao mesmo tempo, recusar a equiparação moral dessa democracia a regimes que negam por sistema a liberdade dos seus próprios cidadãos.
Quando já não se consegue fazer isto, o debate público entrou numa fase patológica. A causa vale mais do que a verdade. A emoção vale mais do que o critério. O símbolo vale mais do que a estrutura real do regime. E é nesse exacto momento que a liberdade começa a ser tratada como nuance dispensável e o terror como linguagem desculpável.
Conclusão
Criticar Israel é legítimo. Compará-lo, sem distinções decisivas, ao Irão ou a estruturas políticas que assentam na repressão e no terror é outra coisa. Já não é crítica séria. É sintoma de uma profunda perda de noção do que a liberdade realmente significa.
O drama do Ocidente não está apenas em discutir mal o Médio Oriente. Está em começar a esquecer que a liberdade, mesmo imperfeita, continua a ser uma conquista civilizacional superior à tirania organizada. Quando a opinião pública transforma a liberdade numa nuance e o terror numa causa perfumada, não está a refinar a moral — está a dissolvê-la.
Referências de publicações internacionais
— Freedom House, Israel – Freedom in the World 2025.
— Freedom House, Iran – Freedom in the World 2025.
— Freedom House, West Bank – Freedom in the World 2025.
— Freedom House, Iran – Country Profile 2026.
— V-Dem, Democracy Report 2025.
— V-Dem, Democracy Report 2026.
— Freedom House, Freedom in the World.
Frase para reflexão
Quando a opinião pública transforma a liberdade numa nuance e o terror numa causa perfumada, não está a refinar a moral — está a dissolvê-la.
Texto editorial para o Fragmentos do Caos.
Co-criação editorial com Augustus Veritas.
Nota editorial
Quando líderes como Pedro Sánchez se apresentam como mobilizadores morais das democracias ocidentais, convém olhar não apenas para a retórica, mas para a coerência dos seus actos. Em 2026, Espanha agravou fortemente a ruptura diplomática com Israel, chegando a retirar de forma permanente o seu embaixador, ao mesmo tempo que manteve e até reabriu a sua embaixada em Teerão, num contexto em que o Irão continua amplamente classificado como regime autoritário e repressivo por observadores internacionais. ([reuters.com](https://www.reuters.com/world/middle-east/spain-removes-ambassador-israel-2026-03-11/?utm_source=chatgpt.com)) ([freedomhouse.org](https://freedomhouse.org/country/iran/freedom-world/2025?utm_source=chatgpt.com))
Também é factual que Sánchez foi um dos promotores europeus do reconhecimento do Estado palestiniano em 2024, ao mesmo tempo que a Freedom House continua a classificar a Cisjordânia como Not Free e a assinalar a grave deterioração das liberdades civis e políticas nos territórios palestinianos. ([reuters.com](https://www.reuters.com/world/spain-ireland-norway-recognise-palestinian-statehood-2024-05-28/?utm_source=chatgpt.com)) ([freedomhouse.org](https://freedomhouse.org/country/west-bank/freedom-world/2025?utm_source=chatgpt.com))
O problema, portanto, não está em criticar Israel — uma democracia imperfeita deve poder ser criticada. O problema surge quando essa crítica se converte em superioridade moral selectiva, enquanto se preservam relações diplomáticas normais com regimes ou estruturas políticas cujo historial de repressão, censura e negação de liberdade é incomparavelmente mais grave. Aí já não estamos perante uma política externa moralmente exigente. Estamos perante uma hierarquia moral distorcida, moldada mais pela conveniência política, pela opinião pública e pela estética ideológica do momento do que por um critério sólido de liberdade.
Uma democracia que corta laços com uma democracia imperfeita, mas mantém normalidade diplomática com uma teocracia repressiva, não está a elevar a moral internacional. Está apenas a expor a incoerência do seu próprio discurso.