BOX DE FACTOS
  • Em sectores importantes do pós-25 de Abril, a linguagem do anti-imperialismo e da hostilidade à NATO ganhou forte presença política e cultural.
  • O PCP continua ainda hoje a usar uma linguagem fortemente anti-NATO e anti-imperialista nas suas posições públicas.
  • No Dia D, os Aliados sofreram cerca de 10.300 baixas, das quais 6.603 eram americanas.
  • Entre Junho de 1944 e 8 de Maio de 1945, os EUA sofreram 552.117 baixas no teatro europeu, com 104.812 mortos em combate.
  • Criticar os EUA pode ser legítimo; apagar o seu papel na libertação da Europa é desonestidade histórica.

A Amnésia Portuguesa sobre a América e a Libertação da Europa

Em Portugal, há muita gente que pronuncia "imperialismo americano" com a mesma facilidade com que outros dizem "bom dia". É um reflexo automático, quase litúrgico, herdado de décadas de catequese ideológica. O problema começa quando essa facilidade retórica se transforma em amnésia histórica.

Depois do 25 de Abril, sobretudo nos sectores mais marcados pela influência comunista e pela esquerda revolucionária, consolidou-se em Portugal uma gramática política que fez do anti-americanismo um sinal de pureza ideológica. A América passou a ser, para muita gente, a encarnação de todos os males do mundo moderno: o capitalismo, a NATO, o "imperialismo", a ingerência, a manipulação, a dominação. E assim nasceu um vício nacional de linguagem: o de culpar os Estados Unidos por tudo e de os condenar quase por reflexo, como quem recita um credo aprendido na juventude e nunca mais revisto à luz da História.

É certo que os Estados Unidos, como qualquer grande potência, cometeram erros, excessos, abusos e intervenções profundamente criticáveis. Ninguém sério precisa de santificar Washington. Mas uma coisa é criticar com critério. Outra, muito diferente, é transformar a América numa caricatura permanente, varrendo para debaixo do tapete um dos factos mais decisivos do século XX: sem o poder militar, industrial e humano dos Estados Unidos, a libertação da Europa do nazismo teria sido muito mais lenta, muito mais sangrenta, ou simplesmente impossível nos termos em que aconteceu.

O reflexo ideológico que ficou

Em Portugal, a palavra "imperialismo" sobreviveu mais do que o próprio século que a produziu. Não como conceito de análise rigorosa, mas como arma de arremesso pronta a ser usada em qualquer discussão. E isso não aconteceu por acaso. A cultura política que se adensou após a revolução acolheu slogans, símbolos e vocabulários vindos de uma matriz fortemente marxista-leninista, onde os Estados Unidos surgiam como inimigo estrutural e a NATO como braço armado da dominação ocidental.

Essa herança não desapareceu. Continuou a circular no espaço partidário, sindical, académico, mediático e panfletário, muitas vezes sem exame crítico. A retórica mudou de roupa, tornou-se por vezes mais polida, mas a espinha dorsal ficou lá: a suspeita quase automática da América, o tom moralista contra a NATO e a leitura do mundo através da velha lente do anti-imperialismo de catálogo.

A História que os slogans preferem esquecer

Mas a História, essa senhora incómoda, raramente respeita slogans. No dia 6 de Junho de 1944, nas praias da Normandia, os Aliados sofreram cerca de 10.300 baixas. Destas, 6.603 eram americanas. Não eram metáforas. Não eram manifestos. Não eram palavras de ordem gritadas em anfiteatros. Eram homens de carne, medo e sangue, muitos deles jovens que tinham atravessado o Atlântico para morrer num continente que não era o seu, em nome de uma guerra que não tinham criado, mas que entenderam como necessária para derrotar o nazismo.

E esse foi apenas o começo de uma factura imensa. Entre Junho de 1944 e 8 de Maio de 1945, os Estados Unidos sofreram 552.117 baixas no teatro europeu, das quais 104.812 mortos em combate. Estes números não são propaganda; são memória dura. Cada um deles representa um corpo tombado, uma família desfeita, uma vida interrompida para que a Europa pudesse voltar a respirar fora da asfixia nazi.

Liberdade herdada, gratidão ausente

Há qualquer coisa de moralmente indecente em certos europeus — e também em certos portugueses — que falam hoje da América com desprezo automático, esquecendo que foi essa mesma América que ajudou decisivamente a abrir as portas da libertação europeia. Sem os americanos, muitos dos que hoje se pavoneiam em liberdades cómodas talvez nunca tivessem conhecido o direito de escrever, votar, protestar, publicar ou insultar o "imperialismo" em voz alta.

Isto não significa submissão cultural, nem gratidão canina, nem reverência acrítica. Significa apenas uma coisa muito mais simples e mais rara: honestidade histórica. Uma democracia adulta pode criticar os Estados Unidos quando eles erram. O que não pode fazer, sem perder dignidade intelectual, é fingir que a Europa moderna não deve parte essencial da sua sobrevivência livre ao sacrifício americano.

Portugal e a memória enviesada

Em Portugal, a ironia é ainda mais grotesca. Um país pequeno, periférico e historicamente dependente de protecção externa conseguiu, em certos meios, adoptar uma pose de superioridade moral perante os Estados Unidos, como se a História pudesse ser reescrita com cartazes, slogans e indignação a prazo. Há nisso uma mistura de preguiça mental, ignorância histórica e exibicionismo ideológico.

É muito fácil falar em "imperialismo americano" com o conforto retrospectivo de quem nunca teve de desembarcar sob metralhadora numa praia minada. É muito fácil cuspir na potência atlântica quando o custo da liberdade já foi pago por outros. O difícil, e o honesto, é reconhecer que o mundo livre europeu não nasceu apenas de boas intenções, mas também do sangue derramado por americanos, britânicos, canadianos e outros aliados que vieram morrer a um continente em ruínas.

Epílogo

Criticar a América não é um pecado. Transformá-la no bode expiatório universal de todos os males, apagando simultaneamente o seu papel decisivo na derrota do nazismo e na libertação da Europa, isso sim, é uma forma de indigência moral e intelectual.

Os povos sérios não vivem de amnésias convenientes. Vivem de memória, de proporção e de justiça histórica. E talvez Portugal precise de reaprender precisamente isso: que uma coisa é pensar pela própria cabeça; outra é repetir slogans envelhecidos como se fossem sabedoria. A primeira atitude é digna. A segunda é apenas ruído com pretensões.

Referências históricas

PCP — textos e comunicados oficiais sobre a NATO e o "imperialismo", incluindo a defesa da dissolução da Aliança Atlântica.

Eisenhower Presidential Library — dados sobre o Dia D e as baixas aliadas na invasão da Normandia.

Casa Branca / arquivos históricos — estimativa das baixas de 6 de Junho de 1944: 6.603 americanas, 2.700 britânicas e 946 canadianas.

Department of Defense — 552.117 baixas americanas no teatro europeu entre Junho de 1944 e 8 de Maio de 1945, com 104.812 mortos em combate.

Frase a Reter

Muitos dos que hoje cospem no "imperialismo americano" falam livremente apenas porque, um dia, milhares de americanos vieram morrer às praias da Europa para que o silêncio nazi não fosse eterno.

Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — quando a memória regressa, a propaganda perde a máscara.
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