Portugal revisitado : Quando o tino vira desatino

Quando o tino vira desatino
Nestes dias em que o estreito de Ormuz voltou ao centro da tensão mundial, com ameaças directas à navegação e a uma rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, seria de esperar um mínimo de rigor histórico e geopolítico. Mas não: há sempre quem aproveite o momento para transformar a História de Portugal numa pequena cerimónia de autoflagelação, como se explicar o século XVI fosse o mesmo que o reduzir a uma caricatura moral para consumo elegante. 0
Sim, o passado imperial português teve violência, domínio e crueldade, como quase todas as potências do seu tempo. Isso merece estudo sério, não slogans tardios. O que empobrece o debate é usar Ormuz — um ponto estratégico crucial ontem e hoje — apenas como pretexto para um ajuste de contas ideológico, onde a complexidade desaparece e sobra apenas o prazer narcísico de condenar os mortos para parecer moralmente superior entre os vivos. O estreito continua central precisamente porque a geopolítica não desapareceu: quem controla passagens vitais condiciona comércio, energia e poder. 1
O mais curioso é que muitos dos que falam com este desdém quase litúrgico vivem confortavelmente protegidos por rotas marítimas seguras, alianças militares, cadeias energéticas e equilíbrios estratégicos que assentam exactamente na velha realidade que fingem desprezar. A retórica pode ser moderna, mas a dependência do mundo real continua inteira. E o mundo real, essa criatura pouco dada a seminários, continua a lembrar que Ormuz não é metáfora: é poder bruto. 2
Quando o tino desaparece, sobra isto: anacronismo com pose, culpa com verniz, e desatino vestido de lucidez. Não é pensamento crítico. É apenas decadência intelectual em fato civil.
Frase para reflexão : Quando uma elite troca o estudo da História pelo prazer de a insultar, deixa de produzir inteligência e passa apenas a fabricar pose.